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Sabia que o limite entre o transtorno mental e a doença neurológica é muito tênue?

Especialistas comentam o drama de quem vive com algum distúrbio da mente

Da redação com Assessorias - Redação Publicação:09/10/2017 13:04

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 400 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem com algum tipo de problema mental. São várias as doenças que, há séculos, aflingem a população. Antigamente, devido ao desconhecimento, muitos pacientes com distúrbios da mente eram afastados da sociedade por serem considerados "loucos" e estavam destinados a passarem o resto de suas vidas isolado em hospitais psiquiátricos.

 

No decorrer dos anos e após diversas pesquisas, os médicos tiveram uma maior compreensão do que se tratavam as doenças mentais e quais eram os fatores determinantes para o seu surgimento, entre eles, a genética. "No caso das doenças mentais graves, a pré-disposição hereditária é muito grande. Sempre existem histórias familiares de suicídio, alcoolismo, internações psiquiátricas etc. Essas coisas são prenúncios de uma genética ruim", explica o psiquiatra forense Guido Arturo Palomba, da Associação Paulista de Medicina.

 

Alguns transtornos mentais graves causam comprometimento neurológico e estão associados a alguma doença ou problema como traumatismo craniano e Acidente Vascular Cerebral (AVC). Os quadros psiquiátricos associados a alguma lesão neurológica tendem a ser mais graves do que aqueles em que não há um dano identificável, como os que ocorrem após uma vivência dolorosa como a perda de um ente querido, por exemplo.

 (Freepik)
 

Sendo assim, não é todo transtorno mental que está relacionado a uma doença neurológica. No entanto, conforme o neurologista Leonardo Cruz de Souza, vice-coordenador do departamento científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia, a linha que separa transtorno e doença neurológica é muito tênue. "Há um pressuposto de que existe uma dissociação entre doença psiquiátrica e neurológica. Mas, na verdade, tanto uma quanto a outra são 'frutos' do mesmo órgão, que é o cérebro. Os dois grupos de doença têm uma base neurobiológica. Há várias doenças neurológicas com manifestações psiquiátricas, como nos casos de pacientes com Parkinson e Alzheimer, que podem ter transtorno depressivo. Se existe tal dicotomia, ela é bastante frágil", esclarece o médico.

 

O especialista lembra que o profissional da Medicina tem o dever de identificar a característica fenomenológica correta. "As doenças psiquiátricas mais comuns são depressão, ansiedade e transtornos de personalidade. Também podemos citar transtornos psiquiátricos associados a doença neurológica, como transtorno de ansiedade em pacientes com enxaqueca e os quadros depressivos vinculados às doenças cerebrovasculares, como pacientes que tiveram sequelas do AVC. Todas as doenças neurológicas são passíveis de terem relação com os transtornos psiquiátricos", afirma Leonardo Souza.

 

Por sua vez, o psiquiatra Guido Palomba chama a atenção para outras doenças que podem comprometer o sistema nervoso central, como a sífilis cerebral, o AVC e a aterosclerose cerebral, e em como preveni-las. "Para a sífilis, o principal método de prevenção é a camisinha. Para os casos de AVC, o primordial é cuidar da alimentação, praticar exercícios físicos, diminuir o estresse e evitar pressão alta. Já a aterosclerosecerebral envolve todos os cuidados que devemos tomar ao longo da vida, como evitar o uso de drogas ou abuso de álcool, pois as consequências surgem na velhice", explica o psiquiatra.

 

Apesar dos avanços da Medicina em prol da saúde mental, alguns transtornos e algumas doenças neurológicas ainda carecem de tratamento mais eficaz. "Claramente, no meu entender, os recursos que temos atualmente não são suficientes. Ainda temos muitas pessoas que sofrem de transtornos mentais com alto grau de sofrimento psíquico, o que gera também grande impacto social e econômico quando pensamos em termos globais. Sem dúvida, houve progressos importantes na área farmacológica, mas ainda não temos tratamentos 100% eficazes. Ainda há muito a ser feito. Nós devemos estimular cada vez mais a compreensão e a conscientização das pessoas sobre o que são essas doenças e o que elas representam em termos de sofrimento individual e psíquico. Precisamos quebrar o estigma", afirma Leonardo Souza.

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EDIÇÃO 59 | novembro de 2017