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Empreendedores 3.0

Brasília sai na frente na corrida pela inovação tecnológica, exporta talentos e vai ao Vale do Silício. Quem são os jovens que se destacam na cidade e se divertem (além de ganhar dinheiro, claro) com a pergunta "quanto vale a sua ideia?"

Leilane Menezes - Colunista Publicação:31/10/2012 17:25Atualização:31/10/2012 17:44
Taynah Reis dá palestras em diferentes lugares do mundo e tem parcerias invejáveis: músicas do All be tuned são mixadas no Metroples Studios, em Londres (Minervino Junior/Encontro/DA Press)
Taynah Reis dá palestras em diferentes lugares do mundo e tem parcerias invejáveis: músicas do All be tuned são mixadas no Metroples Studios, em Londres
Se você é ligado em tecnologia, provavelmente já ouviu falar em startups, aceleradoras e no paraíso dos nerds e aficionados por novidades, o Vale do Silício. O leitor pode até não conhecer os termos, mas certamente convive com alguém dessa geração adoradora de smartphones e tablets, sempre conectada. Em Brasília, já é possível dizer: 2012 é o ano das startups. O termo em inglês é usado para referir-se a pequenas empresas de tecnologia, com pouco dinheiro, mas enorme potencial para tornarem-se gigantes, rapidamente, como Google e Facebook, iniciados com grandes ideias e bolsos quase vazios.

Este ano, pela primeira vez, a cidade teve eventos de visibilidade, como o  Startup Weekend; brasilienses participaram de um grande encontro no Vale do Silício, o Tech Crunch Disrupt; e, em novembro, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) vai anunciar o lançamento de um projeto do governo federal para incentivar o crescimento e sucesso de startups nacionais.

Nos próximos dias, o MCTI prevê publicar o edital do programa Startup Brasil, vinculado ao programa TI Maior – voltado à tecnologia da informação – para nomear quatro aceleradoras (empresas focadas em ajudar startups com potencial para crescer rapidamente), que poderão destinar recursos do governo federal a startups envolvidas com TI. Cada aceleradora selecionada poderá escolher 10 empresas nesse formato para as quais deverá destinar até R$ 200 mil (para cada uma). O dinheiro vai ser investido em pesquisa, desenvolvimento e inovação.

Sucesso nos negócios e reconhecimento entre os colegas: Marco Gomes, fundador da boo-box, 
tem uma plataforma pioneira no país para anúncios da internet  (NR-7 Comunicação / Divulgação)
Sucesso nos negócios e reconhecimento entre os colegas: Marco Gomes, fundador da boo-box, tem uma plataforma pioneira no país para anúncios da internet

Em entrevista a Encontro, o coordenador de software do MCTI, Rafael Moreira, adianta alguns pontos do edital. “A qualidade do time de profissionais será avaliada, procuraremos saber quem são os investidores e mentores, vamos avaliar se eles têm metodologia, qual é o modelo de negócios e quais são os braços de capital de riscos, entre outros fatores”, explica.

Além disso, o MCTI montará, até o primeiro semestre de 2013, um inédito hub de negócios, uma espécie de escritório, no Vale do Silício, com pessoas responsáveis por levar startups brasileiras para fora e trazer investimentos para o Brasil. O governo federal baseou-se em experiências de outros países, como Israel, Chile, Estados Unidos, Canadá e Cingapura, para traçar o projeto Startup Brasil (leia box na página 78).

À frente de outras regiões, a capital do país já tem firmada sua face inovadora. Engana-se quem pensa que os jovens de Brasília só falam em concurso público. Claro, os que almejam estabilidade sem grandes riscos ainda são maioria. Há quem aposte na cidade como um dos principais mercados de startups, no Brasil. Um dos fundadores do site de compras coletivas Peixe Urbano, Júlio Vasconcellos, estudou e foi criado na capital do país. De acordo com ele, a cidade é um mercado em ebulição.  “Brasília possui um excelente sistema de educação e jovens com talento, ambição e, muitas vezes, questionadores. Há muitos estrangeiros e brasileiros de todas as regiões do país que passam por Brasília, deixando pela cidade suas ideias e experiências. Tudo isso tem contribuído para a geração de um ambiente dinâmico e favorável ao desenvolvimento de jovens empreendedores”, afirma.

