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Entrevista I Ivan Camargo »

Um aluno na reitoria

Pela primeira vez em 50 anos, o reitor da Universidade de Brasília é alguém formado na instituição. Ivan Camargo promete uma gestão menos burocrática, porém mais austera

Dominique Lima - Redação Publicação:06/12/2012 15:38Atualização:06/12/2012 16:15

'A universidade está gastando muito mais do que deve. A minha administração terá de ser austera, cuidadosa', afirma o atual reitor (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
"A universidade está gastando muito mais do que deve. A minha administração terá de ser austera, cuidadosa", afirma o atual reitor

A sala simples de professor da Universidade de Brasília (UnB), no prédio da Faculdade de Tecnologia, tem poucos itens de decoração e muitos livros. Ali, Ivan Camargo recebeu a notícia de que Dilma Rousseff aprovara seu nome para a Reitoria da UnB. Num processo que incluiu uma consulta à comunidade acadêmica e a deliberação do Conselho Universitário para montar lista tríplice encaminhada, então, à presidente da República, o professor do Departamento de Engenharia Elétrica foi selecionado entre 10 candidatos para ser o novo líder da UnB. Camargo será o primeiro reitor graduado pela própria universidade, que completa 50 anos em 2012.

Carioca criado em Brasília, chegou à cidade aos 9 anos, em 1969. Formou-se pela UnB. Está ligado à instituição desde 1978, mas vai liderar uma universidade muito diferente da qual se matriculou. A UnB está em franco processo de expansão. De 2008 para cá, o número de vagas disponíveis para graduação em cursos presenciais subiu de 4.188 para 8.428 e foram criados 36 novos cursos. A nova lei federal de cotas também mudará a dinâmica da universidade.

Somados aos novos desafios, velhos problemas, como as dificuldades orçamentárias. Uma de suas propostas para a questão financeira é a polêmica volta das fundações de apoio. Em 2008, elas estiveram no centro da crise que levou à saída do então reitor Timothy Mulholland. Denúncias de abusos no uso do dinheiro vindo dessas fundações inibiram a captação de recursos por esse meio. A falta teve, para Ivan Camargo, consequências calamitosas para a pesquisa e a extensão da UnB. Segundo ele, os problemas explicitados há quatro anos serão evitados graças ao maior controle e à legislação mais rigorosa. Além de falar dos planos de sua gestão, o novo reitor relembra, nesta entrevista, a infância candanga e as particularidades da relação entre a UnB e Brasília.

O senhor é o primeiro reitor formado pela UnB. A experiência de ter sido aluno influenciará sua gestão?

Estava na hora de as pessoas de Brasília alcançarem cargos de liderança. Cheguei à capital em 1969. Conheço muito a cidade e a universidade. A vantagem que vejo de ser formado aqui – além da acadêmica, todo mundo que se forma aqui é muito bem formado – é conhecer a fundo a universidade. E ter o carinho que todo aluno egresso da UnB sente por ela, que quero que se traduza numa gestão atenciosa. Quero torná-la bonita, limpa, agradável para passear, ter aula, discutir, fazer pesquisa.

Que lembranças o senhor tem de sua juventude em Brasília?

Morei na 104 Sul. Adorei a cidade desde que cheguei. Vim do Rio de Janeiro e lá os porteiros da minha vizinhança tinham mania de estourar as bolas com que a criançada brincava. Em Brasília, ao contrário. Tínhamos todo o espaço, áreas nas quadras para brincar, praticar esportes. Toquei guitarra com o Hebert Viana, apesar de sempre ter sido meio CDF. Ele é um grande amigo. Fui vizinho do Bi Ribeiro também.

Que características tem a UnB por estar localizada na capital do país, por ter nascido e crescido junto com a cidade?

Estar na vanguarda. Ela sempre ousou muito. Sua localização na capital permite que ela funcione como polo de atração. Os outros reitores se encontram aqui, as reuniões da Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais Ensino Superior) são em Brasília. Então, temos de manter essa característica de receber bem as pessoas da academia. A segunda característica importante é o contato internacional. Aqui estão todas as embaixadas. A terceira característica é estar perto do governo federal. O contato com o Ministério da Educação e com os órgãos de controle é simples, fácil e direto, até porque em todos esses lugares tem ex-alunos da UnB.

