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Convênios com universidades e escolas de outros países trazem para Brasília um número cada vez maior de estudantes estrangeiros. E por que eles escolhem a cidade? Intercambistas de várias nacionalidades contam o que os atraiu para a capital federal

Jéssica Germano - Redação Publicação:01/11/2012 10:39Atualização:01/11/2012 11:05
A estudante de letras Yuri Misawa se encantou por Brasília quando 
ainda estava no Japão: 'Eu via fotos dos prédios e achava muito bonito' (Minervino Junior/Encontro/DA Press)
A estudante de letras Yuri Misawa se encantou por Brasília quando ainda estava no Japão: "Eu via fotos dos prédios e achava muito bonito"
Desde que foi erguida, Brasília é composta por histórias de imigrantes. Pessoas que vinham de fora para trabalhar ou construir a vida na nova capital e encontravam na cidade espaço para novas experiências. Depois, como centro político do país, não foi difícil mesclar as nacionalidades conforme iam se firmando as embaixadas. Já faz um tempo, porém, que os sotaques andam se misturando para além do setor de mansões internacionais.

Com a globalização e o destaque do Brasil no exterior, a cidade se projeta cada vez mais. Hoje, Brasília é considerada um polo acadêmico, anfitriã de estrangeiros de todas as partes do mundo, que vêm assumir uma vaga na universidade da cidade, já destaque também lá fora. Além do ensino superior, os brasilienses aproveitam a relação com os estrangeiros nos últimos anos, firmada conforme mandavam seus filhos para fora, e recebem cada vez mais jovens estudantes em suas casas, tendo a oportunidade de apresentar o cenário singular que ultrapassa os prédios erguidos entorno do Congresso Nacional.

Anna Klemi, Maria Sole, Lisa Bauer e Dôra Kurucz cursam o ensino médio no Brasil: 
diferentes culturas e nacionalidades entre os brasilienses (Minervino Junior/Encontro/DA Press)
Anna Klemi, Maria Sole, Lisa Bauer e Dôra Kurucz cursam o ensino médio no Brasil: diferentes culturas e nacionalidades entre os brasilienses


Os números ainda são genéricos e não se sabe ao certo quantos intercambistas chegam ao Brasil todos os anos. A falta de dados é um reflexo do momento novo que o país vive em relação a outras grandes nações, que há anos já recebem estudantes de fora em grande escala. Dados do Itamaraty dão conta de que atualmente cerca de 1,5 milhão de estrangeiros trabalham, estudam ou apenas residem no país. Na Universidade de Brasília (UnB), só as estatísticas do primeiro semestre de 2012 já ultrapassam o número total de intercambistas estrangeiros de todo o ano passado, e os pontos do gráfico continuam aumentando. A troca de culturas é resultado de convênios com instituições de mais de 40 países e pelos quais a principal restrição quanto a números é receber o mesmo tanto de alunos que enviar.

Segundo o ex-presidente do comitê da organização não governamental e internacional AFS (American Field Service) em Brasília, uma das instituições que recebe estrangeiros na cidade, o trânsito de pessoas para dentro e fora do país é vantajoso para ambas as partes. “A recompensa que se tem com essa experiência é muito grande. Aprendemos muito da cultura deles e eles da nossa”, afirma Pedro Henrique Sousa, contando que, após o período inicial, os intercambistas se adaptam muito bem à realidade brasileira. “Depois de cerca de oito meses, o estudante já carrega muito da nossa cultura, como o gosto pelo arroz e pelo feijão, o hábito de estar sempre com amigos, acompanhado, que é algo típico dos brasileiros.”

'Saio muito para dançar forró, zouk e samba', conta o nigeriano Christian Abada, estudante 
de engenharia elétrica  (Minervino Junior/Encontro/DA Press)
"Saio muito para dançar forró, zouk e samba", conta o nigeriano Christian Abada, estudante de engenharia elétrica


Distante dos estereótipos de regiões como o Nordeste e o Rio de Janeiro, que conduzem a imagem do Brasil lá fora, o cerrado criou seus atrativos próprios. E é com características peculiares que conquista, apesar dos desafios, esses visitantes e cede espaço para novas impressões sobre o país que é mundialmente conhecido por seus passos de dança, bebida local e mulheres bonitas.