Bruno Fernandes, do aplicativo Diet Me: o aplicativo ficou em primeiro lugar entre 
os mais baixados, na categoria saúde e bem-estar, na loja da Apple (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Bruno Fernandes, do aplicativo Diet Me: o aplicativo ficou em primeiro lugar entre os mais baixados, na categoria saúde e bem-estar, na loja da Apple

Bons exemplos não faltam. O brasiliense Marco Gomes, fundador da boo-box, uma plataforma pioneira no país para anúncios da internet, é o principal sucesso vindo da capital. Altamente ativo e curioso, aos 11 anos ele já desenvolvia sites para pequenas empresas: “O computador é algo mágico, principalmente para uma criança. Eu era bom naquilo e me divertia aprendendo sozinho”, diz Marco, que aos 17 entrou na UnB para cursar computação, mas não concluiu o ensino superior. A ideia da boo-box nasceu em 2007, quando o rapaz percebeu que havia espaço praticamente inexplorado para fazer publicidade em blogs, fóruns e redes sociais. Hoje, aos 26 anos, Marco é dono da primeira empresa brasileira de tecnologia para publicidade e mídias sociais. Sua tecnologia classifica e categoriza o público de 370 mil sites, exibe anúncios para 80 milhões de pessoas no Brasil, monetiza a audiência de 42 mil produtores de conteúdo e gera melhor retorno sobre o investimento para anunciantes e agências de publicidade.

Isto atraiu investidores – em 2010, a boo-box foi a única empresa brasileira a receber verba da Intel Capital. No início de 2012, passou a ser considerada uma das cinco empresas de publicidade mais inovadoras do mundo pela conceituada revista norte-americana Fast Company.  “Antes, os anunciantes só estavam em portais gigantes. A boo-box trouxe para o Brasil a possibilidade de anunciar em mil sites ao mesmo tempo”, explica Marco Gomes, que hoje vive em São Paulo. A história de Marco, criado em uma comunidade pobre, é a principal entre as retratadas no livro Brilliant, Crazy, Cocky (Brilhante, Doido, Convencido), sobre empreendedores ao redor do mundo, da autora americana Sarah Lacy, premiada repórter que vive no Vale do Silício.

Várias outras histórias atrelam tecnologia e talento entre brasilienses. No início deste ano, a cantora Taynah Reis, de 24 anos, destacou-se ao vencer prêmio oferecido pela Midem: Connected by Music, feira da indústria fonográfica internacional que acontece todos os anos em Cannes, na França. Ela criou a rede social All be tuned (todos sintonizados), por meio do qual músicos do mundo inteiro podem compor em parceria, usando o computador ou celular. O usuário pode adicionar, nos arquivos de áudio, sons de guitarra, bateria ou baixo. Outro artista pode ainda comprar o que lhe interessar, formando, assim, uma banda. Também pode gravar clipes colaborativos, que vão direto para o Youtube. Se a música finalizada for vendida para gravadora, os lucros são repartidos e a maior parte vai para o idealizador. A ideia também levou troféu de primeiro lugar do prêmio AT&T, em Austin, no Texas. As recompensas em dinheiro somam US$ 6 mil.

%u201CBrasília fez barulho no Vale do Silício, onde tem a maior concentração de nerds por metro quadrado da face da Terra%u201D, conta Alexandre Gomes (à dir.), ao lado dos colegas Roberto Mascarenhas e Antônio Ventura (Minervino Junior/Encontro/DA Press)
%u201CBrasília fez barulho no Vale do Silício, onde tem a maior concentração de nerds por metro quadrado da face da Terra%u201D, conta Alexandre Gomes (à dir.), ao lado dos colegas Roberto Mascarenhas e Antônio Ventura

As vitórias alavancaram a carreira de Taynah. Ela firmou parceria com a Metroples Studios, em Londres, para mixar as músicas feitas no All be tuned. “Qualquer pessoa poderá mixar suas músicas no mesmo estúdio da Lady Gaga. É uma ideia revolucionária, afinal, é difícil encontrar gravadores dispostas a investir em anônimos”, diz. Taynah teve chances de conhecer o mundo por conta da visibilidade de sua ideia. Ministrou palestras em Cingapura, Londres, Nova York, entre outros lugares.

