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Artes visuais »

Você vai ouvir falar deles

Artistas consagrados em Brasília avaliam o atual panorama da cidade e apontam quem faz parte da nova turma de talentos que tem se destacado fazendo, literalmente, arte

Jéssica Germano - Redação Publicação:01/11/2012 12:50Atualização:01/11/2012 12:23
Da esq. para a dir., Márcio, Camila e Lucas (atrás), Fernando e Virgílio: nomes que se projetam diante dos olhos dos artistas veteranos (Minervino Junior/Encontro/DA Press)
Da esq. para a dir., Márcio, Camila e Lucas (atrás), Fernando e Virgílio: nomes que se projetam diante dos olhos dos artistas veteranos

Certos nomes causam impacto não só pela experiência que carregam, mas pela proporção que seus trabalhos alcançam em nível de excelência. Francisco Galeno, Bia Medeiros, Elder Rocha e Glênio Bianchetti são alguns dos que preenchem o catálogo e vasto histórico artístico de produções em Brasília.

Referências em suas áreas de atuação, que incluem desde pintura e escultura até instalações e performances, esses personagens encontraram dificuldade em limitar dentro de um campo – que, segundo eles, tem crescido cada vez mais – quem são os destaques da geração mais nova que já está ativa no cenário das artes visuais. O destaque fica por conta do que torna cada obra uma promessa para o futuro legado da cidade.

Aos 84 anos, o pintor, gravador e ilustrador Glênio Bianchetti diz que Brasília está 'carente de novas ideias' (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Aos 84 anos, o pintor, gravador e ilustrador Glênio Bianchetti diz que Brasília está "carente de novas ideias"


As raízes que eles firmaram em solo brasiliense e a herança que deixaram, e ainda refletem, não são frutos isolados da inspiração que o sonho de Juscelino Kubitschek projetou no Planalto. Os artistas veteranos, grandes responsáveis pela construção da história brasiliense nas artes visuais, não nasceram na cidade e parte de seus relatos biográficos se divide com regiões que vão do Norte ao Sul do Brasil, com passagens, inclusive, por outros continentes. Passados mais de 50 anos de sua criação, a capital vê só agora os filhos que o início do Instituto de Artes (IdA) da Universidade de Brasília (UnB) começou a semear. Finalmente o panorama artístico pode chamar sua cria para si, reconhecendo nas obras, inclusive, características resultantes das linhas que cortam os quadrados espalhados pelas asas do avião traçado no cerrado.

Para a crítica e curadora Marília Panitz, há um viés nos trabalhos concebidos em Brasília que determina um perfil comum nas produções locais. “É uma cara que tem a ver com as relações espaçotemporais das obras. Há um comentário sobre a arquitetura muito forte”, pontua. Para ela, que é professora aposentada da UnB, esse traço reflete a estrutura da cidade. “Há muitos espaços vazios, um horizonte enorme. Os artistas daqui trabalham de frente para um horizonte que é uma linha reta”, descreve.

Bia Medeiros elogia Fernando Aquino: 'Ele é um poeta, além de desenhista'. Sobre Camila, ela diz que as obras são 'divertidíssimas' (Minervino Junior/Encontro/DA Press)
Bia Medeiros elogia Fernando Aquino: "Ele é um poeta, além de desenhista". Sobre Camila, ela diz que as obras são "divertidíssimas"


A gaúcha, que há mais de 40 anos acompanha o movimento das artes na cidade, comenta ainda que há muitos nomes novos no cenário artístico brasiliense, mas aponta um ponto fraco na estrutura artística brasiliense. “Há talento, os artistas estão produzindo coisas interessantes, mas as obras estão circulando pouco”, lamenta. Para ela, ainda faltam galerias ativas no mercado e que participem da comercialização da arte, para assim impulsionar essas produções. Entretanto, o avanço em relação a outros tempos já é nítido: “É muito interessante que esse pessoal mais novo esteja circulando muito mais do que as gerações anteriores”.

Encontro convidou artistas que são referência na cidade para listar alguns que são promessas em suas áreas. As linguagens utilizadas para a expressão de cada um varia. As idades também, mas a faixa não se alonga muito: dos 26 aos 33 anos. Com a exceção de um, que nasceu na cidade de Araújos, Minas Gerais, mas veio pequeno para Brasília, todos carregam a habitualidade ao clima seco e ao espetáculo do céu do Distrito Federal desde o nascimento. Virgílio, Fernando, Camila, Márcio, Lucas e Polyanna são os nomes que se projetam diante dos olhos dos veteranos. Cada um ao seu estilo, os trabalhos são a aposta para o  que foge do padrão e se concretiza no território que se propôs a explorar.

O pintor Elder Rocha é enfático: 'Estão existindo muitas formas de fomento às artes visuais, e isso só pode resultar em maior qualidade da produção' (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
O pintor Elder Rocha é enfático: "Estão existindo muitas formas de fomento às artes visuais, e isso só pode resultar em maior qualidade da produção"


No desenho, os destaques são Fernando Aquino, de 27 anos (mineiro), Virgílio Neto, de 26, e Lucas Gehre, de 31. Para o pintor, gravador e ilustrador Glênio Bianchetti, em um momento em que Brasília está “carente de novas ideias”, a obra dos artistas Fernando e Virgílio, ambos formados pela UnB, distancia-se do habitual. “O trabalho deles e a cabeça, com o conhecimento intelectual que têm, são o que os distingue”, declara, acrescentando que foi a visão dos dois que os colocou em um lugar mais alto: “É um pessoal moço que está pensando no futuro”.

