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Dez perguntas para »

Rato de cinema

Uma década depois de sua estreia, o cineasta brasiliense tem na manga dois longas-metragens e quer se firmar como um criador autoral

Sérgio Maggio - Redação Publicação:01/11/2012 12:17Atualização:01/11/2012 12:27
Para Gustavo, a cidade é uma eterna inspiração: 'Brasília está em mim, jamais poderei escapar disso!' (Cristiane Oliveira / Divulgação)
Para Gustavo, a cidade é uma eterna inspiração: "Brasília está em mim, jamais poderei escapar disso!"
Na lembrança de menino, o cineasta brasiliense Gustavo Galvão guarda o dia em que ficou diante da tela imensa do cinema. O filme? Podia ser de Os Trapalhões... Talvez, as aventuras de King Kong ou de Indiana Jones. Não importa. O que vem forte da memória é a monumentalidade da imagem, nunca vista antes pelo garoto nascido na capital em 1976.

“Talvez por isso telas de computador e de celular não me seduzem. Gosto de sentir o cinema penetrando pelos meus poros, seja pela experiência visual, seja pela experiência sonora. Sou um rato de cinema”, conta o diretor, que depois de uma década dedicada aos curtas tem dois longas-metragens prontos para instigar a plateia em telas enormes. Um deles, Nove Crônicas para um Coração aos Berros, foi exibido na Mostra Internacional de São Paulo.

1 | ENCONTRO – Quando você sentiu que o cinema não era mais uma paixão de espectador e, sim, um campo de criação e linguagem?
GUSTAVO GALVÃO –
Lembro que, em 1994, com 18 anos, estudando para o vestibular, pensava em fazer um filme. Tinha umas cenas na cabeça e elas acabaram me inspirando a escrever o roteiro de Uma dose violenta de qualquer coisa – meu segundo longa-metragem, atualmente em finalização, que só fui colocar no papel em 2007. É difícil um garoto de 18 anos ter certeza do que fará do restante de sua vida, por isso desviei o caminho e tentei algo mais viável. Veio a faculdade de jornalismo, depois o emprego como jornalista... Foi em 1999, acho, que pensei: ‘Espera, eu quero cinema!’ Talvez o estalo tenha sido dado por A estrada perdida (David Lynch), que vi na Cultura Inglesa. Aquele filme me deixou tão inspirado, tão apaixonado, que escrevi naquele mesmo período o roteiro do meu primeiro curta-metragem: Emma na tempestade.

2 | ENCONTRO – Ser cineasta no Brasil é um caminho profissional possível ou uma loucura de artista?
GUSTAVO GALVÃO –
Ser cineasta no Brasil tem tudo para ser loucura, mas alguns fizeram dessa doideira um caminho possível. O sucesso de alguns poucos não deveria nos iludir de que as coisas estão melhorando. Falta muito para que o brasileiro compreenda a expressão artística como algo fundamental.

3 | ENCONTRO – Você trocou o jornalismo pelo cinema. Como a experiência de crítico e repórter o ajuda na atual função?
GUSTAVO GALVÃO –
A experiência no jornalismo cultural como um todo, não só na cobertura de cinema, foi importante para o meu amadurecimento como pessoa. Me apresentou os caminhos na arte e na vida, que eu desconhecia, e me deu fundamentos para conhecer melhor o que admirava. Mas não foi decisivo para minha formação técnica. Isso eu devo aos curtas que dirigi (muitas vezes, na raça), aos amigos e profissionais que encontrei e a uma especialização em cinema, de um ano, em Madri (entre 2002 e 2003).

4 | ENCONTRO – Você é um cineasta que adora atores. O que um bom intérprete precisa ter para entrar num filme seu?
GUSTAVO GALVÃO –
Em primeiro lugar, existe o papel. E existe a admiração que eu, como cinéfilo, tenho por alguns profissionais. Escrevi um curta, A vida ao lado, pensando em Leonardo Medeiros, que me impressionara em Lavoura arcaica e Cabra cega. A admiração por Lavoura arcaica, por sinal, me conduziu naturalmente a Simone Spoladore, que está no meu primeiro longa, Nove crônicas para um coração aos berros. Além do papel e da admiração, também valorizo muito a intuição (a minha e a do ator) e o contato pessoal. Foi assim que escolhi talvez 80% dos atores do Nove crônicas: pensava nos nomes ou me falavam nomes; procurava o ator e marcava a conversa. Ali, deixava transparecer meu amor pelo cinema e esperava ver isso na pessoa. Quando via esse amor no ator, via que uma boa relação poderia acontecer.

