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Circuito alternativo

Em número cada vez maior, skatistas deixam de lado as pistas oficiais e elegem os espaços públicos preferidos para andar sobre rodinhas na capital. Entre eles, a Ermida Dom Bosco, o Eixão e o Setor Bancário Sul

Matheus Teixeira - Redação Publicação:30/10/2012 16:20Atualização:30/10/2012 16:46
A estudante Karine Castilho é da turma Longbrother: 'Faço parte da família. Somos muito amigos', diz
 (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
A estudante Karine Castilho é da turma Longbrother: "Faço parte da família. Somos muito amigos", diz

Uma ladeira de 80 metros faz com que a Ermida seja considerada um dos melhores lugares para andar de longboard do Brasil. É lá que o estudante Ciro Mendes começou a andar de skate, há um ano. Agora, ele já participa de campeonatos e diz que sua evolução no esporte se deve muito ao local em que treina. “Venho aqui quase todos os dias, é como se fosse minha segunda casa. Dei sorte de morar próximo a um lugar tão bom de andar de skate”, diz.

Ciro não está sozinho. É cada vez mais comum ver pessoas andando de skate pelas ruas de Brasília. Os praticantes estão em todos os cantos, inclusive na zona central da cidade, a mais movimentada. Além do Setor Bancário Sul, onde eles se reúnem há mais de 20 anos, temos, na capital, diversos outros locais apropriados para andar sobre rodas. O DF é uma das unidades da federação com mais pistas de skate do país, ao todo são 25, todas públicas. Porém, apesar de serem em grande número, poucas estão no estado ideal para uso.

Os skatistas reclamam da conservação dos locais e dizem que o governo não faz manutenção periódica. Além dessa insatisfação, a Federação de Skate do Distrito Federal também se queixa de três pistas construídas pelo Governo do Distrito Federal (GDF) recentemente: “Foram feitas sem consultar um engenheiro especializado. A de Taquari, a do Taguaparque e a que fica próximo à Ponte do Bragueto são horríveis: os obstáculos são muito grandes, as rampas têm angulação desproporcional e o percurso delas é ruim”, diz o engenheiro da Federação, Márcio Brandão.

Abílio Neves e Gabriel aderiram à prática do skate: 'É um ótimo programa para fazer com o filho' (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Abílio Neves e Gabriel aderiram à prática do skate: "É um ótimo programa para fazer com o filho"

O estudante Pedro Menezes anda diariamente em Taquari, que tem um chão bom para deslizar, mas reclama das dificuldades que o local impõe para iniciantes. “Os obstáculos são ruins. Algumas descidas são impossíveis de encarar, são muito inclinadas”, diz. Ele conta que até hoje viu só uma pessoa descer a maior rampa, um profissional: “Fora ele, não sei de mais ninguém que teve coragem”. Por meio da assessoria de imprensa, a Secretaria de Obras, informou que convocará a Federação para ouvir as reivindicações e ver qual a melhor forma de resolver os problemas apontados.

O diretor-executivo da Federação, Clayton Prudêncio, chama a atenção para a melhor forma de investir no esporte: “Construir novos locais para skatistas é muito bom, incentiva a nova geração. Mas as pistas precisam de uma manutenção periódica”, explica.

O estudante Mateus Cardoso, morador do Sudoeste, costuma andar na pista do Cruzeiro. Ele conta que o local tinha buracos e rachaduras, e, ano passado, o governo reformou. Mas ainda tem problemas. “A pista ficou pior. Absurdo”, queixa-se Mateus. O administrador do Sudoeste, Marcelo Cicilianeo, alega que consultou os praticantes para fazer a reforma. “Falamos com os usuários para ver o que precisavam”, garante. Perguntado se algum especialista foi consultado, ele negou: “Se fosse uma pista profissional, teríamos de falar com a Federação. Mas, como é um espaço de lazer, falamos somente com os frequentadores do lugar”, conta.

Em alguns lugares, foram os próprios skatistas que se juntaram para melhorar a pista. Um exemplo é o que aconteceu no Riacho Fundo: “Fizemos um mutirão e conseguimos arrumar alguns defeitos. Mas não tem como fazer isso sempre, então a pista raramente está boa de verdade”, conta o estudante Thiago Costa, morador da região. O engenheiro Márcio Brandão afirma que o local é um dos melhores do DF. “Se estivesse bem conservada, teria nível para sediar até campeonato mundial. Pena que isso não acontece”.

O engenheiro da Federação de Skatistas da Capital, Márcio Brandão, aponta problemas no espaço do Taguaparque: pistas novas foram construídas sem consultar especialistas (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
O engenheiro da Federação de Skatistas da Capital, Márcio Brandão, aponta problemas no espaço do Taguaparque: pistas novas foram construídas sem consultar especialistas

Porém, não só de lugares ruins para a prática do esporte vive Brasília. Alguns lugares que não foram feitos com esta finalidade são usados para dar manobras e andar em alta velocidade. Os principais exemplos são a Ermida Dom Bosco e o Setor Bancário Sul (SBS); e o Eixão, que é fechado aos domingos e feriados.