Outro destaque brasiliense, a equipe da empresa ISI Tecnologia colocou a criatividade à disposição da saúde de seus usuários quando criou o aplicativo Diet Me, baixado de graça na APP Store. Foram mais de 65 mil downloads nos dias seguintes à disponilização, em 27 de maio de 2011. O aplicativo ficou em primeiro lugar entre os mais baixados na categoria saúde e bem-estar e em terceiro entre os gratuitos da APP Store.

Desenvolvedores contaram com a ajuda da nutricionista Rafaela Ramos para elaborar o cardápio de dieta baseado nos alimentos mais consumidos no Brasil. “Havia opções de aplicativos com formato parecido, mas tudo era baseado em alimentos norte-americanos, coisas que não encontramos com facilidade por aqui. O Diet Me oferece, basicamente, dietas para pessoas que queiram perder peso, ganhar massa ou manter os quilos atuais”, relata o analista de sistemas Bruno Fernandes, de 34 anos, um dos criadores do projeto. Quando lançou o Diet Me, a ISI tinha só quatro pessoas na equipe. Com o sucesso, já são 15. Este ano, os negócios foram expandidos para Portugal, graças à divulgação boca a boca. Agora, um grupo de investidores deseja tornar o Diet Me um portal de saúde – o processo está em negociação.

Um dos fundadores do site Peixe Urbano, Júlio Vasconcelos, estudou e foi 
criado na capital do país: %u201CA cidade é um mercado em ebulição%u201D, diz (NR-7 Comunicação / Divulgação)
Um dos fundadores do site Peixe Urbano, Júlio Vasconcelos, estudou e foi criado na capital do país: %u201CA cidade é um mercado em ebulição%u201D, diz

Pouca gente sabe, mas um dos criadores de aplicativos mais jovens da Apple é brasiliense. Rafael Costa tem 14 anos, é morador do Lago Sul, já apresentou nove produtos à APP Store. Também dá palestras e conta sua experiência a pessoas com o dobro de sua idade. A lista de produtos desenvolvidos por ele, que é autodidata, é longa.

Criado por Rafael, o Sweet Tweet permite inserir informações com mais rapidez na rede social Twitter. É dele também o Facepad, que aprimora o Face Time, da Apple, disponível para fazer chamadas de vídeo entre iPhones.

Números e letras dividem a preferência de Rafael, um apreciador da literatura brasileira. O aplicativo Machado de Assis – Romances, também de sua criação, traz para a internet todas as obras de domínio público do escritor. O rapaz criou ainda jogos para iPhone e tem outras dezenas de projetos. Ele recebe 70% do valor de cada aplicativo pago baixado e 60% da verba de publicidade de cada um. Seu foco agora é desenvolver o próprio sistema operacional, baseado no Android. “Não quero ficar limitado a fazer aplicativos. Quero criar muito mais”, avisa.

Um dos criadores de aplicativos mais jovens da Apple é brasiliense: Rafael Costa recebe 70% do valor de cada app pago baixado  (Minervino Junior/Encontro/DA Press)
Um dos criadores de aplicativos mais jovens da Apple é brasiliense: Rafael Costa recebe 70% do valor de cada app pago baixado

O DF já parece pequeno para essa turma. Durante duas semanas, em setembro, 12 jovens de Brasília viveram pela primeira vez a experiência de respirar tecnologia, 24 horas por dia. É assim no Vale do Silício: pessoas apresentam-se umas às outras e de cara querem saber se são donos de startups ou possíveis investidores. Nas mesas de bar, no almoço ou durante o happy hour, o assunto é o mesmo: quanto vale a sua ideia? Não se perde o foco nem nos momentos de lazer. “É a maior concentração de nerds por metro quadrado da face da Terra”, afirma um dos brasilienses que estava no grupo, Alexandre Gomes.