Para o estudante de engenharia elétrica Christian Abada, nigeriano, o idioma foi uma das maiores dificuldades no início. O jovem de 24 anos tinha certeza de que no Brasil as pessoas falavam espanhol e, ao vir para Brasília, acompanhando uma tia diplomata, foi pego de surpresa. “Quando cheguei aqui, dizia: ‘os brasileiros não falam. Eles cantam’”, lembra, rindo. Após seis anos na capital, ele já consegue falar português quase sem sotaque e tem um dia a dia parecido com o de qualquer brasiliense. Ele aproveita os fins de semana para exercer o hobby que desenvolveu no Brasil. “Saio muito para dançar. Forró, zouk, samba...”, conta.

A espanhola  Maria Cano preferiu a capital federal às praias do Rio para trabalhar como voluntária: 'A cidade é muito moderna' (Minervino Junior/Encontro/DA Press)
A espanhola Maria Cano preferiu a capital federal às praias do Rio para trabalhar como voluntária: "A cidade é muito moderna"


Há pouco mais de seis meses morando em Brasília, a japonesa Yuri Misawa, de 22 anos, ainda reclama das fronteiras entre o idioma local e o oriental. A estudante, que está no sétimo semestre de letras na UnB, conta que, mesmo encantada com a arquitetura e o ritmo de vida da cidade, a relação com os nativos é complicada no início. “Os brasileiros têm muito sotaque. É muito difícil entender o que falam”, queixa-se, de forma ainda pausada para se fazer entender. Avessa a festas, ela opta pela saída com os amigos, que incluem brasileiros e estrangeiros, para restaurantes da cidade e para o cinema, onde aproveita para praticar a nova língua. Apesar do desafio, Yuri afirma que não se arrepende de ter escolhido Brasília em vez de São Paulo ou Porto Alegre, cidades que também aceitavam o convênio universitário de sua faculdade. “Quando estava no Japão, eu via muitas fotos dos prédios e achava muito bonito”, lembra.

De acordo com a AFS, após a adaptação à língua, os principais problemas dos estrangeiros na cidade são os meios de transporte, a segurança e o clima seco. E, além de não ter praia, o centro do poder político do país tem ainda outras particularidades – a princípio – pouco atrativas, mas que logo se tornam vantajosas: a organização do Plano Piloto por quadras, recheadas de tesourinhas e retornos, é um grande desafio para os recém-chegados. Para o nigeriano Christian, uma das primeiras coisas que o estrangeiro deve aprender aqui é pegar carona. Para sair à noite, segundo ele, essa é a melhor opção, seguida pelo táxi, que acaba saindo caro para o padrão de vida dos estudantes. Quanto à localização, a maioria concorda que o entendimento vem com a prática. “Aqui no Plano é muito fácil de andar, é só você entender como foi construído”, conta Christian.

Diferencial no currículo: Laby Costa diz que quando voltar para São Tomé 
e Príncipe ela estará muito à frente de outros candidatos em busca de emprego (Minervino Junior/Encontro/DA Press)
Diferencial no currículo: Laby Costa diz que quando voltar para São Tomé e Príncipe ela estará muito à frente de outros candidatos em busca de emprego


Recém-formada, a espanhola de 22 anos Maria Cano escolheu Brasília como destino para ser voluntária de um projeto social em uma congregação católica internacional que tem sede na cidade. Para a jovem, o segredo é estar sempre acompanhada de brasilienses. “Fica mais fácil pegar o ônibus certo e não se perder”, diz. O intercâmbio, que aconteceu por meio de uma convocatória na faculdade onde estudava, em Madri, e permitiu que os estudantes escolhessem o país na América do Sul onde gostariam de atuar, deu a possibilidade de Maria pesquisar um pouco sobre a cultura brasileira. Mas mesmo assim, a surpresa quando chegou foi grande. “O Rio é o Brasil que todo mundo tem na cabeça: as praias, a caipirinha e o samba. Mas Brasília é diferente”, pontua. “É tudo muito moderno.”

