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ENTREVISTA | Inez Lemos »

"Sem regras, a criança não aprende a lidar com a frustração"

Psicanalista diz que excesso de permissividade dos pais da geração atual aumenta a probabilidade de os filhos desenvolverem orientação psicótica

Marina Dias - Redação Publicação:19/07/2016 11:54Atualização:19/07/2016 12:39
'Ter ídolo não é um problema. O problema é quando isso se torna uma fixação, uma obsessão' (Alexandre Rezende/Encontro)
"Ter ídolo não é um problema. O problema é quando isso se torna uma fixação, uma obsessão"
De tempos em tempos, casos trágicos de pessoas que cometem atos chocantes e aparentemente sem explicação ganham a mídia. São exemplos recentes a tentativa de assassinato da apresentadora de TV Ana Hickmann, em um hotel de Belo Horizonte, e a matança na boate Pulse, em Orlando. Casos assim levantam o temor dos pais, que se sentem impotentes, já que muitas vezes o responsável não dá pistas evidentes daquilo que estava prestes a fazer. Neste mês, foi lançado no Brasil o livro O Acerto de Contas de uma Mãe, da americana Sue Klebold, sobre sua vida após o massacre de Columbine, em que seu filho, Dylan Klebold, de 17 anos, e o amigo Eric Harris, de 18, mataram 12 colegas e um professor e deixaram outros 24 feridos. A mensagem do livro é clara: apesar de algumas coisas estarem fora do controle dos pais, é preciso ficar sempre atento. Sue lembra que esses cuidados não têm como objetivo principal evitar uma tragédia como aquela cometida por seu filho – as chances de isso acontecer, felizmente, são mínimas –, mas, sim, evitar o sofrimento íntimo de qualquer adolescente.

Mestre em educação, a psicanalista Inez Lemos concorda. Segundo ela, pais devem se policiar para sempre observar os filhos, ouvi-los e dialogar com eles. Contudo, para Inez, o principal problema da geração atual de pais é a dificuldade de dizer não. E essa falta de limites tem consequências graves na criação dos filhos, que crescem sem saber lidar com a frustração – habilidade básica para sobreviver num mundo com tamanha concorrência. A tarefa não é fácil frente às demandas da sociedade, à vida corrida e às ofertas de consumo. “Mas ser pai não é fácil, mesmo. Educar é o maior desafio de todos”, diz.

ENCONTRO: Recentemente houve um caso muito divulgado na mídia nacional, a tentativa de assassinato da apresentadora Ana Hickmann, em BH. Pessoas capazes desse tipo de atitude estão aumentando?
Inez Lemos: Com base em minha experiência e em uma pesquisa informal com colegas, diria que sim. Essa geração está crescendo sem saber ouvir “não”, e isso é muito problemático. A probabilidade de os filhos crescerem e desenvolverem orientação psicótica é maior, pois a psicose surge justamente quando a pessoa não internaliza a lei e, portanto, não sabe lidar com o “não”. Sem regras, a criança não aprende a lidar com a frustração. E casos como o que aconteceu com a apresentadora Ana Hickmann costumam envolver psicóticos em surto.

E: Não saber lidar com o não é uma característica da geração atual?
IL: Sim. Ao longo da história, temos comportamentos diferentes. Quando surgiu a psicanálise, por exemplo, os estudos feitos eram da chamada histeria feminina, que advém justamente do oposto. Os sintomas eram provocados pela repressão sexual, ou seja, pelo excesso de não. E que também gerava doenças psíquicas. As personagens literárias Emma Bovary e Anna Karenina, por exemplo, marcaram esse período. Hoje, o que se vê é o excesso de permissividade, ausência de limites, e isso tem consequências sérias. A criança tem de ser educada dentro de regras, de valores e referências. Mas hoje “disciplina” se tornou um palavrão.

A família vive em ambiente agitado, tenso, estressado? Se sim, o filho tende a ter um comportamento mais agitado. Ninguém nasce hiperativo (Alexandre Rezende)
A família vive em ambiente agitado, tenso, estressado? Se sim, o filho tende a ter um comportamento mais agitado. Ninguém nasce hiperativo

E:E por que essa dificuldade dos pais em dizer “não”?
IL: Na sociedade consumista atual, o pensamento da família é de que a criança deve poder ter tudo. É comum ouvir frases como “coitada da criança que não tem” ou “dá para ele, coitadinho”. Os pais ficam perdidos, sentem culpa de não estarem lá o tempo todo para educar os filhos. A televisão divulga diversas informações, muitas vezes com o objetivo de vender, e os médicos querem medicar as crianças por qualquer motivo – qualquer caso é diagnosticado como depressão ou TDAH. Além disso, a escola não vai comprar essa briga de educar sozinha os alunos, se os pais não o fazem. Realmente é difícil, mas ser pai não é fácil mesmo. Educar é o maior desafio de todos.

