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Cultura nas ruas

Eventos em áreas públicas de Brasília estimulam a prática de ocupar a cidade e aproveitar seu espaço

Guilherme Marques - Redação Publicação:13/11/2014 12:00Atualização:17/11/2014 12:10

O músico Cacai Nunes leva clássicos do forró pé de serra para uma das passagens subterrâneas da Asa Norte (Reprodução/Facebook)
O músico Cacai Nunes leva clássicos do forró pé de serra para uma das passagens subterrâneas da Asa Norte
Brasília é uma cidade diferente de todas as outras. A capital do Brasil é conhecida mundialmente por sua arquitetura e sistema de organização, possíveis graças a um planejamento prévio. Outras poucas metrópoles brasileiras também tiveram uma estrutura projetada, como Belo Horizonte e Goiânia, mas mesmo assim, Brasília se destaca.


As peculiaridades, porém, vão muito além das estéticas – o céu aberto e a beleza arquitetônica são exemplos. Um olhar atento revela que o projeto de Lucio Costa foi feito priorizando a circulação de carros e não de pessoas. Ir de um ponto a outro a pé pode ser distante e vazio. A cidade tem poucas calçadas, bancos e praças comparada a outras metropóles, e os grandes espaços existentes no Plano Piloto tendem a ser pouco aproveitados pela população e governo. 

 

Felizmente, essa situação vem mudando: o surgimento de eventos culturais que acontecem em espaços públicos e ao ar livre formam genuínos encontros de pessoas, que ocupam a cidade para apreciar sua beleza e aproveitar seus espaços. Além disso, os moradores têm a oportunidade de se socializar mais e, juntos, contemplar performances artísticas e experimentar novos sabores. Conheça alguns desses eventos:

 

Música

 

Samba na Rua

 

Em uma viagem ao Rio de Janeiro, a atriz Fernanda Jacob e a psicóloga Ana Carolina Boquadi perceberam que o samba estava presente não só nos bares e shows, mas também nas avenidas da Cidade Maravilhosa. As duas, então, tiveram a ideia de trazer esse costume para a capital federal – mais especificamente, para a praça da Vila Telebrasília. "Queríamos resgatar a cultura do samba de rua e levar música boa e gratuita para essa gente", diz Fernanda. O evento conta com apresentações de sambistas profissionais da cidade que não estão inseridos no grande mercado musical. "São músicos excelentes, mas que carecem de oportunidade e espaço", conta a atriz. Ela diz ainda que os moradores da região auxiliam na produção do evento: "São eles que fornecem a energia e muitos também vendem comidas durante o samba".


A próxima edição do Samba na Rua acontece, excepcionalmente, no Círculo Operário do Cruzeiro – um espaço coberto, por conta das chuvas – no dia 22 de novembro. Nesta edição, será cobrado um valor de R$ 7 de entrada para custear o aluguel do local. As outras edições, porém, acontecem ao ar livre e gratuitamente. A programação pode ser acompanhada pela página do evento.

 

 

Forró de Vitrola nas passagens subterrâneas


Os famosos corredores subterrâneos de Brasília não têm lá uma imagem muito boa: a sujeira e a escuridão os tornam cenários de descuido e violência. A culpa, porém, pode ser nossa: "Eu acredito que as passagens por si só não são perigosas. Perigoso é o ser humano que não sabe cuidar delas e fazer uma ocupação consciente", arrisca Cacai Nunes, violeiro e produtor musical.  Há três anos, o músico decidiu levar o Forró de Vitrola – que já acontece em vários bares da cidade – para a passagem subterrânea que liga a 111 a 211 Norte.  As edições especiais do evento, chamadas de Pé de Passagem, criam um verdadeiro baile subterrâneo: os corredores ganham luz, decoração e muito forró. A discotecagem fica por conta de Cacai, que usa LP's de seu acervo para levar clássicos do forró pé de serra ao espaço público de Brasília.


