Esquizofrenia: tragédia em família acende sinal de alerta

Assassinato do cineasta Eduardo Coutinho, morto a facadas pelo filho que sofre de esquizofrenia, chamou a atenção para a necessidade de tratamento da doença que atinge cerca de 1% dos mineiros

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Flávia Ayer Publicação:05/02/2014 08:12Atualização:05/02/2014 08:25
O cineasta Eduardo Coutinho, de 80 anos, foi assassinado a facadas no domingo dentro de casa, no Rio de Janeiro. A mulher dele, Maria das Dores Coutinho, de 62 anos, também foi ferida. Daniel Coutinho, filho do cineasta, que sofre de esquizofrenia, confessou o crime. Ele tentou se matar em seguida (Walter Craveiro / Flip Divulgacao)
O cineasta Eduardo Coutinho, de 80 anos, foi assassinado a facadas no domingo dentro de casa, no Rio de Janeiro. A mulher dele, Maria das Dores Coutinho, de 62 anos, também foi ferida. Daniel Coutinho, filho do cineasta, que sofre de esquizofrenia, confessou o crime. Ele tentou se matar em seguida
O assassinato do cineasta Eduardo Coutinho, no último fim de semana, chamou a atenção para a necessidade de tratamento da doença que atinge cerca de 1% dos mineiros. Entre especialistas, familiares e pacientes, o consenso é de que os portadores do transtorno mental não podem ficar sem assistência psicológica e médica. Mas, apesar da facilidade de conseguir remédios pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o tratamento esbarra na falta de leitos psiquiátricos para internação nos momentos de surto. Em Minas, a meta é chegar a 650 leitos para saúde mental nos hospitais gerais até o fim do ano.

A esquizofrenia revela seus primeiros sintomas no fim da adolescência e está associada a fator hereditário. Normalmente, o portador começa a ficar mais apático e deprimido. Sem cura, a doença tem entre suas características confusão mental, com delírios, alucinações, audição de vozes, perda da memória e dificuldade de fazer tarefas corriqueiras de forma organizada. De acordo com o diretor da Associação Mineira de Psiquiatria Paulo Roberto Repsold, as atitudes agressivas se relacionam, muitas vezes, com a personalidade de cada paciente.

O psiquiatra afirma que medicamentos e assistência psicossocial diminuem os riscos de comportamentos agressivos, mas é preciso melhorar a rede de saúde mental. “O tratamento ambulatorial avançou no SUS, mas faltam leitos para os momentos de surtos. Atualmente, as vagas são muito usadas para receber dependentes do crack”, afirma Repsold. O especialista ressalta que as drogas criaram um novo contexto. “Um esquizofrênico é mais vulnerável às drogas. Quem usa cocaína e crack tem chance maior de entrar em crise”, diz.

Especialista Paulo Roberto Repsold chama atenção para falta de leitos  (Euler Junior/EM/D.A Press)
Especialista Paulo Roberto Repsold chama atenção para falta de leitos
Para o vice-presidente da Associação Brasileira de Familiares e Amigos de Portadores de Esquizofrenia (Abre), Jorge Assis, de 50 anos, a oferta de mais leitos para surtos é fundamental. Além de pesquisador do Departamento de Psiquiatria da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ele é portador de esquizofrenia, identificada há 29 anos, e precisou ser internado duas vezes. “Temos dificuldade de encontrar locais para o tratamento psicossocial e leitos em hospitais gerais”, afirma. Jorge classifica o assassinato do cineasta Eduardo Coutinho como uma tragédia. “Indica uma falha na assistência. Mas a maioria das pessoas não são violentas. Nós, portadores, temos uma luta diária para dar significado a nossas vidas”, diz.

Mãe e irmã de esquizofrênicos, Maione Rodrigues Batista tem a visão um pouco diferente da doença e acredita que muitos pacientes precisam de estrutura para morar longe da família, em residências terapêuticas. O transtorno mental do filho foi identificado aos 15 anos, desencadeado pelo uso de drogas. “Mesmo medicado, meu filho continua a escutar vozes e já tentou me matar várias vezes. Dentro de casa, eles se revoltam e agridem quem está mais perto. A paranoia deles é com a família”, afirma. Para tentar resolver o problema, Maione fundou há oito anos uma casa de assitência onde hoje moram 20 portadores da doença. “O único que não ficou lá foi meu filho, que hoje mora em uma clínica no interior”, conta.

A Secretaria de Estado de Saúde (SES) informou que está ampliando a rede de assistência à saúde mental, aumentando de 150 para 650 leitos psiquiátricos em hospitais gerais até o fim do ano. Já os centros de assistência psicossocial (CAPs) vão passar dos atuais 215 para mais de 300. A Secretaria Municipal de Saúde (SMSA) informa que conta com serviço de urgência psiquiátrica e dá suporte ao paciente psiquiátrico nos postos de saúde, em nove centros de convivência, além dos três Centros de Referência em Saúde Mental Álcool e outras Drogas (Cersam-AD) e um Centro de Referência em Saúde Mental Infantil (Cersami).

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