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De forma inovadora, cientistas conseguem 'ler' a mente de pessoas paralisadas

Pacientes com esclerose lateral amiotrófica (ELA) foram capazes de se comunicar com parentes, usando um sistema computadorizado

Publicação:03/02/2017 09:26
Por meio de um chip ligado diretamente ao cérebro de pacientes no último estágio da esclerose lateral amiotrófica, cientistas foram capazes de ler os pensamentos e fazer os doentes se comunicarem (Infokid.org.uk/mri/Reprodução)
Por meio de um chip ligado diretamente ao cérebro de pacientes no último estágio da esclerose lateral amiotrófica, cientistas foram capazes de ler os pensamentos e fazer os doentes se comunicarem
Pesquisadores suíços criaram um chip para ser implantado no cérebro que permite, literalmente, ler a mente das pessoas completamente paralisadas, vítimas de acidentes de carro ou doenças graves. A informação faz parte de um artigo publicado na revista científica PLOS Biology.

"O resultado surpreendente desmente a minha própria teoria de que pessoas completamente paralisadas, com a 'síndrome do encarceramento', realmente, não são, por princípio, capazes de comunicar com o mundo exterior. Nossos experimentos mostraram que todos os quatro voluntários puderam responder a perguntas pessoais que fizemos usando apenas o poder do pensamento. Se pudermos repetir os mesmos resultados, poderemos devolver o dom da fala a pessoas que sofrem de disfunção dos neurônios motores", diz Niels Bierbaumer, pesquisador da Universidade de Tubingen, na Alemanha.

A chamada "síndrome do encarceramento" é a fase final da evolução de certas doenças neurodegenerativas, tais como a esclerose lateral amiotrófica (ELA), que ganhou evidência por afetar o físico inglês Stephen Hawking, bem como o resultado de uma variedade de lesões cerebrais, intoxicações ou overdose por drogas. Durante o desenvolvimento da "síndrome", a pessoa parece perder o contato com o mundo exterior e deixa de controlar seus músculos, incluindo os respiratórios, devido a danos nos neurônios motores no cérebro e na medula espinhal.

Em geral, os sintomas da "síndrome do encarceramento" lembram o que acontece com o corpo e o cérebro de pessoas em coma ou em estado vegetativo, razão pela qual muitos neurocientistas, incluindo o suíço Bierbaumer, acreditavam que pessoas paralisadas não eram capazes de ter atividade mental, definir tarefas e resolvê-las.

No estudo publicado na PLOS Biology, quatro voluntários, em estágio final da ELA, foram analisados por Niels Birbaumer e sua equipe para entender se era possível estabelecer contato com eles usando os chamados neurochips, conectados a computadores. Um sistema foi criado para receber diretamente os sinais do cérebro e os converter em uma linguagem compreensível para o computador.

Os cientistas usaram dois aparelhos – um de ressonância magnética, para observar o trabalho de diferentes partes do córtex e das camadas profundas do cérebro, e um espectroscópio infravermelho. Este instrumento científico relativamente novo permite monitorar o nível de atividade de certos grupos de células nervosas pela quantidade de oxigênio que eles consomem.

Resultado surpreendente

A confirmação do funcionamento do neurochip superou todas as expectativas dos cientistas. As quatro pessoas paralisadas, que participaram do experimento com o consentimento de seus tutores, identificaram corretamente suas esposas ou maridos e parentes, e responderam a perguntas sobre vida pessoal. Um dos homens até mesmo proibiu a filha de se casar com o namorado atual.

O que mais surpreendeu os cientistas foi que os participantes dos experimentos estavam geralmente satisfeitos com o fato de eles continuarem existindo, embora a vida de alguns deles venha sendo mantida com a ajuda de sistemas de ventilação mecânica dos pulmões.

A prova de que mesmo as pessoas em estado de "encarceramento em si mesmas" continuam querendo viver e comunicar com seus semelhantes, de acordo com o cientista Niels Bierbaumer, vai acelerar a investigação sobre o tema e levar ao desenvolvimento de sintetizadores de fala e dispositivos que irão ajudar os pacientes a se moverem de forma independente.
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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017