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Gastrô | Vinhos »

O queridinho dos jovens

Quem disse que a moçada gosta só de cerveja? Pesquisa comprova o perceptível crescimento da preferência pelo vinho entre públicos com menos de 30 anos

Ana Letícia Leão - Redação Tereza Rodrigues - Publicação:21/11/2014 12:00Atualização:21/11/2014 13:42

Lívia Assreury tem 
26 anos e adora 
sair com os amigos para tomar vinho: 'Temos o ritual de tirar a rolha e adivinhar a uva. É divertido' (Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
Lívia Assreury tem 26 anos e adora sair com os amigos para tomar vinho: "Temos o ritual de tirar a rolha e adivinhar a uva. É divertido"
Quem ainda acredita que vinho é bebida para paladares mais apurados ou para pessoas mais velhas precisa rever seus conceitos. O cenário está mudando completamente. Os bons rótulos já se tornaram queridinhos dos jovens e caíram na preferência de quem tem entre 18 e 30 anos, em encontro com amigos, jantares, confrarias e até em baladinhas.


A paixão pela enologia faz a jovem empresária Lívia Assreury, de 26 anos, reunir-se regularmente com cerca de dez amigos em uma confraria para aprender mais sobre o assunto e experimentar novas harmonizações. “Eu e meus amigos gostávamos muito de vinho, mas ninguém entendia nada e queríamos aprender”, conta. Hoje, eles se encontram pelo menos uma vez por mês no restaurante Trio Gastronomia, na 213 Sul, com o chef Emerson Mantovani. Lá, aprendem sobre uvas, degustam e descobrem, na prática, como combiná-las com cada comida. “Agora todo mundo ficou meio metido. Hoje temos um ritual nos nossos encontros, tiramos a rolha e tentamos adivinhar a uva. É divertido.”


Com o pai, Jonhson Mesquita, Hayane Brito comemorou o aniversário de 24 anos 
ser-vindo vinho: 'Quando coloco um vinho na taça me dá um 'up', sinto algo a mais' (Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
Com o pai, Jonhson Mesquita, Hayane Brito
comemorou o aniversário de 24 anos ser-
vindo vinho: "Quando coloco um vinho na
taça me dá um 'up', sinto algo a mais"
Para Lívia, o gosto pelo vinho foi introduzido pela mãe, a bancária Vera Assreury. Incomodada com o fato de que as filhas chegavam em casa e iam direto para o quarto ver TV, Vera resolveu instituir a “5ª do vinho” para aproximar as três. “No começo não entendíamos nada, falávamos um aroma da uva e minha mãe até ria. Com o tempo começamos a acertar, aí comemorávamos. Há dois anos fazemos e isso nos aproximou. Hoje, às quintas-feiras, cozinhamos e tomamos vinho juntas”, conta. Envolvida com a bebida, Lívia já viajou para lugares como Califórnia, Argentina, Itália e Portugal, para conhecer mais sobre uvas. “Prefiro realmente ir a um restaurante tomar um bom vinho a fazer outra coisa”, diz.


Para o sommelier Rafael Sá, Lívia não é exceção. Ela na verdade endossa a tendência que ele percebe no seu dia a dia, no trabalho em restaurantes, como consultor de cartas. “Vejo que os empresários do ramo já perceberam esse crescimento no interesse dos jovens pelos vinhos e investem. Hoje as cartas estão mais direcionadas a esse público, com exemplares mais leves, frutados e mais baratos”, diz o profissional. Ele também é um exemplo – conheceu a primeira vinícola aos 13 anos e começou a trabalhar com vinhos aos 18. Hoje, aos 28, é um dos mais jovens sommeliers de Brasília. Com ampla formação teórica, ele ainda observa, na prática, que a popularização das máquinas tipo Enomatic também é um chamariz para novos perfis de consumidores. “Por R$ 10, as pessoas já provam vinhos caros, renomados, e se animam a comprar uma garrafa depois. Elas estão experimentando mais.”


'As cartas de vinho estão mais direcionadas ao público jovem: com exemplares mais leves, frutados e preços mais em conta', diz o jovem sommelier Rafael Sá (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
"As cartas de vinho estão mais direcionadas ao público jovem: com exemplares mais leves, frutados e preços mais em conta", diz o jovem sommelier Rafael Sá
O arquiteto Bruno Pessoa, de 26 anos, é amigo de Lívia e também frequenta a confraria no Trio Gastronomia. A curiosidade é um dos principais fatores que despertam seu interesse pela bebida. “Gosto por ser diferente, algo que vou descobrindo e não tem o mesmo sabor toda vez que bebo. O vinho é uma bebida enigmática, cada um tem uma harmonização diferente, é algo legal de estudar, de conhecer”, diz. Sobre os preferidos, o arquiteto garante que há fases e que os sabores variam muito. “Tem épocas que gosto de uma uva, depois prefiro outras. Hoje estou fã da Primitivo, uma uva italiana, e da californiana Vinfandel. Mas também gosto muito da francesa Pinot Noir, mais fácil de encontrar. São vinhos totalmente diferentes, mas marcantes.”  