E:Quais são os sintomas de que algo não vai bem com a criança?
IL: Um dos principais é o jovem ficar antissocial, isolado, com convivência social muito restrita. Não criar elo com os outros. Hoje, ficou um pouco mais complicado de avaliar, por causa do computador e do smartphone, que entretêm crianças e jovens por horas dentro do quarto. Mas os pais precisam ficar atentos, observar e conversar muito com os filhos. Se veem que o jovem tem esse comportamento de forma excessiva, devem procurar um especialista.

E:E como saber o que é excessivo?
IL: É excessivo quando passa do limite determinado pelos pais. Se o combinado é a criança não ficar mais de duas horas por dia no computador, por exemplo, e ela não cumpre, tem de haver restrição, e a criança tem de respeitar. Não tem dessa de não aceitar. Então é preciso ver como o filho reage ao comportamento disciplinar dos pais também. Se foi educado dentro dos limites desde pequeno, ele vai obedecer.

E:Como a senhora orienta que os pais disciplinem os filhos?
IL: Os pais devem estabelecer leis, explicar quais são elas, e as fazer valer. A criança não quer sair do computador? Tem de desligá-lo, cortar o acesso à internet, fazer entender que há consequências. Não dá para abrir mão dos limites.

E:Em relação à depressão, outro grande temor dos pais, como evitar a ocorrência em crianças e adolescentes?
IL: Há uma cobrança enorme dos pais em cima das crianças, uma expectativa exagerada deles em relação aos jovens: cobrança de nota, de passar no Enem, de ganhar dinheiro, de ser bem-sucedido, de fazer inglês... Todos esses valores que hoje estão consagrados pela sociedade de consumo e que exercem pressão no jovem. Já os filhos se frustram por não corresponderem a essa expectativa. E há pais que não abrem possibilidade de diálogo. Mas o ser humano não é um computador que se programa; não é objeto. É preciso ficar atento a seu filho e dialogar. Os pais têm de passar valores, sim, mas isso não significa pressionar. Nem todas as crianças são iguais, não dá para obrigar alguém a ficar em uma escola se ela não se adapta, por exemplo. Não funciona assim.

E:E quais seriam os sintomas da depressão em crianças e jovens?
IL: Se o menino ou menina estiver apático, comendo pouco, desanimado, indo mal na escola, desatento. Repito, os pais precisam estar atentos a esses sintomas. E não adianta medicar sem acompanhamento terapêutico. É preciso deixar a criança falar.

E:Apenas comportamentos de isolamento e tristeza são preocupantes? Ou também no outro espectro, como euforia e agitação, podem preocupar?
IL: Comportamentos de atividade excessiva, agitação, também devem ser observados. No entanto, hoje, qualquer criança que tem comportamento proativo, enérgico, é diagnosticada como hiperativa e medicada. É preciso antes avaliar se ela age dessa forma por ser muito estimulada em casa. A família vive em ambiente muito agitado, tenso, estressado, com correria? Se sim, o filho tende a ter um comportamento mais agitado. Ninguém nasce hiperativo. Então os pais também têm de mudar. Tenho pacientes cujos pais acordam e a primeira coisa que fazem é ligar a televisão. Esse não é um ambiente tranquilo. Como esperar, então, que o filho seja?

E:Como explicar casos como o da tentativa de assassinato de Ana Hickmann?
IL: Apesar de não conhecer a situação a fundo, casos assim costumam envolver um quadro de delírio, de obsessão. A pessoa atua fora da realidade, em um quadro de psicose paranoica, de erotomania [delírio em que uma pessoa acredita que outra está apaixonada por ela]. Uma pessoa psicótica, que não aceita o não, entra no delírio de ser correspondida. E pensa “como alguém poderia não estar apaixonada por mim?”, por exemplo. Outra característica importante da psicose é que o sujeito não sente culpa, já que não internalizou a lei, não tem código de convivência. Por isso, pessoas nessa situação e – importante – sem tratamento matam com facilidade.

