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Como será o amanhã?

Seguindo os passos de Cingapura, - que, com um planejamento para 30 anos, passou de cidade subdesenvolvida a um dos Tigres Asiáticos - o Distrito Federal lança o projeto Brasília 2060, cuja meta é de ser uma das cinco capitais do mundo em competitividade global

Fred Bottrel - Colunista Publicação:06/12/2012 14:54Atualização:06/12/2012 15:24

Imagem aérea de Brasília feita pelo fotógrafo Bento Viana, autor do livro Brasília Vista do Céu: fotos do livro ilustram ambições do projeto Brasília 2060 (Bento Viana/Divulgação)
Imagem aérea de Brasília feita pelo fotógrafo Bento Viana, autor do livro Brasília Vista do Céu: fotos do livro ilustram ambições do projeto Brasília 2060

Sempre que os profissionais do governo do Distrito Federal divulgam internacionalmente o projeto Brasília 2060, que pretende traçar diretrizes para o planejamento econômico da capital para os próximos 50 anos, eles não perdem tempo: mostram, logo de cara, as impressionantes imagens do fotógrafo Bento Viana. De um helicóptero, ele clicou a cidade, e o resultado – publicado no livro Brasília Vista do Céu – dialoga com o propósito do plano macroestruturante que foi buscar em Cingapura a inspiração para esse planejamento. O trabalho de Viana e as propostas preliminares do Brasília 2060 lembram Italo Calvino, em O Barão nas Árvores: “Aquele que pretende observar bem a terra deve manter a necessária distância”.

“Não temos aqui essa expertise, nunca desenvolvemos nada parecido em nosso portfólio, não precisamos inventar a roda. Buscamos o melhor modelo do mundo, pedimos aos consultores que nos ajudem no planejamento, e nós vamos decidir, junto com a sociedade, o que faremos para construir melhor esse futuro”, diz Odilon Frazão, chefe da Assessoria Internacional do Governo do Distrito Federal (GDF). Da fala de Frazão saltam as respostas às críticas que se fazem ao contrato de US$ 4,25 milhões (R$ 8,85 milhões) firmado no início de outubro entre a Terracap (Agência de Desenvolvimento do DF) e a Jurong Consultants, empresa de consultoria com sede em Cingapura e de reconhecida competência.

Na vizinhança: em Minas Gerais, a Jurong pautou o plano estrutural para viabilizar  corredor tecnológico que liga Belo Horizonte ao Aeroporto Internacional Tancredo Neves, em Confins, que passa pela Linha Verde. A consultoria custou R$ 13 milhões e, de acordo com dados oficiais, já atraiu 
R$ 4 bilhões de investimentos privados, com capacidade para gerar 400 mil empregos até 2030.  (Cláudio Cunha)
Na vizinhança: em Minas Gerais, a Jurong pautou o plano estrutural para viabilizar corredor tecnológico que liga Belo Horizonte ao Aeroporto Internacional Tancredo Neves, em Confins, que passa pela Linha Verde. A consultoria custou R$ 13 milhões e, de acordo com dados oficiais, já atraiu R$ 4 bilhões de investimentos privados, com capacidade para gerar 400 mil empregos até 2030.

O discurso contrário chegou a motivar pedido formal de cancelamento do contrato por parte de dois senadores do DF, Rodrigo Rollemberg (PSB) e Cristovam Buarque (PDT), no Tribunal de Contas local (TCDF). “Temos profissionais competentes para se pensar o futuro do DF aqui”, diz Buarque. A experiência, contudo, de quem contratou os serviços de Cingapura mostra outra visão. O conhecimento da empresa oriental é realmente distinto. “Eles são craques”, diz o subsecretário de Assuntos Internacionais do governo de Minas Gerais, Luiz Antonio Athayde, que também contratou a empresa. “O projeto de pensar Minas para o futuro não seria o mesmo, sem a ajuda do pessoal de Cingapura”.


A questão do tombamento da capital como Patrimônio Cultural da Humanidade também preocupa, mas o GDF assegura que o escopo do projeto é econômico, e não arquitetônico, e que nenhuma intervenção ocorrerá sem dialogar com a sociedade brasiliense. Ademais, os estudos preliminares se concentram em regiões que estão fora do Plano Piloto (confira no mapa da página anterior).

Inspiração: detalhe do complexo One North Park, conjunto de quatro grandes parques planejados pela Jurong Consultants em Cingapura (Divulgação)
Inspiração: detalhe do complexo One North Park, conjunto de quatro grandes parques planejados pela Jurong Consultants em Cingapura

Para Frazão, as críticas são apressadas – o projeto, publicado no Portal da Transparência do GDF e já entregue ao TCDF, é legal – até mesmo no que diz respeito à conversa com a sociedade, que se dará em segundo momento; e à justificativa para a contratação por via direta, calcada na singularidade do objeto e na notória experiência da empresa contratada. O escopo, a dispensa de licitação e o valor do contrato foram aprovados por conselho da Terracap, constituído, inclusive, por representantes do governo federal.
A Jurong Consultants deriva da estatal que mudou a história de Cingapura, além de assinar outros 1,7 mil projetos do tipo, em 149 cidades e 47 países.

Odilon Frazão, chefe da Assessoria Internacional do GDF: 'Buscamos o melhor modelo do mundo, e vamos decidir,junto com a sociedade, o que faremos para construir melhor esse futuro'  (Aureliza Correa/espCB/DA Press)
Odilon Frazão, chefe da Assessoria
Internacional do GDF: "Buscamos
o melhor modelo do mundo, e
vamos decidir,junto com a sociedade,
o que faremos para construir
melhor esse futuro"
Colônia britânica até os anos 1960, depois de abandonado à própria sorte, o pequeno país insular, ao sul da Península Malaia, passou de entreposto colonial subdesenvolvido a um dos Tigres Asiáticos, com economia típica de Primeiro Mundo. O esforço hercúleo foi baseado em planejamento de 30 anos, conduzido pelo primeiro-ministro Lee Kuan Yew, a partir da criação da Jurong.

Com 47 anos de vida, a cidade-estado é um dos polos mais modernos do mundo na associação de alta tecnologia, sustentabilidade e competitividade. O modelo é ideal para, na ambição do GDF, criar as bases do planejamento para que Brasília se consolide como uma das cinco capitais do mundo em competitividade global, qualidade de vida e sustentabilidade. Essa é a meta.

A partir de projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o governo conclui que, se nada for feito no sentido de aumentar a capacidade de geração de empregos no DF, a população de desempregados pode saltar dos atuais 300 mil para 1 milhão de pessoas, em 2060. Isso na capital que foi ícone de planejamento e gestão na gênese, e que se viu, nos últimos anos carente de qualquer plano de políticas públicas de longo prazo.

A ideia do projeto macroestruturante é de que, para gerar mais oportunidade, emprego e renda, é preciso criar novos negócios. E o olhar, a partir da distância na metáfora visual das fotos de Viana, vai longe. “Para atrair grandes e boas empresas, Brasília não concorre com Anápolis, com Goiânia, mas com Madri, Nova York, Washington e Sidney”, conclui Frazão.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017