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Obesos sofrem para conseguir tratamento

Minas tem 6,7 milhões de pessoas acima do peso e grande parte não consegue atendimento no interior, sobrecarregando ONG na capital. Doença atinge 51% da população brasileira

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Luciane Evans Publicação:16/02/2014 13:28Atualização:16/02/2014 13:47
Evângela Gonçalves, de 35 anos, pesa 160 quilos e sai de Sete Lagoas, a 100 quilômetros da
capital mineira, para conseguir consulta com nutricionista e psicólogo (Euler Júnior/EM/D.A Press)
Evângela Gonçalves, de 35 anos, pesa 160 quilos e sai de Sete Lagoas, a 100 quilômetros da capital mineira, para conseguir consulta com nutricionista e psicólogo
 A epidemia da obesidade, mal mundial que já atinge 51% da população brasileira, tem ganhado contornos ainda mais preocupantes em Minas Gerais. Sofrendo de obesidade mórbida, nível mais alto da doença, que acomete 800 mil brasileiros, muitos mineiros, reclusos em casa por causa das enfermidades que vieram com o excesso de peso, enfrentam horas de estrada para conseguir tratamento com psicólogos e nutricionistas em Belo Horizonte. Isso porque, segundo eles, não há em suas cidades esse tipo de atendimento pela rede pública de saúde. Diante da situação, os próprios médicos encaminham esses pacientes à capital e, em vez de o Sistema Único de Saúde (SUS) absorver a demanda, o tratamento tem sido feito por uma organização não governamental (ONG), que pede socorro: "Estou com uma bomba nas mãos e não posso parar", desabafa a presidente do Núcleo Mineiro de Obesidade (Nuobes), Jussara Xavier.

Com a denúncia desses mineiros que já se consideram parte de uma população esquecida, o Estado de Minas começa hoje a série de reportagens “Muito além do peso”, mostrando o drama de quem sofre com a doença, as possíveis causas e o tratamento. O mal – que vem crescendo em Minas, onde já são 6, 7 milhões de pessoas acima do peso, cerca de 35% da população mineira – é considerado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), desde 2002, uma epidemia mundial, que se não for tratada pode atingir mais da metade da população mundial em 2025. A obesidade mórbida, quando a gordura corporal coloca em risco a saúde e vida do paciente, é outro agravante. Nos últimos 20 anos, o número de pessoas com esse nível de obesidade aumentou quase sete vezes, passando de 0,6% para 4% da população brasileira.

Esse grau é frequentemente identificado pelo grande acúmulo de gordura e, de acordo com a OMS, é diagnosticado especificamente pelo cálculo do índice de massa corporal (IMC), padrão reconhecido internacionalmente e cujo valor é o peso dividido pela altura ao quadrado: kg/m2. Quando esse valor resulta entre 40 e 49,9, é diagnosticada a obesidade grau 3, conhecida como obesidade mórbida. "Pelo estigma que a palavra mórbida traz a esses pacientes, é melhor denominar a doença como obesidade grau 3 ou obesidade severa, o que já traz por si só a gravidade da enfermidade", comenta o endocrinologista membro da comissão científica da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem) Paulo Augusto Carvalho Miranda, que preside a Sbem/Minas Gerais. Diante disso, a série do EM tratará a doença como obesidade severa ou de grau 3.

diretrizes redefinidas “Estamos lidando com uma doença crônica incurável, não um desvio de caráter. Essas pessoas não são preguiçosas e não estão nessa situação por quererem”, alerta o diretor do Centro de Obesidade e Síndrome Metabólica do Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), Cláudio Corá Mottin. O centro é a primeira instituição universitária a receber certificação internacional de Centro de Excelência em Tratamento da Obesidade Grave. "Esse atendimento com psicólogos e nutricionistas é previsto por lei e não pode faltar a esses cidadãos", informa.

Em março de 2013, o Ministério da Saúde redefiniu as diretrizes para a organização da prevenção e do tratamento do sobrepeso e obesidade como linha de cuidado prioritária da Rede de Atenção à Saúde das Pessoas com Doenças Crônicas. "Mas, infelizmente, não é isso que está ocorrendo. Na minha cidade, estava demorando seis meses para marcar uma primeira consulta com um médico. Não podia esperar, então, consegui dinheiro para pagar um médico particular", desabafa Maria Elza dos Reis, de 41 anos. Com indicação para cirurgia bariátrica, ela, a irmã Tereza e a amiga Silviane, todas obesas com grau 3, saem de Abaeté, na Região Central de Minas, e enfrentam, pelo menos duas vezes na semana, 212 quilômetros, para se tratarem com psicólogo e nutricionista do Nuobes.

"Quando reclamei com as autoridades locais, eles me mandaram parar de comer e esquecer a cirurgia", diz revoltada Silvane de Paula Santiago, de 29, pesando 147 quilos. Maria Elza pesa 173 quilos. "Já não saio de casa. Estou há nove meses sem trabalhar", conta Elza, que diz ter sido encaminhada pelo seu médico particular ao Nuobes. A ONG, em Belo Horizonte, conta com a ajuda de profissionais voluntários no atendimento. Mas para Maria Elza chegar até ela, muitas vezes, teve que pagar R$ 300 de táxi ou contribuir com a gasolina para o carro da prefeitura do município. "É um absurdo o que estão fazendo conosco. Será que ter um psicólogo ou nutricionista é tão caro para o SUS? Não é o nosso direito?", questiona.