As explicações de especialistas para o crescente interesse de jovens por vinhos são muitas, mas há uma linha de justificativas já garantida: a bebida é saudável, traz status e exige conhecimento, três ingredientes que estão na mira desse público atualmente.


Carlos Eduardo Ramos gosta de sair com a namorada, Louise, para tomar vinho: 'É so-fisticado, 
e, por ser uma bebida elegante, traz uma atmosfera mais intimista', diz ele (Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
Carlos Eduardo Ramos gosta de sair com a
namorada, Louise, para tomar vinho: "É so-
fisticado, e, por ser uma bebida elegante,
traz uma atmosfera mais intimista", diz ele
Marcos Rachelle, sommelier da Art Du Vin, acrescenta ainda que como formadores de opinião, quando os jovens começam a ter uma vida financeira mais estável, eles logo investem na própria saúde e bem-estar. “Percebo isso entre muitos brasilienses: são jovens que não gostam de uma coisa só porque todo mundo gosta, eles têm senso crítico apurado e investem em bebidas que consideram realmente valer a pena”, explica.


Inúmeras pesquisas já mostraram que, quando apreciado de forma moderada, o vinho traz uma série de benefícios para a saúde, inclusive, ajuda na prevenção de doenças cardíacas. Foi esse ponto que levou o psicólogo Carlos Eduardo Paes Landim Ramos, de 25 anos, a tomar gosto pela bebida.


“Sempre fui de uma onda mais saudável, nem bebia. Quando comecei a sair mais e percebi que ia acabar sempre tomando alguma coisa alcoólica, preferi optar por algo razoavelmente saudável”, afirma. Além da ideia de que faz bem à saúde, Carlos gosta de todo o encantamento que o vinho traz. “É mais sofisticado. Tem a ver com rituais, cores, taças. É uma bebida bonita, elegante, traz uma atmosfera mais intimista”, diz. Não por acaso, um dos seus programas preferidos para fazer com a namorada, Luise Gomes Vieira, é sair para tomar vinho.


Ao lado de Emerson Mantovani (de verde, ao centro), Bruno Pessoa se reúne com os amigos na confraria do restaurante Trio Gastronomia uma vez por mês: 'O vinho é uma bebida enigmática, é legal de estudar' (Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
Ao lado de Emerson Mantovani (de verde, ao centro), Bruno Pessoa se reúne com os amigos na confraria do restaurante Trio Gastronomia uma vez por mês: "O vinho é uma bebida enigmática, é legal de estudar"
Para Leocir Botega, enólogo e diretor técnico do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), a bebida está associada à boa gastronomia. “Associamos a um jantar romântico, um encontro ou um almoço de negócios. Vinho traz consigo uma situação de status, e o jovem de hoje se interessa bastante por isso”, explica. Para Botega, o aumento do poder aquisitivo dessa faixa etária também influencia no crescimento do consumo do produto. “Jovens conscientes preferem beber o que faz bem. É uma bebida que educa ao consumo moderado, pois a quantidade consumida é sempre pequena, não leva ao exagero”, diz.


Tomar um vinho é algo que faz assessora jurídica Hayane Brito Oliveira, de 24 anos, sentir-se especial. Desde cedo, viu o pai, Jonhson Mesquita, abrindo uma garrafa em ocasiões importantes ou familiares e por isso nunca o considera uma bebida qualquer. “Eu me sinto diferente ao tomar um vinho. Por mais que seja algo comum, ele me remete a algo especial. Às vezes estou em casa, faço só uma massa e já pego a taça. Acho que dá um ‘up’, sinto algo a mais.” Sobre outras bebidas, a jovem até diz que bebe “umas cervejinhas”, mas estão longe de ser suas preferidas. “Gosto mesmo é de vinho. Quando saio com amigos, eles encontram rodízio de tudo, como de caipirinhas. Podiam fazer um rodízio de vinho, né?”, brinca.

 

Uma mãozinha da internet


Pesquisa da wine.com.br, empresa brasileira e segunda maior e-commerce de vinhos do mundo, mostra que o consumo dessa bebida por jovens vem crescendo consideravelmente no Brasil. Segundo o levantamento, com cerca de 140 mil clientes ativos, a fatia desse público que prefere o vinho subiu de 8% em 2010 para 18% em 2013. Para Rogério Salume, sócio-fundador do site, os números de 2014 indicam que a tendência de aumento continua. “Temos percebido um crescimento consistente dos clientes mais jovens e acredito que uma série de fatores contribui para isso, entre eles, a democratização do acesso ao vinho, com produtos de qualidade e preço justo. Isso atrai esse público”, explica.


A facilidade de acesso à informação é um fator que abre espaço para o aumento do consumo de vinhos entre pessoas de menos idade. Elas fuçam, conhecem, compram, formam grupos, clubes e trocam experiências sobre vinhos na web.


Além de aumentar o acesso à informação e abrir espaço para a troca de experiências, a web possibilita a vantagem de poder comprar sem sair de casa. Para Salume, a plataforma permite a compra de produtos que não são encontrados em lojas físicas com tanta facilidade. “O ambiente virtual é propício para comercializar bebidas especiais, como é o caso dos vinhos”, diz.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017