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Bar, já que não tem mar

Reunir os amigos após o trabalho para tomar uma cerveja gelada ou jogar conversa fora é prática recorrente do brasiliense. Cientes disso, donos de bares apostam em promoções para deixar o happy hour ainda mais atraente

Rafael Campos - Redação Publicação:01/11/2012 11:42Atualização:01/11/2012 11:00
As amigas Raquel Ferreti, Roberta Furtado e Maria Cecília: hábito de se reunir todas as tardes de sexta-feira (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
As amigas Raquel Ferreti, Roberta Furtado e Maria Cecília: hábito de se reunir todas as tardes de sexta-feira


Em noite quente de uma típica terça-feira, o tradicional bar Beirute, na Asa Norte, encontra-se como na maioria dos dias da semana: lotado. Um ecletismo de rostos, idades e diferentes estilos se torna homogêneo diante da onipresente cerveja gelada. Gente que só afrouxou a gravata, outras usando chinelo de dedo e até alguns que ainda deveriam estar no trabalho aproveitam o fim do dia para beber aqueles copinhos que vão celebrar ou fazer esquecer o esforço do horário comercial. Numa mesa de canto, o garçom Cícero Rodrigues, um patrimônio boêmio de Brasília – “Tenho 35 anos só de Beirute” –, brinca com três amigas e o riso corre solto.

A liberdade tem sentido. Elas são habitués do local, daquelas que não precisam se esforçar para conseguir uma nova garrafa. “Para que a gente se encontre, basta que todas tenham disponibilidade. E isso acontece várias vezes”, conta a bióloga Patrícia Kwiatkowski. Junto dela, a tradutora Raíssa Santana explica o que torna um bar querido para seus frequentadores: cerveja gelada é essencial e nem deve figurar como item decisivo. “É preciso algo mais. Em Brasília, há essa história de as pessoas serem mais frias. Mas em bares assim, há sempre um pessoal mais amistoso, aberto a conhecer novas pessoas”, garante. Sem falar no quanto elas já se sentem confortáveis ao elegerem o ponto preferido de encontro. “Hoje já somos até amigas dos garçons. Isso torna a noite ainda melhor”, completa a dentista Daniele Coutinho.

Karine Santos e Whildaker Campos: 'Cada vez vejo mais lugares diferentes para conhecer. 
Não saímos com tanta frequência, mas a gente curte um happy hour' (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Karine Santos e Whildaker Campos: "Cada vez vejo mais lugares diferentes para conhecer. Não saímos com tanta frequência, mas a gente curte um happy hour"


Em uma cidade tão planejada como Brasília, o happy hour assume tons diferentes. Mesmo que o acaso do programa se mantenha – serve aquele amigo que só quer bater papo ou uma promoção que merece ser comemorada já depois das 18h –, a estrutura que separa quadras comerciais e residenciais tende a fazer com que haja uma maior organização na escolha do lugar. Com isso, os fregueses criam vínculos, exigem das casas mais esforços de conquista do que simplesmente um freezer potente.

Um dos motes fortes para marcar a tal cervejinha é a vista para o Lago Paranoá. Os bares e restaurantes que ficam no Pontão do Lago Sul têm na paisagem um dos principais trunfos para os apreciadores da “hora feliz”. Mesmo que os preços possam se tornar menos convidativos, a ambientação dos estabelecimentos acompanha a beleza natural e deixa os valores menos pesados. “O Pontão é um lugar diferente para o happy hour, considerando o Brasil inteiro. É muito raro encontrar um ambiente com essas condições para aproveitar esse momento do dia”, afirma o empresário Eduardo de Castro Borges, da cervejaria Devassa. Ele diz que, às sextas-feiras, antes das 19h, todas as mesas do bar ficam ocupadas. “Em média, atendemos 7 mil pessoas por semana. Já tivemos picos de venda de 40 mil litros de cerveja em sete dias”, ostenta.

