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A melhor herança

Entre lágrimas, alguém me estende um caderno com a capa gasta pelo tempo...

Liziane Guazina - Articulistas Publicação:30/10/2012 12:26Atualização:30/10/2012 15:51
Entre lágrimas, alguém me estende um caderno com a capa gasta pelo tempo:

– Tua herança.

É de minha avó materna. Tem cerca de cinquenta páginas, está amassado, seboso nas pontas, e uma espiral de arame mal segura as folhas. A capa um dia foi branca. Agora, possui uma cor difícil de definir. Percorro a letra miúda escrita em azul, as frases cheias de erros, o titubeio das palavras. Ali estão listas de compras, anotações de pagamentos, sonhos, desejos a serem realizados um dia e versos simples. Poesia dedicada a filhos, netos e à cidade natal.

Na última página, em meio a registros de aniversários, uma frase perdida, em diagonal. A memória é a casa da alma. Leio de novo. A memória é a casa da alma. Agostinho escreveu isso nas Confissões, célebre livro do santo católico. Nunca adivinharia que minha avó tivesse lido Agostinho alguma vez na vida. Conhecia, porém, seu hábito de copiar pensamentos e provérbios. Sua casa era repleta de papéis com a sabedoria alheia. Lembretes para uma existência além dos limites a que estava destinada como dona de casa e mãe de cinco filhos, em uma pequena cidade do Rio Grande do Sul, perto da fronteira com a Argentina.

Numa noite de verão, debaixo das parreiras carregadas de uva no quintal, ela me mostrou o mesmo caderno. Queria que eu explicasse a razão de ter decidido morar tão longe da família, na capital do país. Eu tinha 19 anos e meus pais não conseguiam determinar meus passos, para assombro de tios e primos (algo muito progressista para aquele mundo patriarcal). Ela queria o registro escrito da decisão, com assinatura, uma forma de me forçar a pensar. Recusei-me. Era difícil responder por que Brasília representava um futuro a ser construído, enquanto o Rio Grande me prendia como raízes centenárias de um baobá. O que tem lá que não tem aqui?, insistiu. Políticos corruptos? Não reagi. Na minha adolescência, o silêncio parecia ser a melhor solução para tudo.

Hoje, poderia ter dito que a velha artimanha brasileira de colocar a culpa de nossas mazelas nos políticos, como se cada cidadão não fosse responsável pela experiência democrática, não me comove. Já naquele tempo, minha avó sabia que eu não ousava reduzir uma cidade pelos erros de alguns de seus moradores, ainda que fossem temporários e poderosos. Depois de tantos anos, em um diálogo imaginário, poderia tentar impressioná-la com os números relativos à alta renda na cidade, mas ela me responderia que nem todo mundo tem acesso a essa renda – no que teria absoluta razão. Quem sabe, poderia louvar o alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) em Brasília, o maior do país, em dados recentes. Ou lembrar que, se fosse um município, o Distrito Federal inteiro seria o quarto maior do Brasil, atrás apenas de São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador.

Como último recurso, a despeito de todas as desigualdades agudas de uma cidade grande que ela certamente apontaria, eu retrucaria que, em Brasília, a cultura está viva. Posso conceber seu espanto se soubesse que aqui vivem poetas, escritores, cineastas. Cantores de rap, rock e música sertaneja mostram seu talento. Desenhistas registram os cantos escondidos do Setor Comercial Sul. Fotógrafos procuram por ipês floridos em meio ao trânsito de carros e pedestres nos Eixinhos.

Em Brasília, há um açougue onde se pode ler livros enquanto se escolhe a carne, e rodas de samba movimentam as tardes de uma semana comum. Aos domingos, o Eixão abre-se para que skatistas e patinadores rodopiem pelo asfalto até o entardecer. E quando a lua surge desafiadoramente bela perante a Esplanada dos Ministérios, os brasileiros de todas as origens agradecem por mais um dia.
Será que conseguiria convencê-la de minha decisão? A memória é tão seletiva. Mistura fatos e sentimentos, organizados por um fio pessoal, único, e, ao mesmo tempo, banal. Tão precária quanto a vida. No entanto, é a nossa casa. Volto ao caderno. Ainda na última página, no canto direito, a reveladora e derradeira anotação: "conhecer Brasília".

De todas as heranças possíveis, esta é a melhor que eu poderia receber.
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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017