5 | ENCONTRO – Em que sentido Brasília está muito presente nos seus filmes?
GUSTAVO GALVÃO –
Brasília está em mim, jamais poderei escapar disso! A cidade me ensinou arquitetura e política, revelou-se como obra de arte e como cenário de injustiças. Ela me ensinou a notar algo que inspirou quase todos os meus trabalhos, desde o primeiro curta até os longas: o homem se relaciona com o espaço urbano e é transformado por ele. E a vivência de Brasília explica meu fascínio por personagens em crise com sua realidade urbana e que estão sempre em movimento – em carros, ônibus ou a pé.

6 | ENCONTRO – Foi muito difícil passar dos curtas para os longas?
GUSTAVO GALVÃO –
Muito, depois de uma década fazendo curtas, achar espaço o mercado de longas – é extremamente competitivo e exigente. Tem muita gente boa querendo a mesma coisa, espaço. E depois, mais espaço. E mais... Faz parte.

7 | ENCONTRO – Você está com dois longas-metragens em produção. Sonha que um deles aconteça no Festival de Brasília?
GUSTAVO GALVÃO –
Não sonho mais com o Festival de Brasília. Acho que o evento, assim como a grande maioria dos festivais no Brasil, está derrapando e não sabe ainda o que quer e como sobreviver aos novos tempos. Até tentei lançar o Nove crônicas para um coração aos berros aqui, mas ele não foi selecionado. Este ano, Brasília teve um salto de produção histórico, mais de 15 longas finalizados, mas a forma como o festival foi pensado deu as costas para isso. Pena. Mas o filme foi selecionado para a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o que me deixou muito feliz pela importância que esse festival tem na formação da cultura cinematográfica no Brasil. O próximo, Uma dose violenta de qualquer coisa, enviarei para Brasília em 2013. Insisto com o festival porque sou cria dele, fui um daqueles caras que sentam no chão do Cine Brasília e ficam se espremendo entre as pessoas para ver qualquer coisa que passe na telona. Vi muita coisa boa no festival. Quem sabe ele volta a encontrar seu caminho.

8 | ENCONTRO – O que você guarda afetivamente de Brasília?
GUSTAVO GALVÃO –
Lembro-me dos descampados imensos das superquadras, que viravam campinhos de futebol improvisados. E me lembro do vazio da Brasília dos anos 1980, achava aquele vazio instigante. Um dia, já adolescente, resolvi desafiar aquele vazio e decidi andar o Plano Piloto de ponta a ponta. Desisti na metade.

9 | ENCONTRO – Qual é a Brasília que você sonha filmar?
GUSTAVO GALVÃO –
Tinha o sonho de filmar os arredores de Brasília, que realizei no Uma dose violenta de qualquer coisa. Tinha o sonho de rodar na 308 Sul e realizei o sonho num curta de 2006, A vida ao lado. O que sobrou? Talvez a Rodoviária do Plano Piloto: é um lugar riquíssimo e que frequentei por anos, quando não tinha carro. É uma outra Brasília, que poucos brasilienses conhecem.

10 | ENCONTRO – Existe um cinema de Gustavo Galvão. Como você define sua linguagem?
GUSTAVO GALVÃO –
Não gosto de definir o que faço, cada filme é uma aventura diferente que me leva a novos caminhos. No começo, tentava entender o que me fascinava no cinema e me lançava na experimentação. Num certo período, decidi fazer filmes sem diálogo, que me estimulassem a me expressar com outros códigos. Hoje, embora traga um pouco do que aprendi dessa época, estou bem mais interessado no humano e em tudo que ele tem de banal. Certo mesmo é que decidi assumir a influência que Brasília tem em mim e vou me aprofundar em histórias sobre personagens em movimento e/ou em choque com sua realidade urbana.

Retrato

Influências:
David Lynch, Antonioni, Godard, Kar-wai, Tsai Ming-liang, Apichatpong Weerasethakul, Roy Andersson e Jim Jarmusch

Estreia no set:
Em 2002, com o thriller psicológico Emma na tempestade

Na bagagem: Sete curtas de ficção – entre eles, o premiado A vida ao lado, exibido em 25 festivais no Brasil e no exterior. Dois longas – Nove crônicas para um coração aos berros e Uma dose violenta de qualquer coisa

Na rede: www.gustavogalvao.com
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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017