O Forró de Vitrola acontece com frequência, mas as edições especiais na passagem subterrânea são realizadas apenas uma vez ao ano. A próxima edição do Pé de Passagem está prevista para 2015, e a programação pode ser acompanhada pela página do evento no Facebook.

 

 

Gastronomia

 

Tempera



A empresária Luciana Fabrin sempre gostou de gastronomia. Em viagens pelo Brasil e mundo afora, descobriu um amplo mercado gastronômico de rua. "Percebi que Brasília tinha um bom perfil para um evento desse tipo", conta. Assim surgiu o Tempera, um projeto com a ideia de levar o melhor da alta cozinha para as ruas – desde renomados chefs até cooperativas de orgânicos e produtores de queijos. "É uma experiência gastronômica nova, de comer uma boa comida em um ambiente diferente. Sai do formato do almoço longo em um restaurante", diz Luciana.  Os preços também são convidativos: a primeira edição do Tempera, que aconteceu em setembro em formato reduzido no Parque da Cidade, ofereceu pratos a até R$ 20.


A próxima edição do evento acontece na virada do ano em um ambiente fechado, já que o alto índice de chuvas nessa época inviabiliza a realização em espaço aberto. Luciana diz, porém, estar preparando uma grande edição do Tempera para o primeiro semestre de 2015, dessa vez nas ruas, seguindo o objetivo do projeto.

A programação pode ser acompanhada pela fanpage do evento.

 


Chefs nos Eixos


Para comemorar os dez anos do site Querocomer, a publicitária Cristiane Mardine decidiu levar chefs renomados da cidade para os eixos brasilienses. "A comida é a maior rede de conexão de pessoas. Nos conectamos no restaurante, lanchonete, em casa e compartilhamos momentos durante a refeição. Levar gastronomia de qualidade para as ruas significa reunir uma grande quantidade de pessoas que gostam de experimentar novos sabores e compartilhar novos momentos", diz. Segundo ela, os eixos têm íntima relação com a identidade de Brasília: "Queria criar um evento que tivesse ligação com a paisagem da cidade".


Para isso, Cristiane se uniu ao arquiteto Raffael Innecco, que preparou uma estrutura conceitual para o Chefs nos Eixos: "A proposta dos estandes lembra Athos Bulcão; a forma de sinalização é como nas quadras, com numeros e letras. São várias as semelhanças com o projeto da cidade", conta a publicitária.


O Chefs nos Eixos acontece neste domingo (16) no Eixão da Asa Sul, na altura da quadra 108 / 208, próximo ao metrô. O evento oferece pratos com valores entre R$ 10 e R$ 20.  A programação pode ser acompanhada pela página do evento no Facebook.

 

 

Teatro

 

Teatro Hierofante

 

Nascido em 1995 no centro de uma periferia, o Hierofante Companhia de Teatro saiu de Ceilândia com a pretensão de levar ao Plano Piloto, ao Brasil e ao mundo o teatro de rua. “A população não tem ido ao teatro. Só vai para assistir ao besteirol. Como temos patrocínio dos governos federal e local, podemos levar espetáculos gratuitamente para as ruas e para o povo e reverter o dinheiro do cidadão por meio da cultura” diz Wellington Abreu, um dos três integrantes remanescentes da trupe. O Hierofante já chegou a levar para São Tomé e Príncipe, na África, o espetáculo O Auto da Camisinha, que aborda a prática do sexo seguro – tudo de graça.

 

Em 2014, Wellington Abreu, Pablo Peixoto e Anderson Floriano - que estão na companhia desde sua criação – também passaram pelas ruas de Nova York no evento Brazilian Day. O próximo espetáculo, O Auto da Camisinha, será apresentado em 1º de dezembro - dia mundial do combate à AIDS - na Torre de TV. A programação do grupo pode ser acompanha pela página oficial e no Facebook.

 

 

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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017