Para os intercambistas que vêm de fora e não participam de um programa que envolva famílias brasilienses, além de toda a preocupação com os estudos, o idioma e a cultura, tem mais um quesito na lista: moradia. Quem não consegue vaga nos apartamentos cedidos pela UnB tem de correr atrás de hospedagem que ofereça fácil mobilização e preço acessível. As repúblicas são comuns nesse meio.

A africana Laby Costa, 24 anos, passou por uma delas e agora está em um pensionato, que, segundo ela, funciona muito bem. “Poder estudar aqui foi uma das melhores coisas que já me aconteceu”, resume, acrescentando que, ao voltar a São Tomé e Príncipe, estará muito à frente de outros candidatos em busca de emprego.

Apesar de a maioria dos estudantes que vem cursar o ensino médio não poder escolher a cidade onde vai morar, a opção pelo nosso país é recorrentemente justificada pelo carisma brasileiro.  “Aqui eu sabia que encontraria pessoas muito amigas. Na Europa nós temos essa ideia do Brasil. E foi exatamente assim.” O relato é apenas uma parte da impressão positiva que os anfitriões causaram na italiana Maria Sole, de 17 anos. Ela é uma das quatro estrangeiras que vieram estudar em um dos mais tradicionais colégios de Brasília no primeiro semestre. Com apenas quatro semanas na capital, Maria não escondia a animação: “Eu fui sortuda”, disse.

Para a finlandesa de 18 anos Anna Klemi, a recepção foi marcada pela empolgação com que os brasilienses a receberam. “No meu primeiro dia de aula, várias pessoas ficaram a minha volta perguntando como eu estava, de onde eu era, se eu estava gostando… Todos muito interessados”, lembra. A alemã Lisa Bauer, de 16 anos, explica, com um português já bem desenvolvido, a fascinação pelo país do carnaval. “O Brasil é como o paraíso: é longe e o tempo todo ensolarado.”

'Compreender Brasília é difícil, mas depois é uma delícia', relata Patrícia Sardá, que diz que a cidade deu cor à sua vida  (Minervino Junior/Encontro/DA Press)
"Compreender Brasília é difícil, mas depois é uma delícia", relata Patrícia Sardá, que diz que a cidade deu cor à sua vida


Ela veio e ficou

Foi após uma viagem de apenas 10 dias, a trabalho no Ceará, que a espanhola Patrícia Sardá se apaixonou pelo Brasil e não conseguiu mais se adaptar à realidade de Madri. Filha de um representante da Unesco que veio morar em Brasília, a designer gráfico e produtora de cinema, de 26 anos, viu na capital do país a alegria que faltava em sua vida cinza, como ela mesma define seu antigo ritmo na Espanha.

Atualmente, com um sotaque charmoso que quase não entrega os poucos quatro meses de residência na cidade, Patrícia já se sente à vontade para ir além dos elogios, que se arrastam desde a arquitetura até as cores que decoram o céu único de Brasília, e consegue criticar as coisas que, para ela, não funcionam. “O tio Lucio devia estar em um momento horrível de criação dele quando inventou essas tesourinhas, é uma loucura trafegar por elas”, reclama em tom de gargalhada. Ela sustenta a queixa narrando o dia em que caiu no choro, às 4h da manhã, após tentar fazer o mesmo retorno quatro vezes e não conseguir sair pelo caminho certo. Hoje, com uma brasilidade adotada de maneira natural e com orgulho, ela define, em meio a gírias locais, a adaptação ao Planalto: “Compreender Brasília é difícil, mas depois é uma delícia. É de boa.”
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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017