Se é para ser happy, o tempo no bar depois do trabalho deve ser livre: o grande charme 
é ficar horas tomando aquela cervejinha, sem compromisso (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Se é para ser happy, o tempo no bar depois do trabalho deve ser livre: o grande charme é ficar horas tomando aquela cervejinha, sem compromisso


Em uma cidade que deseja praia, ficar próximo do lago faz muita diferença, crê Eduardo. Ele vê outros pontos que devem fazer parte do pacote para quem espera ser respeitado no mercado. “Também considero importante o local onde vai dar para estacionar o carro. Se você vai ficar preocupado com a possibilidade de o veículo ser roubado ou mesmo riscado, tira a tranquilidade. E ao invés de happy, terá uma stress hour.” Para o empresário, o brasiliense, em especial, vem apurando seu gosto, procurando, cada vez mais, produtos e serviços de qualidade. Isso se reflete na cerveja que ele bebe. São cada vez mais bares que se preocupam em oferecer marcas além das tradicionais. “Uma das que vendemos, por exemplo, foi premiada como a terceira melhor do mundo em uma competição na Austrália. O casamento deu certo: um público que espera por melhores produtos e uma cerveja premium que atende a essa expectativa”, afirma.

O empresário Eduardo Borges, da cervejaria Devassa, atende em média 7 mil pessoas por semana: 'Já tivemos picos de venda de 40 mil litros de cerveja em sete dias' (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
O empresário Eduardo Borges, da cervejaria Devassa, atende em média 7 mil pessoas por semana: "Já tivemos picos de venda de 40 mil litros de cerveja em sete dias"


O sommelier de cervejas Daniel Wolff, editor do site Mestre Cervejeiro, explica que o prazer de um happy hour é totalmente dependente do humor com que a pessoa chega ao bar. Isso também define se ela vai gastar mais um pouco, experimentando marcas diferentes, ou se satisfará com os sabores mais conhecidos. “Existem cervejas e estilos de cerveja. As especiais são totalmente diferentes no sabor e no perfil do público que as consome. O bebedor habitual pode encontrar mais prazer se souber escolher melhor o que bebe, mas quem decide isso é ele.”

Se é para ser happy, o tempo no bar depois do trabalho deve ser livre – essa é a concepção que o chef Dudu Camargo acredita encaixar-se naquele ínterim entre o fim do expediente e o sono reconfortante. “Há momentos em que você está a fim de uma gelada e, em outros, algo diferente. Aqui temos cervejas e drinks. A escolha vai depender do estado de espírito da pessoa quando sai do trabalho.” Dudu entendeu a dinâmica diferente do happy hour depois de uma viagem à Itália. Andando pelos bares, viu que muitos ofereciam um bufê de antepastos gratuito entre 17h e 19h. O cliente gastava com a bebida e tinha alimento à vontade para beliscar.

O garçom Cícero Rodrigues, patrimônio boêmio de Brasília, com três amigas frequentadoras do Beirute: algo mais que cerveja gelada
 (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
O garçom Cícero Rodrigues, patrimônio boêmio de Brasília, com três amigas frequentadoras do Beirute: algo mais que cerveja gelada


“Resolvi testar aqui, mas não deu certo. Lá, há o costume de andar a pé e mesmo quem tem carro consegue achar facilmente um grande número de bares ao redor de casa. Aqui, é preciso ir direto ao local que se quer.” Ou seja, não é comum passar, olhar e resolver parar. Por isso, ele se preocupa em fazer do happy hour uma celebração sem amarras. Assim, mesmo que o acaso não acompanhe a clientela, ela vai se sentir menos direcionada. “Um jantar é um compromisso. Almoço também. A chave do happy hour é conseguir comemorar tudo que passou de bom e de ruim no seu dia de trabalho. O grande charme é ficar algumas horas falando sem compromisso”, conceitua.

E, claro, celebrar a amizade. A arquiteta Roberta Furtado é de São Paulo, uma das mecas botequeiras do país, mas não tinha o costume de visitá-los, fosse o da moda ou o menos conhecido. Em Brasília, criou o hábito de se reunir todas as sextas-feiras com as amigas, seja só para uma cervejinha ou como um esquenta para o fim de semana. “A cidade me fez criar esse costume, mais pela turma com que fiz amizade. São Paulo tem muitos barzinhos, mas aqui me sinto mais à vontade”, frisa. Sua amiga, Maria Cecília Bernardo, diz que, muitas vezes, beber no começo da noite é o que dá animação para esticar. “Brasília tem muitas opções, principalmente no Pontão. E gostamos também dos petiscos, nunca sentamos só para beber”, diz.

