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Será uma viagem?

Por que um grupo de jovens brasilienses quer comprar uma carcaça de avião para transformar na sede de uma empresa que pretende restaurar "o espírito criativo da cidade". O movimento ganhou o nome de Projeto 767

Ariadne Sakkis - Redação Publicação:01/11/2012 12:27Atualização:01/11/2012 11:49
A imagem de um dos boeings que pode ser leiloado para o Projeto 767 revela: o sonho não é menor que o espaço físico do avião (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
A imagem de um dos boeings que pode ser leiloado para o Projeto 767 revela: o sonho não é menor que o espaço físico do avião
De tempos em tempos, alguém aparece com uma ideia que parece impossível. Imponderável, diriam alguns. Grandes são as chances, então, de a ideia ser engavetada pela opressão do não. “Não é viável.” “Não é assim que se faz.” “Não é real.” A criatividade e a inovação, sufocadas pelo ceticismo. Brasília que o diga. Poucos deram crédito a Juscelino Kubitschek quando ele anunciou a construção da nova capital. No fim, JK venceu.

Passados 52 anos, a cidade já não tem o apelo de desbravamento de antigamente. Tornou-se a meca dos candidatos à estabilidade, ao emprego público. Contra essa regra, um grupo de brasilienses desenhou um ambicioso e ousado projeto para acordar o empreendedorismo e a criatividade na capital federal. Para isso, eles precisam de um avião. Não serve qualquer um. Precisa ser um dos três Boeing 767 da extinta e falida companhia aérea Transbrasil, aqueles estacionados há 10 anos no Aeroporto Internacional de Brasília. Os integrantes do Projeto 767, como o movimento acabou batizado, querem arrematar o avião em leilão e transformar a sucata em uma usina de criação baseada no trabalho colaborativo. O plano de voo já está pronto.

Faz mais ou menos um ano que André Soares, um advogado não praticante, levantou a ideia de criar em Brasília um polo de fomento ao co-working, modelo pelo qual profissionais desenvolvem projetos e iniciam negócios inovadores explorando a potencialidade de cada um. Tudo à base da colaboração. “Percebemos o incômodo das pessoas com o fato de Brasília ser conhecida como árida aos inovadores”, diz.



A colaboração já faz parte da vida dele há algum tempo. É a alma da Ajuri (“mutirão”, em tupi-guarani), empresa de treinamento em inovação e mídias sociais tocada por André, com os sócios Renan Carvalho, cientista da computação, e Rafael Dutra da Silva, psicólogo. Eles sondaram algumas possibilidades para criar o espaço, pensaram até em erguê-lo em um contêiner. Até o dia em que André viu a notícia de que o Conselho Nacional de Justiça leiloaria as aeronaves sob custódia judicial por meio do Programa Espaço Livre. Além de desobstruir o terreno dos aeroportos no Brasil, é um dos meios encontrados para levantar recursos para pagar parte da dívida trabalhista das empresas aéreas que quebraram.

Mesmo depois de descobrir que o lance inicial de R$ 17 mil que tanto lhe chamou a atenção se referia a um modelo de pequeno porte e que o 767 custaria mais caro (em 2008, o mais depenado deles valia R$ 100 mil, mas foi retirado do leilão), André foi arrebatado pelo ideal. “Tem tudo a ver com Brasília e um enorme poder de imagem. Além do espaço grande”, explica.

Nem todo mundo partilhava o pensamento. Pelo contrário. “As pessoas riam. Achavam legal, mas depois davam aquele tapinha nas costas”, conta André. O empresário venceu pelo cansaço até os parceiros de negócio e amigos próximos. “Nós chegamos a estabelecer que só ia falar sobre avião durante meia hora por dia”, diz Rafael. Era março de 2011. “Ri muito da cara do André. Depois comecei a pensar como seria. De repente eu era um dos caras que estava junto, procurando as respostas para essa pergunta”, conta o cientista político Gustavo Amora. Concursado pela Câmara dos Deputados, a meta dele é em breve abrir mão das benesses públicas para ganhar a vida com inovação e tecnologia.