Brasília levou a maior delegação de brasileiros para o Tech Crunch Disrupt, um dos principais eventos na área de inovação tecnológica, promovido pelo mais respeitado portal sobre esse tema no mundo, o Tech Crunch. A intenção era fazer contatos, promover ideias e captar investimentos. A startup Qual Canal?, que mede níveis de audiência por meio de redes sociais, recebeu convite para ser acolhida em uma aceleradora do Vale. “Depois do Startup Weekend, em fevereiro, quando mais de 100 pessoas se concentraram na UnB, para desenvolver e acelerar suas ideias, vimos a necessidade de nos juntar para aquecer esse mercado em Brasília, relata Roberto Mascarenhas, formado em engenharia de redes de comunicação pela UnB.

A viagem teve o apoio do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) no DF. Além do encontro, eles visitaram sedes de empresas como o Google e assistiram a palestras de gente como o criador do Facebook, Mark Zuckerberg, “Os holofotes estão todos voltados para o Tech Crunch, pois eles só apresentam o que está em evidência. Brasília fez barulho no Vale do Silício”, diz Alexandre. 

Glossário

Startup
A expressão é usada há décadas nos Estados Unidos e ganhou força entre 1996 e 2001, com o boom da internet. Trata-se de pessoas que criam um negócio que pode render dinheiro, sem muito investimento. A empresa deve ter baixo custo, manutenção barata e entrar rapidamente em funcionamento, gerando lucro.

Aceleradoras
O funcionamento nesse modelo é diferente do de uma incubadora tradicional. Elas são comandadas por empreendedores e investidores experientes, que apostam em boas ideias, com capacidade de gerar muito dinheiro. Sua função é fazer com que isso ocorra muito rapidamente.

Escalável
Dizer que uma empresa é escalável significa que ela é capaz de produzir em massa, sem aumentar drasticamente os custos. Por exemplo: um restaurante não é escalável, pois para atender mais clientes, precisará de mais empregados e mais espaço.

Vale do Silício
Em 1950, grupos de empresas instalaram-se na região da Califórnia composta por várias cidades, que ficou conhecida como Vale do Silício. O objetivo era gerar inovações científicas e tecnológicas, destacando-se na produção de chips, na eletrônica e informática. Silício é um elemento químico importante, presente na composição de organismos vivos e usado em produtos eletrônicos.

Hub
Em computadores, o hub funciona como a peça central. Ela recebe sinais e os retransmite para todas as demais. Por isso, o termo é usado no meio empresarial ou para designar aeroportos, por exemplo, que concentram boa parte dos voos que seguem para outros destinos. O Vale do Silício, por exemplo, é considerado um hub
de startups. Nele se encontram e interagem empreendedores
do mundo inteiro.

"O Brasil não fica de fora"

Rafael Moreira: 'O capital humano deve ser muito qualificado, em alta tecnologia' (MCTI Divulgação)
Rafael Moreira: "O capital humano deve ser muito qualificado, em alta tecnologia"

Coordenador de software do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, Rafael Moreira fala como vai colocar mais empresas no mercado

Por que o MCTI decidiu desenvolver o projeto Startup Brasil?
É uma tendência mundial e o Brasil não fica de fora.
A intenção é colocar essas empresas no mercado o mais
rápido possível. É uma ideia que teve início no Vale do Silício.
O mote é o empreendedorismo de alto impacto, no qual o capital humano deve ser muito qualificado em alta tecnologia.

Qual será a participação do governo?
O governo oferecerá, em parceria com o Sebrae e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex), apoio para assessoria legal, orientação para modelo de negócios e relações públicas. Usamos como modelo países como Chile, Canadá e Israel, onde há um incentivo do poder público para a produção e não um patrocínio total.
Essas aceleradoras vão entrar com capital de risco
de seus investidores.

Porque limitar a participação de empresas de TI?
Fizemos um raio-x desse setor no Brasil e constatamos que 70% dos investimentos de aceleradoras no país são nessa área. Encontramos 30 aceleradoras e cerca de 700 startups, de todos os setores, não apenas TI, no Brasil. Primeiramente, vamos investir em TI. Dependendo dos resultados, abriremos para outras áreas.
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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017