Núcleo está superlotado
Por semana, batem à porta da ONG, segundo afirma a presidente Jussara Xavier, cerca de 150 pacientes com obesidade severa provenientes principalmente do interior de Minas e com história parecida com a das três mulheres. "Saio de Sete Lagoas, na Região Central, de ambulância. Já cheguei a pagar convênio de saúde para conseguir tratamento. Emagrecia 12, 13 quilos, mas tudo voltou depois de um tempo. Com a ajuda de nutricionistas e psicólogos da ONG consegui perder 20 quilos, em seis meses. Hoje peso 160", comenta Evângela Ramos Gonçalves, de 35.

De acordo com Jussara, há no núcleo atualmente 524 associados. "Mais de 80% são encaminhados por médicos e confirmam a falta de assistência psicológica e nutricional nessas cidades", denuncia. Ela diz que, além da nutricionista e da psicóloga, ela conta com o trabalho de um cirurgião bariátrico. "Somente no ano passado, conseguimos que 90 pessoas fossem operadas. Mas para isso pagamos R$ 15 mil por cirurgia, que é feita dentro de um hospital particular da capital." Ela conta que a associação existe há 12 anos e é a única a fazer esse tipo de serviço no Brasil. "Mas não recebemos recursos públicos e temos dívidas. Tudo que fazemos é com doação." Nas reuniões da entidade, feitas três vezes na semana de manhã e à tarde, a todo momento chegam pacientes, inclusive de outros estados. "Sem recursos, o nosso medo é ter que, um dia, parar o atendimento."

NUTRIÇÃO
O conforto pelo qual procuram os pacientes vindos de outros estados é, na teoria, simples: nutricionista e psicólogo. "O obeso é carente, sofre preconceitos e não adianta falar para ele fazer atividade física ou parar de comer tal coisa. É uma doença, e, muitas vezes, não é a comida a culpada. É um problema interno", defende a estudante de nutrição Patrícia Soares, que atende voluntariamente no Nuobes e já pesou 130 quilos. "Hoje estou com 60 quilos e sei bem que não é uma doença que tem cura. A nutrição ajuda a dar a esse paciente uma consciência na escolha do que comer, mas é preciso saber lidar com isso. Não é fácil, mas todo cidadão com obesidade grau 3 deveria estar sendo acompanhado por profissionais, e não esquecido como muitos estão", lamenta Patrícia.

De acordo com a nutricionista da Secretaria de Estado de Saúde (SES) de Minas Gerais Juliana Cristina Diniz Guimarães, há em todas as cidades mineiras um Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional, que conta com profissionais para atendimento. "Além disso, há programas que auxiliam crianças com sobrepeso a fazer atividades físicas. A essas pessoas que não estão conseguindo esse atendimento, orientamos buscar nas regionais de referência o Núcleo de Apoio à Família, que conta com profissionais para o atendimento. Pode estar faltando informações a essas pessoas", esclarece.

O QUE É A OBESIDADE
A obesidade é uma doença caracterizada pelo excesso de gordura no corpo. Esse acúmulo ocorre quando a oferta de calorias é constantemente maior que o gasto de energia corporal e resulta frequentemente em sérios prejuízos à saúde. Atualmente, atinge 600 milhões de pessoas no mundo, 30 milhões somente no Brasil. Se for incluída a população com sobrepeso, esse número aumenta para 1,9 bilhão de pessoas no mundo e 95 milhões de brasileiros. Estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS) projetam um cenário ainda pior para os próximos anos. Estima-se que, em 2015, existirão 2,3 bilhões de pessoas com excesso de peso e 700 milhões de obesos no mundo inteiro.

Doenças associadas

» Diabetes
Estresse, hábitos alimentares não saudáveis e vida sedentária são as principais causas da incidência da doença. Pessoas com excesso de peso têm risco de desenvolver diabetes três vezes superior ao de pessoas com peso normal.

» Hipertensão arterial
Hábitos de vida não saudáveis, como sedentarismo e consumo exagerado de alimentos industrializados ricos em sal, ajudam a aumentar os níveis de pressão arterial.

» Problemas articulares
Na pessoa obesa, o peso do corpo pressiona as vértebras e desgasta as articulações, podendo ocasionar hérnia de disco. É comum o paciente sofrer com dores na coluna e nas articulações dos membros inferiores, como joelhos e tornozelos.

» Outras doenças
A condição de obesidade grave está associada também a outros problemas de saúde, como dificuldades respiratórias e apneia do sono, risco aumentado de embolia pulmonar por alterações da coagulação sanguínea e até alguns tipos de câncer (de útero, mama e intestino grosso, entre outros).

Fonte: Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica


Frederico Garcia, professor do Departamento de Saúde Mental da UFMG e membro da diretoria da Associação Mineira de Psiquiatria

Autoestima em baixa

"Uma omissão no atendimento traz consequências graves a esses pacientes. Quanto maior for o peso dessa pessoa, há a diminuição na expectativa de vida, além dos ricos de diabetes, colesterol alto, problemas de articulação, coração, entre outros. Sem o atendimento, ela fica cada vez mais sedentária, a autoestima diminui ainda mais, o que pode agravar quadros depressivos."

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