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Os superprofessores

Quem são os profissionais que sobreviveram - e bem - à invasão dos aparelhos nas academias. Disputados, eles lotam as aulas de ginástica localizada e são reconhecidos como "puxadores de alunos"

Matheus Teixeira - Redação Publicação:01/11/2012 09:26Atualização:01/11/2012 09:48
Quem é: Marco Paulo de Paoli, de 49 anos,sócio da Unique |
Quantos alunos: 250 a 300 |
Tempo de profissão: 28 anos |
Além da ginástica, mantém a forma com: musculação |
A técnica: mais peso, menos repetição. Trabalha um grupo muscular por dia |
Trilha sonora da aula: Mixagem feita pelo DJ Toca, de Santos (SP), com preferência pelo house e dance. 
Anote aí
De acordo com o professor Marco Paulo de Paoli, que fez mestrado sobre o consumo calórico de uma aula de localizada, em uma hora do exercício, a pessoa perde de 350 kcal a 500 kcal, gasto comparado somente ao spinning. (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Quem é: Marco Paulo de Paoli, de 49 anos,sócio da Unique | Quantos alunos: 250 a 300 | Tempo de profissão: 28 anos | Além da ginástica, mantém a forma com: musculação | A técnica: mais peso, menos repetição. Trabalha um grupo muscular por dia | Trilha sonora da aula: Mixagem feita pelo DJ Toca, de Santos (SP), com preferência pelo house e dance. Anote aí De acordo com o professor Marco Paulo de Paoli, que fez mestrado sobre o consumo calórico de uma aula de localizada, em uma hora do exercício, a pessoa perde de 350 kcal a 500 kcal, gasto comparado somente ao spinning.
Nos anos 1980, a ideia de uma esteira com acesso à internet ou de uma plaforma vibratória feita com tecnologia da Nasa poderia parecer cena de filme de ficção científica. Bicicletas ergométricas e algumas estações de musculação nem de longe eram mais atrativas do que as disputadas aulas de ginástica localizada. De lá para cá, as academias ganharam superaparelhos, além de uma porção de modalidades diferentes e de nomes pomposos. Algumas, no entanto, conservam um time de professores com décadas de experiência e um séquito de alunos fiéis nas chamadas aulas de local.

Eles têm entre 40 e 50 anos e fazem parte de uma geração de professores sem discípulos. A maioria dos estudantes de educação física já sai, hoje, da universidade com as intenções carimbadas: ser personal trainer ou instrutor de musculação. “Da nossa geração, quem era bom se destacou e está dando aula até hoje. Porém, como os mais novos pensam mais em musculação, vemos uma lacuna que parece que não vai ser preenchida. Há tempos não surge um grande professor”, garante Dalmo Ribeiro, de 46 anos, professor e proprietário de quatro academias.

Por bom professor, entenda-se: alguém capaz de transformar alunos em implacáveis seguidores; de incentivar; de escolher uma ótima trilha sonora e de provar que todo aquele esforço baseado em pesos e repetições dá resultado. Quem conseguiu essa façanha comemora uma carreira bem-sucedida — ou manteve seu negócio, apesar da concorrência cada vez mais acirrada, ou conquistou lugar de sócio em grandes redes.

“Hoje, tenho apartamento na zona nobre de Brasília e carro importado. Levo uma vida muito boa. Devo a  isso a minha profissão”, garante o professor Marco Paulo de Paoli, de 49 anos. Ele acabou se tornando sócio da Unique exatamente pela capacidade de atrair os alunos. Formado em educação física pela Universidade Dom Bosco e mestre em fisiologia pela Universidade Católica de Brasília, ele acredita que o seu diferencial é aliar teoria e prática nas aulas. “Tenho muito conhecimento teórico, o que poucos têm. Acredito que isso valoriza o profissional.”

Quem é: Almyr Barros, de 49 anos, sócio da Body Tech |
Quantos alunos: 250 a 300 |
Tempo de profissão: 30 anos |
Além da ginástica, mantém a forma com: corrida e windsurf |
A técnica: trabalha todos os músculos diariamente, com várias repetições |
Trilha sonora da aula: tão importante que ele prefere manter sob sigilo (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Quem é: Almyr Barros, de 49 anos, sócio da Body Tech | Quantos alunos: 250 a 300 | Tempo de profissão: 30 anos | Além da ginástica, mantém a forma com: corrida e windsurf | A técnica: trabalha todos os músculos diariamente, com várias repetições | Trilha sonora da aula: tão importante que ele prefere manter sob sigilo

Não só isso. Seus alunos destacam dois aspectos em particular. O primeiro deles é a técnica.  “Gosto da aula porque ele faz a gente pegar bastante peso. Meu objetivo é ganhar massa, não ficar mais magra, e ele faz com que nosso corpo fique torneado”, elogia a eletricitária Rosana Figueiredo, que exalta também o profissionalismo do professor. “Ele se preocupa muito conosco, vem dar aula nem que seja de muleta”, conta, referindo-se ao dia em que Marco Paulo precisou de apoio devido a um problema de coluna. Para Rosana, o resultado de tamanha dedicação reflete-se na forma física dela. “Não pude treinar por três meses, pois estava doente. Porém, consegui recuperar tudo que perdi em apenas 30 dias”, conta.

