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Ex-reitores debatem rumos da Universidade

Cristovam Buarque e João Claudio Todorov relembram projetos concebidos na UnB que viraram referência nacional

UnB Agência - Redação Publicação:25/03/2013 15:47Atualização:25/03/2013 15:54

Luiz Fernando Molina - Da Secretaria de Comunicação da UnB

 (Mariana Costa/UnB Agência)
É preciso debater permanentemente os rumos da Universidade. Este foi um dos consensos a que chegaram membros de convidados da Comissão UnB 50 Anos que participaram da 34ª reunião, na tarde desta segunda-feira, 18 de março.

O reitor Ivan Camargo recepcionou dois ex-reitores da Universidade de Brasília: Cristovam Buarque (1985-89) e João Claudio Todorov (1993-97). A comissão foi brindada com memórias e reflexões sobre a instituição que dirigiram, sua missão e seu futuro. “É um prazer e uma honra poder desfrutar da presença de pessoas tão importantes na história da UnB”, declarou Ivan Camargo.

Ao retornar, em 1969, a UnB estava irreconhecível. Assim Todorov descreveu sua impressão ao voltar do doutorado em Psicologia, cursado nos Estados Unidos para onde tinha ido em 1965. Seu retorno efetivo à Universidade de Brasília se deu em 1973. Cinco Anos depois, participou da criação da Associação dos Docentes da UnB (ADUnB), presidindo sua primeira assembleia.

A vocação de Todorov pela atuação política já se manifestara durante o curso de graduação, na Universidade de São Paulo, quando integrou equipe do diretório acadêmico. Logo que chegou a Brasília, em 1964, dirigiu a Associação dos Instrutores da UnB, ao lado de colegas como o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Sepúlveda Pertence.

João Claudio Todorov foi vice-reitor na gestão Cristovam Buarque. O então decano de pesquisa e pós-graduação e hoje membro da Comissão UnB 50 Anos, professor Isaac Roitman, lembra bem daqueles dias. “Como éramos uma equipe com pouca experiência em gestão, costumávamos nos reunir até às 21 horas, analisando as demandas da universidade”, conta.

“Participar da gestão da universidade foi minha experiência profissional mais rica”, admitiu Todorov. Para ele, era necessário se guiar por duas ideias básicas. A primeira, sacudir a universidade. “Foram 21 anos de intervenção militar. Era preciso avivar praticamente todas as áreas”, relatou com sua experiência de vice-reitor e reitor. A segunda era a máxima do “não desmonte o relógio sem antes saber montá-lo depois”. Para Todorov, uma das características da gestão de Cristovam foi não ter promovido uma caça às bruxas. “Não houve revanchismo”, declarou.

O hoje senador Cristovam Buarque (PDT-DF) lembra do período 1985-1989 como o de maior desafio em sua carreira. “Estávamos em ambiente de transição política, inflação generalizada e transformação da realidade científica e tecnológica”, analisa. Segundo Cristovam, o papel da universidade deve ser debatido de forma permanente levando em conta os desafios do mundo contemporâneo.

Para o ex-reitor da UnB, que também foi governador do Distrito Federal (1995-1998) e ministro da educação (2003-2004), é preciso promover aprendizado continuado e tanto a universidade quanto o profissional formado por ela precisam se atualizar permanentemente . “O diploma não é para sempre”, adverte. “Em poucos anos mudam-se os contextos”.

INOVAÇÃO

 

Foi na gestão de Cristovam que se criou o Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (CEAM). “Houve resistência”, lembrou Todorov, na época vice-reitor, “mas o CEAM gerou uma nova dinâmica na universidade”. A palavra da ordem era e continua sendo a multidisciplinaridade. “O conhecimento não pode ser construído de forma departamental”, sentencia Cristovam, que percebe no potencial dos Núcleos Temáticos do CEAM o encontro de diversos saberes.

Outras iniciativas inovadoras ressaltadas pelos ex-reitores foram o pioneirismo da UnB na internet e a implementação do Programa de Avaliação Seriada (PAS). “A idéia foi proposta pelo professor Lauro Morhy (então responsável pela seleção dos vestibulandos e reitor da UnB entre 1997 e 2005)”, relembra Cristovam, que retomou o projeto assim que assumiu o GDF. “O PAS faz com que o aluno estude durante todo o ensino médio”, compara.

Outra iniciativa nascida no período ocorreu no Núcleo de Estudos do Brasil Contemporâneo, ganhando o país e se projetando internacionalmente. “O Bolsa-Escola nasceu bem aqui no Salão de Atos da Reitoria”, contou Cristovam. “Buscávamos estratégias para eliminar a evasão escolar”. A ideia virou programa bem sucedido do GDF e integra a principal política social do país há mais de uma década.

A bem sucedida campanha “Paz no Trânsito” também é um exemplo de intervenção na cidade com participação universitária. Encabeçada pela UnB e outras instituições do DF, a campanha conseguiu o que poucos julgavam ser possível. “Ninguém acreditava que se conseguisse fazer com que as pessoas respeitassem a faixa de pedestre”, relata Todorov. “Não era uma questão de engenharia de trânsito nem de publicidade e, sim, de educação”, completou Cristovam.