Na Ermida, o estilo mais praticado é o longboard. Nesse estilo, os critérios variam para definir quem é o melhor. Alguns campeonatos medem a velocidade que o skatista atinge, outros avaliam a intensidade e a variação de execução das derrapadas. A “pista” é tão boa que a principal etapa do Campeonato Brasileiro aconteceu lá nos últimos quatro anos.

A servidora pública Raquel Musy escolheu a Ermida para frequentar. Ela anda em um tipo de skate que é uma das novidades do esporte, o carveboard. Com rodas maiores e de outro material, o estilo vem fazendo sucesso. “Um amigo trouxe um carve para mim do exterior. Desde então, me apaixonei e não parei de andar”, conta.

Já no Setor Bancário Sul, a galera do street predomina. O estilo é o mais conhecido de todos: o shape (veja glossário no quadro) é menor e, para fazer as manobras, o skatista tem de sair do chão. Apesar de não ter sido construído para isso, o SBS é considerado o espaço ideal para manobras radicais. “Alguns obstáculos parecem ter sido feitos especialmente para isso”, conta o estudante Henrique Lemos. Ele e quatro amigos são frequentadores do local: “Viemos aqui quase todos os dias à tarde, depois da escola. É muito legal reunir a galera para andar de skate”, conta. Não por acaso, autoridades já tentaram proibir os esportistas de usarem o local, mas nunca isso deu certo, eles sempre voltam.

Henrique diz que sente falta de um local específico para os skatistas no Plano Piloto. “É que andar em pista é diferente. Apesar de o SBS ser ótimo, as rampas fazem falta”, lamenta. O estudante conta que, com frequência, ele e os quatro amigos andam na pista do Núcleo Bandeirante. “Pegamos dois ônibus para chegar lá. Se tivesse uma mais perto, não teríamos esse trabalho”, fala.

Há dois anos, um grupo de amigos começou a se reunir no Parque da Cidade todos os domingos para andar de skate. Pouco tempo depois, mudaram o local do encontro para o Eixão Norte, na altura da 115, e ganharam o apelido de Longbrothers. O número de praticantes foi aumentando e alguns pais começaram a levar os filhos. Vendo isso, os mais experientes passaram a dar aula para os garotos que estavam iniciando no esporte, como conta o presidente dos Longbrother, Eduardo Apra, o Dudão. “Hoje, virou uma grande reunião de amigos, onde acontecem algumas aulas”.

A Ermida é o lugar preferido de Raquel Musy para curtir seu carveboard: apaixonada pelo esporte (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
A Ermida é o lugar preferido de Raquel Musy para curtir seu carveboard: apaixonada pelo esporte

Aos domingos, o empresário Abílio Neves tem programa marcado com o filho Gabriel, de 6 anos. Eles moram à beira do Eixinho, a poucos metros de onde os Longbrothers se reúnem. “No começo, não gostava do barulho que os skatistas faziam. Mas parei e pensei: Brasília é uma cidade tão parada, em vez de reclamar, acho melhor aderir à prática. É um ótimo programa para fazer com o filho”, garante. A comerciante Lilian Leite, mãe de Isaias, de 5 anos, acha que uma das qualidades do esporte é a amizade entre os praticantes. “É como se fosse uma família. Eles acolheram meu filho e hoje ele é apaixonado pelo esporte”, diz. A estudante Karine Castilho também virou integrante Longbrother. “Faço parte da família. Somos muito amigos”, diz.

E o mercado não está à mercê. Os vendedores das lojas especializadas no esporte afirmam que as vendas têm aumentado. “De uns três anos para cá, o lucro cresceu significativamente”, afirma Glaydson Prudêncio, proprietário da loja Freestyle, no Conic. Chama a atenção é o aumento das vendas para o público feminino, como destaca o subgerente da Funhouse, Clayton Fragoso: “Quando cheguei aqui, em 2004, eu vendia, no máximo, um skate por mês para mulher. Hoje, todos os dias vem alguma menina na loja atrás de um”, afirma.


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Quer aprender?

Encontro selecionou três lugares onde os iniciantes podem receber instruções e já sair andando de skate pela cidade

Escola de Skate DF
Local: Eixão Norte, na altura da 14. 
Tel: (61) 8486-8115.
Quando: aos domingos, das 10h às 14h.
Quanto: R$ 40 a hora aula de street e R$ 50 a hora aula de longboard.

Na Base Skate Escola
Local: Setor de Clubes Sul, Trecho 3, em frete à AABB.
Tel: (61) 8417-6112.
Quando: aulas as terças, quintas e sábados, das 9h às 18h.
Quanto: uma vez por semana R$ 68, duas R$ 130 e três R$ 180, mensais.

Escolinha Longbrothers
Local: Eixão Norte, na altura da 15.
Tel: (61) 8196-5097.
Quando: aos domingos e feriados, com agendamento.
Quanto: R$ 25 a hora.

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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017