O pintor goiano Elder Rocha completa a teoria afirmando que os desenhos de Virgílio, além de serem “violentos e melancólicos”, constituem-se de dois elementos importantes. “O trabalho dele busca a influência de histórias em quadrinhos, mas é, ao mesmo tempo, um desenho muito específico, pessoal e bastante denso psicologicamente”, aprofunda.

Segundo Francisco Galeno, pintor e escultor, é fácil desenhar: 'O difícil é conseguir sair do limite do 'desenhar bem'' (Zuleika de Souza / CB / D.A Press)
Segundo Francisco Galeno, pintor e escultor, é fácil desenhar: "O difícil é conseguir sair do limite do 'desenhar bem'"


Para a professora de pós-graduação da UnB Bia Medeiros, a qualidade do resultado dos trabalhos de Fernando Aquino, que foi um de seus alunos e faz parte de um grupo artístico formado na universidade e coordenado por ela, está relacionada à versatilidade do artista. “Ele é um poeta além de desenhista”, comenta. “Trabalha com a palavra inserida e com o viés da ironia”, acrescenta, completando com um elogio, sem cerimônias: “São lindos os trabalhos”.

Filho de outro artista plástico veterano de destaque, que também escolheu Brasília como inspiração e cidade acolhedora de seus trabalhos, Ralf Gehre, Lucas ganhou reconhecimento pelos traços que retrata. Segundo Francisco Galeno, pintor e escultor piauiense, é fácil desenhar. O difícil é conseguir sair do limite do que chama de “desenhar bem”. Para o artista, que ganhou visibilidade pelas obras realizadas em seu ateliê em Brazlândia, é preciso mais: “Você deve ter criatividade, imaginação, ser espontâneo”. Em sua opinião, é esse diferencial que Lucas Gehre consegue ter. “Ele não perde o fio da meada. São belos desenhos contemporâneos”, avalia.

Reconhecimento: as instalações de Polyanna Morgana são consideradas coerentes e consistentes (Minervino Junior/Encontro/DA Press)
Reconhecimento: as instalações de Polyanna Morgana são consideradas coerentes e consistentes


Na pintura, é o nome de Camila Soato, de 27 anos, que salta aos olhos. Utilizando diversas materialidades nas pinceladas, como também algumas imagens de internet para a base de seus trabalhos, a jovem artista mostra algo novo, segundo as impressões de Bia Medeiros. “Ela tem uma coisa que é totalmente dela. Algo novo. Algo a mais”. Segundo a professora, o trabalho de Camila tem um toque de ironia com a vida contemporânea, ao mesmo tempo que traz a arte para mais perto do público. “São obras divertidíssimas.”

Indo no caminho ainda da ironia e do humor, situa-se o nome de Márcio H. Mota, de 28 anos. Atuante no audiovisual com trabalhos que envolvem videoarte, direção de vídeo e cinema, ele compõe a lista de nomes que, segundo Bia, são realmente “os pontas” dessa geração. Sobre o trabalho de Márcio, ela diz: “Ele tem o lado gostoso do erótico, mas com uma veia mais escrachada”.

Para Glênio Bianchetti, falta uma vontade progressiva nos artistas jovens da cidade, algo que, em sua opinião, pode ser visto no trabalho de Márcio.
A outra figura feminina que ilustra o quadro de promessas é a artista Polyanna Morgana, de 32 anos. Realizadora de instalações que na maioria das vezes se relacionam com o próprio corpo e indagam sobre sua existência no mundo atual, a jovem apresenta um trabalho consistente na cena brasiliense. A afirmativa é de Elder Rocha. “É uma obra muito coerente ao longo dos seus seis, sete anos de atuação”, afirma. Para o goiano, são esses dois pontos que chamam, especialmente, a atenção para a obra de Polyanna: a coerência e a consistência. “Elas variam muito de forma, mas tratam da mesma questão de maneira bem profunda”, opina. Para o pintor, a equação responsável por essa onda de bons talentos na cidade é fácil e deve continuar sendo impulsionada: “Estão existindo muitas formas de fomento às artes visuais, e isso só pode resultar, necessariamente, em maior qualidade da produção”.

Obra: Sem título |
Autor: Virgílio Neto
Obra: Sem título | Autor: Virgílio Neto


 (Obra: Robô Laranja |
Autor: Lucas Gehre)


Obra: Edifício Morada Provisória |
Autor: Polyanna Morgana
Obra: Edifício Morada Provisória | Autor: Polyanna Morgana


Obra: Máquina 007 |
Autor: Fernando Aquino
Obra: Máquina 007 | Autor: Fernando Aquino


Obra: Z |Autor: Márcio H. Mota
Obra: Z |Autor: Márcio H. Mota


Obra: Guspe |
Autor: Camila Soato
Obra: Guspe | Autor: Camila Soato

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017