Dudu Camargo, que tem um bar com seu nome, acredita que happy hour é para comemorar tudo que passou de bom e de ruim no seu dia de trabalho (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Dudu Camargo, que tem um bar com seu nome, acredita que happy hour é para comemorar tudo que passou de bom e de ruim no seu dia de trabalho


Até quem não tem o hábito de curtir o happy já agradece o crescente número de bares na cidade. Tanto que há quem mude os planos. “Tínhamos combinado um cinema, só para matar as saudades, mas acabamos aqui”, conta, rindo, a servidora pública Karine Santos. Ela e o amigo, o arquiteto Whildaker Campos, dizem não serem assíduos, mas gostam de ver que as alternativas se espalham pelas quadras. “Cada vez vejo lugares diferentes para conhecer. Não saímos com tanta frequência, mas a gente curte um happy hour.”

E a expectativa do mercado só cresce. No ramo há três anos, o empresário Marco Túlio Costa, do Frederic Chopin, diz que o hábito de curtir bares na capital é uma tradição nova. “A diversidade de bares começou a surgir de uns cinco anos para cá, principalmente por conta da influência de quem viaja muito e conhece o que é oferecido lá fora”, acredita. Agora, não é preciso muito esforço para encontrar algo novo. Seu bar é lotado durante os jogos de futebol mas, ao invés de apenas homens urrando contra os adversários, ele afirma ser cada vez mais comum a presença feminina, torcendo junto.

Marco Túlio Costa, do Frederic Chopin: é cada vez mais comum a presença de mulheres em seu bar, inclusive torcendo junto nos dias de futebol (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Marco Túlio Costa, do Frederic Chopin: é cada vez mais comum a presença de mulheres em seu bar, inclusive torcendo junto nos dias de futebol


Elas também são o foco de Eduardo de Castro Borges, da Devassa. “O público alvo de várias das nossas cervejas é a mulher acima de 25 anos de idade, que quer vir a um lugar tranquilo, que venda produtos de qualidade, seja descolado e, se forem tomar uma cantada, que ela não seja barata e ofensiva.” Seja pela cerveja, pela paquera ou porque o chefe pisou no seu calo, não importa: não há desculpa para pular o happy hour em Brasília.

Programe sua hora mais feliz


Beirute
107 Norte, bloco D, loja 19.

(61) 3272-0123
Por que ir? Ninguém conhece a vida noturna brasiliense de verdade sem passar pelo Beirute, o boteco mais famoso da cidade.

Boteco

406 Sul, bloco D, loja 35.

(61) 3443-4344
Por que ir? O nome já entrega o clima do local. Além disso, o selo de qualidade nordestino da casa está presente em petiscos que combinam muito bem com cerveja.

Devassa
SHIS QL 10 - Pontão do Lago Sul.
(61) 3365-1690/ 3365-1692/ 3365-1686
Por que ir? A cerveja, que já ganhou até prêmios mundiais, fica ainda melhor de ser saboreada no local, com uma vista privilegiada para o Lago Paranoá.

Dudu Camargo
303 Sul, bloco A, loja 3.

(61) 3323-8082
Por que ir? O ambiente, repleto de referências à cultura pop, integra-se à cerveja gelada, aos drinks e os pratos preparados pelo chef da casa.

Frederic Chopin
406 Sul, bloco A, loja 3.

(61) 3244-2055
Por que ir? A união entre futebol e clima de paquera lotam o bar, principalmente nos dias de Campeonato Brasileiro. Dá para torcer e conseguir algo mais.

Miau que mia
08 Sul, bloco A, loja 5.
(61) 3443-5743 / 3244-7747
Por que ir? O happy hour tem preço fixo: de terça a quinta, R$ 19,90. De sexta a domingo, R$ 24,90. Das 17h30 às 21h, o chope e quatro sabores de caipiroska são liberados.

Outback Steakhouse
Park Shopping e Iguatemi Brasília.
(61) 3234-7958 e 3468-3655
Por que ir? Além da boa comida, todos os dias há a Billabong Hour, quando todas as bebidas são dobradas das 18h às 20h. Pagou uma, leva a outra grátis.

Pôr do Sol
408 Norte, bloco C, loja 16.
(61) 8471-4146
Por que ir? O reduto dos estudantes da Universidade de Brasília tem como maior chamariz os jovens que não querem saber de a noite acabar.

Simpsons
307 Sul, bloco D, loja 35.

(61) 3443-4251
Por que ir? A dica é para os que querem economizar: no Simpsons, o litrão de Skol é vendido, diariamente, a R$ 4,49. E não é promoção!

Spicy
209 Norte, bloco A, loja 43.
(61) 9993-6394
Por que ir? Junto à Heineken bem gelada, o bar é famoso pelas coxinhas de frango embebidas num molho picante que dão ainda mais sede aos bebedores.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017