Para Cristovam o sucesso do Paz no Trânsito foi possível por causa do envolvimento das crianças. João Claudio Todorov reiterou o diálogo entre instituições nesta e em outras iniciativas. “Parceria foi outra palavra-chave da nossa gestão”, relatou, ao mencionar a operação de permuta de projeções por áreas construídas, resultando em fonte de recursos para a UnB.

FUTURO - A questão da autonomia universitária também se fez presente no debate. Todorov não enxerga possibilidade de implementação de mais autonomia universitária a curto prazo, enquanto que o reitor Ivan Camargo avalia que nem mesmo há um consenso entre os reitores de universidades federais brasileiras quanto a temática.

Para Cristovam Buarque, o maior desafio está em como a universidade lida com suas corporações: sindicatos e colegiados. “Precisamos ser autônomos sem ser autistas, ou seja, sem dar as costas para a sociedade que financia a universidade”, receita. Buarque prega que a autonomia universitária não deve ser somente em relação ao setor público mas também aos setores empresariais e sindicais.

HOMENAGEM A NOVIÓN

 

Na mesma reunião, foi apresentado o livro “Anatomias populares: A antropologia médica de Martín Alberto Ibáñez-Novión", que rendeu homenagens ao docente argentino, professor do Departamento de Antropologia (DAN) entre 1973 e 2003. Publicado pela Editora UnB, o livro reúne doze textos do pesquisador, promovendo interface entre a Antropologia e as Ciências Biomédicas.

A edição do livro é assinada pelos professores Soraia Fleischer e Carlos Sautchuck, ambos do DAN. Fleischer credita a viabilidade da obra à família do professor Novión, falecido há dez anos, bem como aos ex-alunos e ex-colegas do antropólogo. “Ele era extremamente inspirador”, afirma a professora.“Trazendo contribuições desenvolvidas pelo professor Novión ao longo de sua vida, o livro é uma obra que promove sua trajetória e também se projeta para o futuro por possibilitar que novas gerações conheçam o trabalho desenvolvido”, conclui.

O coordenador executivo da Comissão UnB 50 Anos Fernando Oliveira Paulino destacou a abrangência da ação de Novión. “Ele não se restringia à antropologia”, relatou. “Transcendia as Ciências Sociais e ecoava noutros centros da Universidade, como a Faculdade de Comunicação”. O professor emérito José Carlos Coutinho, emocionado, lembrou do ex-colega como “um verdadeiro hermano, responsável por muitas memórias daqueles anos de luta que vivemos na universidade”.

IDAS E VINDAS

 

Um trocadilho com a sigla do Instituto de Artes da UnB (IDA) inspirou o nome do projeto Idas e Vindas, de circulação da produção dos departamentos de Artes Visuais, Cênicas, Música e de Desenho Industrial pelos quatro campi da universidade. A diretora do IDA, Izabela Brochado, apresentou, para a Comissão UnB 50 Anos, relato das atividades desenvolvidas pela Tenda Cultural, um desdobramento da iniciativa.

Contemplado com recursos da Chamada Pública UnB 50 Anos de 2012, a Tenda Cultural trouxe estudantes do ensino médio para participarem de espetáculos de música, teatro, bonecos, dança, exposições e várias outras atividades artísticas. A Tenda foi montada durante a Semana Universitária, em outubro do ano passado. “Pretendemos estimular o diálogo entre grupos culturais de dentro e de fora da universidade, estimulando com que os alunos da educação básica também se apropriem dos espaços acadêmicos”, explica Izabela.

Para o professor Isaac Roitman, as artes são um elemento importante na missão de colocar a universidade na vanguarda. “A arte é companheira da ciência”, explicou. “A nanotecnologia e a biotecnologia não são mais importantes do que a arte”. O professor Coutinho criticou a forma como a arte é normalmente tratada. “Quando se fala em futuro, pensa-se logo em tecnologia. Colocam a arte como mero entretenimento, quando serve como força formadora da consciência da sociedade, o exercício da criatividade e da sensibilidade das pessoas”, disse.

CHAMADA PÚBLICA 

 

A reunião da Comissão também serviu para aprovar o conteúdo da Chamada Pública UnB 50 Anos de 2013. Podem ser encaminhadas propostas relacionadas ao cinquentenário e perspectivas futuras para a Universidade de Brasília. O valor máximo por iniciativa é de 8 mil reais e o prazo de apresentação de projetos se encerra às 17h do dia 17 de abril.

O documento resulta de parceria da Universidade de Brasília com a Secretaria de Cultura, que em 14 de fevereiro de 2013 publicou o Edital 01/2013 “UnB 50 Anos”, disponível em http://www.fac.df.gov.br/

Estão sendo destinados R$ 100 mil para ações culturais que retratem a história e as perspectivas futuras da Universidade de Brasília. Poderão submeter propostas professores e servidores técnico-administrativos da UnB. Serão destinados até R$ 8 mil para cada proposta. Os participantes poderão concorrer nas seguintes modalidades: 1) digitalização e/ou tratamento de acervo; 2) circulação de exposição individual ou coletiva de Artes Visuais; 3) produção ou impressão de obra literária; 4) produções audiovisuais; 5) realização de seminários e debates que discutam o futuro da UnB.

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017