Marcos é um dos professores que se destacam num cenário que emprega 20 mil profissionais em 600 academias. Ganhar projeção no universo fitness de Brasília não é fácil. Estima-se que existam hoje cerca de 120 mil pessoas matriculadas em academias, que pagam em média R$ 180 ao mês — embora nos estabelecimentos mais sofisticados a cifra seja um bocado maior. Para conquistar os alunos, é preciso empenho. “Hoje, existem até esteiras que acessam a internet. Os aparelhos hoje fazem tudo, medem até quantas calorias a pessoa perde por exercício. Concorrer com a tecnologia é difícil. Nas nossas aulas, só precisamos dos pesos e do esforço do aluno”, compara Almyr Barros.

Para driblar tal dificuldade, ele conta com a experiência de mais de três décadas de aulas de ginástica localizada em Brasília. Hoje, é sócio da Body Tech. Mereceu o convite graças ao imenso número de alunos que sempre levou consigo por onde passou. Antes de ser convidado para integrar o time da academia, montou seu próprio negócio. “Quando abri com meu nome, tivemos 500 matrículas na primeira semana.” Também já rodou o Brasil e foi a países como Estados Unidos e Inglaterra, dando aulas de ginástica e ministrando palestras.

Quem é: Luciana Cirillo, de 43 anos, sócia da Academia Armando Cirillo |
Quantos alunos: 150 a 200 |
Tempo de profissão: 20 anos |
Além da ginástica, mantém a forma com: musculação e vôlei de praia |
A técnica: trabalha um grupo muscular por dia. Mais repetição, menos peso |
Trilha sonora da aula: Compra sets remixados da empresa Gato Cachorro, atualmente usa as músicas da DJ Andrezza Corleto, mas não revela quais (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Quem é: Luciana Cirillo, de 43 anos, sócia da Academia Armando Cirillo | Quantos alunos: 150 a 200 | Tempo de profissão: 20 anos | Além da ginástica, mantém a forma com: musculação e vôlei de praia | A técnica: trabalha um grupo muscular por dia. Mais repetição, menos peso | Trilha sonora da aula: Compra sets remixados da empresa Gato Cachorro, atualmente usa as músicas da DJ Andrezza Corleto, mas não revela quais

Tanto sucesso tem uma explicação: “A gente tem que ser de tudo um pouco: DJ, para escolher as melhores músicas; animador, para eles não ficarem desmotivados; palhaço, para a aula ser divertida; e ainda somos um pouco psicólogo.” Além disso, ele se orgulha de nunca ter tido um aluno lesionado. “Temos uma série de cuidados, qualquer movimento errado pode causar uma lesão.”

Outro professor conhecidíssimo em Brasília por ser “puxador” de alunos é Hermes Silva, de 49 anos, que hoje tem um contrato com a Body Tech. Há 30 anos, ele conserva uma legião de alunas fiéis. “Para onde ele vai, eu vou atrás. Fiz a matriculei na academia só para ter aula com ele, não faço mais nada além da localizada”, conta Jussara Vieira, de 54 anos, 25 deles fazendo aulas com Hermes. Ela credita ao professor, além da boa forma, a saúde em dia. “Não tenho pudor na hora de comer e ainda bebo cerveja com frequência. Se não fossem as aulas, eu estaria, sem dúvida, com as taxas de glicose e colesterol altíssimas.”

Betânia Venâncio faz coro às palavras de Jussara. Ela e dez amigas fazem aula na academia do Setor de Clubes Sul todos os dias. Aos sábados, Hermes só dá aula em outra filial. “E nós vamos ao Sudoeste só para não perder a aula dele. Vale muito a pena. Hoje tenho o corpo definido por causa dele”, garante. Para Hermes, sucesso é sinônimo de dedicação e paixão pelo que faz. “Creio que esse é um dos diferenciais do meu trabalho. Amo o que faço e gosto de estar sempre me renovando, vendo o que tem de novo na profissão”, explica.