E:Esse quadro se desenvolve de uma hora para a outra?
IL: Não. A partir dos 7 anos de idade, essa orientação já é definida e dá para perceber sinais. O que acontece quando a pessoa tem uma atitude exagerada, como matar, é que ela passa ao ato, ou seja, chega às vias de fato.

E: E o fato de muitas vezes envolver uma celebridade?
IL: É preciso considerar que estamos inseridos na sociedade do espetáculo, em que todos querem 15 minutos de fama, uma cultura narcisista. E a escolha do objeto de desejo é contaminada pela cultura: escolhe-se alguém rico, famoso, que aparece na TV – e não a vizinha de porta.

E: A internet e as redes sociais podem influenciar nesse processo?
IL: Acredito que sim. A internet e as redes sociais são muito focadas na imagem. Captura-se a atenção, na rede, por meio da imagem. Nesse sentido, podem potencializar o sintoma. Além disso, favorecem o “contato” com a celebridade, mas que também não corresponde a essa obsessão, fazendo com que a pessoa se sinta rejeitada. Além do mais, estamos na cultura dos excessos, em que artistas são vendidos como mercadorias, objetos de consumo. Isso também contribui. Contudo, é preciso lembrar que isso não é recente. O psicanalista Jacques Lacan relatou, em 1932, o “caso Aimée”, de tentativa de assassinato de uma atriz por uma funcionária pública.

E: Deve-se desconfiar quando o jovem tem um ídolo?
IL: Ter ídolo, por si só, não é um problema. É até interessante. É uma referência simbólica do mundo da cultura, da arte, da intelectualidade. O problema é quando se torna uma fixação, uma obsessão.
Quando acontece uma tragédia como essas, a sociedade cobra dos pais por não terem notado sintomas nos filhos. Eles deveriam ter percebido?
Não é tão simples que se possa apenas procurar sintomas genéricos em todos os jovens. Sintomas não são objetivos, mas sim individuais e subjetivos. O delírio também é específico de cada um, tem a ver com sua própria história. Assim, o diagnóstico também não é mecânico, nem rápido. No entanto, pais têm de estar atentos o tempo todo a sinais estranhos, comportamentos que saltem aos olhos, que diferem do que se espera do filho. E, se acharem que algo não está dentro do esperado, devem procurar um especialista. O jovem pode fazer terapia, e até mesmo os pais. O perigo é a pessoa não se tratar.

E: Casos de suicídio entre crianças e adolescentes estão preocupando...
IL: Sim, é consenso que esses números estão aumentando. Inclusive, muitos especialistas veem como equívoco da imprensa não divulgar esses acontecimentos, justamente porque não revela o cenário. Em parte, esse quadro tem a ver com a pressão do mercado, a expectativa de ter de ganhar dinheiro, a competição. Isso porque a concorrência está cada vez maior. Mesmo entre jovens que estudam em boas escolas, fazem inglês, etc., já que antes isso era um diferencial e hoje não necessariamente. Além disso, há, claro, outros fatores individuais. Há quem não concorde com esse estilo de vida e queira viver por outro modelo, com o qual os pais não estão de acordo, por exemplo.

E:O que seriam outros motivos?
IL: A questão da homossexualidade ainda é difícil em muitas famílias. Apesar de as pessoas estarem assumindo mais a orientação sexual, isso não necessariamente vem acompanhado de aceitação dos pais. O mundo está mais conservador.

E: A falta de referência na política, com tantos casos de corrupção, pode influenciar o comportamento do jovem?
IL: Pode contribuir para a depressão nos jovens, na medida em que bloqueia perspectivas, cria um clima de desânimo e de desamparo. A saída, nesse sentido, é os jovens se engajarem em movimentos sociais que lutem por propostas nas quais eles acreditam. Alienar-se é pior. Na luta, eles encontram outros que vivenciam as mesmas frustrações.
 
 (Alexandre Rezende)
 Quem é?
 Inez Lemos,
62 anos
ORIGEM
São José do Rio Preto (SP)
FORMAÇÃO
Psicanalista e mestre em educação pela Universidade Federal
de Minas Gerais
CARREIRA
Psicanalista e autora do livro Pedagogia do Consumo: Família, Mídia e Educação (Autêntica) e do blog Amores Urgentes
 
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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017