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Brasília invisível

Liziane Guazina - Articulistas Publicação:04/12/2012 15:13
Um homem observa a Esplanada dos Ministérios, cartão-postal da cidade, do alto da plataforma da Rodoviária. Não respira o ar poluído pelos ônibus, não disputa espaço entre muitos para atravessar a rua na faixa de pedestres. Espera. À sua frente, o gramado. Ao longe, o Congresso, centro da disputa política. Atrás, o Conjunto Nacional e o Eixo Monumental. De costas para o burburinho da multidão em um dia qualquer, o que ele não vê? A cidade para além do óbvio.

Em As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, Marco Polo explora os territórios da imaginação e da memória para descrever ao imperador dos tártaros os domínios indefiníveis de um império. Assim como nos sugere Calvino, uma cidade é mais do que um território delimitado no mapa. É o espaço, por excelência, das narrativas da contemporaneidade. Pano de fundo para a literatura, para os discursos oficiais ou para notícias de jornal, rádio, internet, TV.

E mais que isso. É também o que está oculto, latente, na vida cotidiana de cada habitante. As histórias contadas ou silenciadas constituem as fronteiras dinâmicas de uma cidade. No mapa imaginário de Brasília, cabem os encontros e desencontros, o sonho, a frustração. Invisíveis às estatísticas estão os amores insatisfeitos, os filhos não nascidos, os desejos guardados no armário da academia de ginástica, a solidão da quitinete.

Um a um, os personagens constroem suas próprias histórias e a dos outros enquanto cochilam no ônibus, discutem com o taxista do aeroporto ou se irritam na fila do banco do Setor Bancário Sul. Nesses fragmentos de vida e narrativa que se entrecruzam, o mundo vai ganhando significado. Amálgama de passado, presente e futuro.

Embarco em uma viagem rápida por entre os Eixos. Na delegacia, encontro o policial que faz o registro de um furto de carros no estacionamento da UnB com a tranquilidade fatalista de uma tarde sem novidades. Hoje foi você, ontem aquela moça, parece dizer com os olhos. De acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública, até setembro deste ano, foram 7.718 carros furtados ou roubados no Distrito Federal. Quantas histórias estão entre números?

Do outro lado da cidade, a manicure me conta que a vida anda boa. Ela trabalha em um dos milhares de salões de beleza do DF, setor que, aparentemente, cresce na esteira da obrigatoriedade da beleza feminina. O trabalho está rendendo, a filha vai bem na escola e, além de tudo %u2013 para minha incredulidade %u2013, costuma ter sonhos premonitórios com suas clientes. Antes que pegue minha mão, pergunto se já sonhou comigo. Qualquer dia, responde. Digo que gostaria de saber. Ela ri, e a mulher ao lado muda de conversa: viu o homem lá na Rodoviária?

O homem. Na verdade, é uma escultura. Faz parte da exposição Corpos Presentes, do artista inglês Antony Gormley. Está só, mesmo que rodeado de gente. Espera ser notado. O que ele ouve, ninguém, ao certo, sabe. Histórias invisíveis da cidade.
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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017