Foram muitos tapinhas de descrédito, de mãos amigas e desconhecidas, até conseguir viabilizar um projeto sério, pronto para ser exibido para investidores e patrocinadores, efetivamente os financiadores da compra da carcaça do Boeing. Cada um fez um pouco. A aptidão de publicitários, designers, arquitetos, engenheiros e (um) cientista político resultou em um plano de voo de um espaço destinado ao incentivo à economia criativa e colaborativa.

O projeto é inovador em vários aspectos. Hoje, agências de publicidade e promoção, além de alguns investidores, dão suporte à instalação de um local de estruturação de empresas startup, ou seja, que tentam viabilizar novos modelos de negócios. As empresas embrionárias dividiram os 160 m² de área interna do avião. Pelo croqui, a carcaça seria dividida em dois andares. Além disso, na área externa haveria locais para exposições, áreas comunitárias e restaurante. “A Brasília do meu avô era inovadora, dava orgulho. Hoje, Brasília só é vista como governo e política. Queremos restaurar o espírito de criação da cidade”, diz Renan, um dos homens faz-tudo do projeto.

Somando entusiastas, devidamente conhecidos como tripulantes, o Projeto 767 conta com a ajuda de mais de 40 pessoas. As apresentações no Campus Party de 2011 e no Ossobuco, circuito de minipalestras de compartilhamento de experiências, em fevereiro deste ano, ajudaram a alistar mais gente a bordo. Mais visibilidade veio após o grupo construir um avião e lançá-lo no Lago Paranoá durante o Red Bull Flugtag, em agosto. A página do grupo no Facebook tem mais de 1,8 mil seguidores.

Parte da equipe que tripula o plano de comprar uma aeronave para abrigar trabalhos colaborativos: eles se incomodaram com o fato de Brasília ser considerada árida aos inovadores (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Parte da equipe que tripula o plano de comprar uma aeronave para abrigar trabalhos colaborativos: eles se incomodaram com o fato de Brasília ser considerada árida aos inovadores


Por enquanto, os tripulantes estão na primeira das três fases previstas do projeto. Ela deve se estender até o dia do leilão, que ainda não tem data marcada. Se a vida seguir o plano e o arremate for certeiro, o segundo passo é fazer do transporte da carcaça um grande evento. O frete, por enquanto, está mais caro que a aeronave. “Já pediram até R$ 300 mil. Estamos tentando uma parceria com o Exército”, conta Rafael.

A aeronave deve então cruzar Brasília até ser estacionada. O terreno que a receberá não está definido, mas o grupo negocia com o governo uma parceria para que o gigante faça parte do Parque Tecnológico Cidade Digital, perto da antiga Rodoferroviária. A ideia é convocar a comunidade para participar da reciclagem da sucata, promover palestras e debates sobre inovação e empreendedorismo. A última etapa é o lançamento do espaço.

Caso tudo dê certo, a tripulação quer que o patrimônio construído pertença a uma associação sem fins lucrativos que arrende o espaço para entidades de financiamento da economia criativa. Ali funcionaria então uma aceleradora, ou seja, um local onde empreendedores e investidores experientes podem guiar profissionais com ideias promissoras a alavancar seus negócios.

Independentemente do que acontecer, se conseguirem comprar o avião ou não, os tripulantes dizem que o que vale é o processo. “O projeto em si já é a colaboração em funcionamento. Daqui surgiram milhões de outros projetos porque pessoas que nunca se viram antes se uniram e começaram a trocar ideias, a trabalhar juntas. Só isso já vale”, garante a publicitária Heloísa Machado. André Souza completa: “Somos recém-formados, sem um tostão para dar de entrada no avião, mas nos unimos em torno de uma causa e investimos nossa capacidade de trabalho e criação para que esse projeto se tornasse possível. Queremos passar a mensagem de que se você tem uma ideia, por mais maluca que ela seja, se essa ideia vale a pena, o que você precisa é encontrar outras pessoas que estejam dispostas a colaborar com esse propósito”. Depois do leilão, talvez o sonho de todos eles escape do sono para a realidade. Tudo depende de um lance.
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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017