Quem é: Dalmo Ribeiro,  de 46 anos, proprietário de quatro academias |
Quantos alunos: 200 |
Tempo de profissão: 29 anos |
Além da ginástica, mantém a forma com: corrida e musculação |
A técnica: treina um grupo muscular por dia. Mais peso, menos repetição |
Trilha sonora da aula: Uma set list inclui Somebody that i Uses to Know (Gottie), Titanium (David Guetta), Fell So Close (Calvin Harris), Eletric Avenue (Eddy Grant remixada), Enjoy the Silence (Depeche mode), Glad you Came (The Wanted) e Sunday Bloody Sundey (U2 mixada) (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Quem é: Dalmo Ribeiro, de 46 anos, proprietário de quatro academias | Quantos alunos: 200 | Tempo de profissão: 29 anos | Além da ginástica, mantém a forma com: corrida e musculação | A técnica: treina um grupo muscular por dia. Mais peso, menos repetição | Trilha sonora da aula: Uma set list inclui Somebody that i Uses to Know (Gottie), Titanium (David Guetta), Fell So Close (Calvin Harris), Eletric Avenue (Eddy Grant remixada), Enjoy the Silence (Depeche mode), Glad you Came (The Wanted) e Sunday Bloody Sundey (U2 mixada)

Já para a professora Luciana Cirillo, proprietária, com o marido, da Armando Cirilo, o nome disso é vocação. Ela acredita que nasceu para dar aula de localizada, por isso tem tantas alunas. “Gosto muito de dar aula, faz bem para mim, por isso sempre estou alto-astral”, explica. Um dos grupos mais fiéis a Luciana já contabiliza 15 anos junto. A convivência extrapolou os limites das salas de ginástica e rendeu uma grande amizade. “A Luciana é o elo do grupo”, diz a servidora pública Catia Gonçalves. A defensora pública Emmanuela Saboya sustenta o caráter quase familiar das aulas. “Nos reunimos diariamente para fazer a aula, e ,quando conseguimos, ainda viajamos todas juntas”, conta.

Tanto Emmanuela quanto Catia destacam ainda a busca pela perfeição como marca da professora. “Ela faz milagre com o nosso corpo”, diz Emmanuela. O fim da aula costuma ser um refresco para o corpo e para a alma. São cinco minutos de meditação, seguidos de uma pequena oração. “Busco o equilíbrio e acho que esses minutos finais ajudam bastante a aliviar a tensão do dia a dia”, acredita.

Quem é: Hermes Silva, de 49 anos, professor da Body Tech |
Quantos alunos: 250 a 300 |
Tempo de profissão: 30 anos |
Além da ginástica, mantém a forma com: triatlo e natação |
A técnica: faz mais exercícios aeróbicos, trabalha a resistência do aluno |
Trilha sonora da aula: Even better than the real thing (U2), Seven cilies (Armin 
van Buren), If you should go (Armin Only), Example (Changed the Way), Not the same (Markus Shutz), Fine without you (Armin Only), Youtopia (Michael Woods), Need you now (Dj factory), Happiness (Alexis jordan), Don%u2019t you care (Ibiza 2012) (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Quem é: Hermes Silva, de 49 anos, professor da Body Tech | Quantos alunos: 250 a 300 | Tempo de profissão: 30 anos | Além da ginástica, mantém a forma com: triatlo e natação | A técnica: faz mais exercícios aeróbicos, trabalha a resistência do aluno | Trilha sonora da aula: Even better than the real thing (U2), Seven cilies (Armin van Buren), If you should go (Armin Only), Example (Changed the Way), Not the same (Markus Shutz), Fine without you (Armin Only), Youtopia (Michael Woods), Need you now (Dj factory), Happiness (Alexis jordan), Don%u2019t you care (Ibiza 2012)

Para as alunas de Dalmo Ribeiro, professor e proprietário de quatro academias que levam seu nome, há outro fator que explica a permanência nas aulas de localizada, além do vínculo que se estabelece com o instrutor. “Se a pessoa fizer a aula dele com frequência e tiver o mínimo de disciplina ao se alimentar, é impossível ficar com o corpo feio”, garante Adriana Saraiva, aluna de Dalmo há 18 anos. Segundo ela, é importante também ter ao lado um profissional dedicado e que não cai na mesmice: “Ele está sempre atualizado, varia os exercícios para não enjoarmos, isso é excelente”, exalta.

Dalmo agradece, deixando escapar uma crítica a muitos profissionais: “É muito satisfatório ver que as pessoas confiam no trabalho da gente. Por isso, não paro de dar aulas. Penso muito no aluno. Prova disso é que, mesmo depois de me tornar empresário, nunca deixei a ginástica localizada. Acho que poucos profissionais pensam tanto no aluno”, conclui.
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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017