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Vinhos »

Cerrado no rótulo

Engana-se quem pensa que produção de vinho de qualidade só existe no Sul do Brasil "2013 o entorno do DF também está no circuito. Um médico sonhador se transformou em agrônomo, enólogo e produtor" para tornar isso possível

Cecília Garcia - Redação Publicação:30/10/2012 17:02Atualização:30/10/2012 20:06
Marcelo de Souza, dono da fazenda Santa Rosa, tem hoje quatro hectares de parreiras plantadas: investimentos de mais de R$ 850 mil para produzir vinho de qualidade no Planalto Central (Minervino Junior/Encontro/DA Press)
Marcelo de Souza, dono da fazenda Santa Rosa, tem hoje quatro hectares de parreiras plantadas: investimentos de mais de R$ 850 mil para produzir vinho de qualidade no Planalto Central
A cerca de 100 quilômetros do centro de Brasília, na parte leste de Goiás, uma estrada que começa pela BR-070 leva a uma bifurcação marcada com um pneu pintado de branco preso a uma estaca fincada no chão. Esse é o sinal da mudança de caminho: do concreto para o chão de terra. Depois de curvas, subidas, descidas e muita poeira, é possível ver uma plantação de uva, cercada por esparsas árvores baixas de troncos retorcidos, grama seca e clima desértico. “Não parece um oásis?”, pergunta, orgulhoso, o médico Marcelo de Souza, dono da fazenda Santa Rosa. Com quatro hectares de parreiras plantadas, divididas em 78 fileiras, cada uma com 200 metros de comprimento, esse recanto fértil fornece as uvas para uma vinícola, acredite, no entorno do DF: a Pirineus Vinhos e Vinhedos.

A ideia de instalar um vinhedo e uma vinícola num local tão pouco convencional foi do próprio Marcelo, que garante ter encontrado nas cercanias da cidade de Cocalzinho (GO) as condições ideais para a produção de uvas. Verão quente, seco e com noites frias, semelhante às áreas mediterrâneas. Essas são as características climáticas escolhidas pelo médico para começar seu empreendimento.
Já o solo não era tão perfeito assim. Para iniciar a plantação, foram necessárias correções de potencial hidrogeniônico (pH) e adição de material orgânico. Mas tudo foi muito bem planejado e, não por acaso, deu certo.

A história que levou à criação da Pirineus começa com o interesse do otorrinolaringologista pela cultura do vinho, quando ainda estava na faculdade. O fascínio só cresceu com o passar do tempo. Assim, em 2003, tomou a decisão de começar a empreender. Tendo como única sócia a sua esposa, comprou a fazenda sede da vinha em 2004. Em 2005, fez a primeira plantação. E, em 2010, colheu a primeira safra, que originou os vinhos Intrépido, feito de uva syrah; e Bandeiras, com o tipo barbera. A vinícola produz apenas vinhos tintos finos secos.

 (Minervino Junior/Encontro/DA Press)

Hoje, a área do plantio é dividida em três setores, que produzem uvas do tipo syrah, barbera e tempranillo. A irrigação é feita por gotejamento, com água proveniente de uma represa construída para esse fim, bem ao lado da vinha. Em 2012, foram colhidas oito toneladas de uva. O ideal, para justificar o investimento em uma área de quatro hectares, é produzir, no mínimo, 12 toneladas por safra. E a previsão é de que essa meta seja alcançada já no próximo ano.

Durante os meses de agosto e setembro, as madrugadas no vinhedo ficaram movimentadas. Os funcionários da fazenda se dedicaram à colheita das uvas – que precisam chegar ainda frias à vinícola e, por isso, devem ser retiradas antes do nascer do sol. A cena é interessante; eles passam entre as parreiras enfileiradas colhendo apenas as frutas mais maduras. Esse processo é repetido três vezes, em intervalos que podem variar de dias até uma semana, dependendo da velocidade de amadurecimento das uvas que ficaram no pé. A técnica aplicada foi aprendida por Marcelo quando foi ao Chile estudar o assunto.

Desde 2004, quando comprou a fazenda, até hoje, Marcelo de Souza calcula que já investiu mais de R$ 850 mil no empreendimento, sendo R$ 100 mil destinados à implantação das uvas por hectare e R$ 300 mil investidos nos equipamentos da vinícola, fora a aquisição da fazenda.

E a parte financeira não foi o único investimento. Segundo ele, mesmo sendo bem atendido com tecnologia direcionada à agricultura, no estado de Goiás não havia mão de obra especializada no cultivo de uva e produção de vinho. “Tenho de ser agrônomo, enólogo, produtor, tudo ao mesmo tempo para que a produção se torne possível”, conta. O reconhecimento vem acontecendo aos poucos. No último mês de agosto, em uma degustação no restaurante Trattoria da Rosário, no Lago Sul, o ex-ministro presidente do Supremo Tribunal Federal, Cézar Peluzo, experimentou o vinho Bandeiras e disse ter ficado “encantado”.

Hoje, o médico cuida da parte técnica da produção, e sua mulher, Adriana Carvalho, da administrativa. Pai de um menino de 8 anos e de uma menina de 12, Marcelo quer que a Pirineus Vinhos e Vinhedos seja uma empresa familiar, sem sócios de fora. Foram necessários sacrifícios, mas ele explica que seu projeto não é apenas para realização pessoal. “Sempre trabalhei com metas e meu objetivo é, dentro de alguns anos, torná-la uma empresa consolidada, com o envolvimento dos meus filhos.”

 (Minervino Junior/Encontro/DA Press)

Outras experiências


De acordo com o último Panorama da Vitivinicultura Brasileira, publicado em 2011 pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o cultivo de uvas para a fabricação de vinhos é ainda uma atividade recente e espalhada geograficamente pelo estado de Goiás. O órgão identifica que as principais iniciativas de empreendimentos nesse setor estão nos municípios de Santa Helena de Goiás, Paraúna e Itaberaí. Os três polos têm foco na produção de vinho de mesa e suco de uva.

Os pesquisadores José Fernando da Silva Protas e Umberto Almeida Camargo, autores do Panorama, afirmam que o estado tem condições climáticas propícias à produção de uvas de alta qualidade no período de estiagem e abundância de água para a irrigação dos vinhedos. Além disso, em Goiás não há frio suficiente para induzir a hibernação da videira, o que possibilita duas colheitas ao ano.
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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017