O senhor venceu a consulta paritária pela chapa UnB Somos Nós. O que essa chapa representa?

O discurso é de união. Por conta da crise que a universidade viveu, a universidade está dividida. Vimos isso durante a campanha e durante a última greve. No entanto, eu acredito que, durante a gestão, nós consigamos fazer esse movimento de união, de respeito à universidade, de respeito à opinião diversa.

Quais são os maiores problemas que surgem dessa falta de união?

O pior é a desmotivação. O professor e o servidor que não se julgam parte da universidade não trabalham com prazer. Em geral, é muito prazeroso trabalhar numa universidade. No entanto, se você encontra um ambiente desagradável, essa característica perde seu valor. Não quero que nenhum professor se sinta inimigo nessa próxima gestão. Não interessa em quem votou. A diversidade deve ser cultivada.

'Nós vamos conquistar as primeiras posições entre as universidades públicas no Brasil. Não tenho dúvida' (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
"Nós vamos conquistar as
primeiras posições entre
as universidades públicas
no Brasil. Não tenho dúvida"
O senhor era decano de ensino de graduação quando a UnB instituiu o sistema de cotas para negros. Agora, esse sistema virou lei federal e está mais amplo. Como será a nova realidade da UnB?


A UnB foi vanguarda no uso do sistema de cotas. E a experiência foi muito bem-sucedida, tão boa que o Congresso decidiu implantar o sistema no país. A UnB terá de definir como fazer o sistema funcionar e a questão será resolvida pelo Conselho Universitário. A grande transformação, nos próximos quatro anos, será no número de estudantes de baixa renda. Então vamos precisar do apoio financeiro do governo para a manutenção desses alunos na universidade. Quando fui decano, a maior razão para o desligamento de estudantes era econômica.

E como o senhor avalia a assistência estudantil da UnB hoje?

O restaurante universitário (RU) precisa ser melhorado e as vagas para a moradia estudantil, ampliadas. Há necessidade também nos novos campi, que precisam de restaurantes universitários. Já existe, da última administração, planejamento para essas melhorias, e talvez em pouco tempo consigamos viabilizá-las.

A sociedade ainda se sente distante da UnB. Como melhorar os projetos de extensão?

Temos vários problemas na extensão. Talvez o primeiro deles seja a burocratização. É muito difícil começar um projeto desses na universidade. Os professores interessados muitas vezes se desencantam em razão do excesso de burocracia. Temos de simplificar o processo e considerar a diversidade da UnB. Não acredito que a Reitoria deva definir os processos de extensão. Isso deve partir das unidades, dos professores, dos estudantes. A única coisa que a administração tem de fazer é dar os meios para que esses processos ganhem vida. Muitas vezes, esses projetos também dependem de dinheiro. Então, é preciso angariar recursos. Quero dar muita transparência a esse processo de captação de recursos.

Como seria essa captação de recursos?

Os meios para captar recursos que foram e são usados para financiar pesquisa, extensão, para criar editais são as fundações de apoio. Tivemos um problema enorme com essas instituições, mas temos de usá-las e fazer esse uso em parceria com os órgãos de controle: o Ministério Público, o Tribunal de Contas da União. Estamos abertos a todo tipo de auditoria, é claro. O caminho é esse.

Qual é a situação financeira da universidade hoje?

Os números são assustadores. A universidade gasta muito mais do que pode. A minha administração terá de ser austera, cuidadosa. Além de gastar de acordo com a lei e com o que a sociedade espera.

A universidade recebe menos recursos do que deveria?

Ainda não tenho total clareza. Mas, se uma universidade federal do mesmo tamanho que a UnB gasta muito menos, a UnB está gastando muito. Segundo o Ministério da Educação, comparada às outras universidades, a UnB gasta muito.

O processo de captação de recursos levou à crise de 2008. Como a UnB funciona hoje em relação à captação?

A crise estava relacionada com a forma de ver a universidade, de poder ou não arrecadar recursos públicos e privados e usá-los. Houve uma discussão enorme, não só dentro da universidade, mas em toda a comunidade. E agora as coisas estão muito mais claras. Novas leis entraram em vigor. Então, precisamos é continuar implementando ações de viabilização da universidade pública com total transparência. Não interessa de onde vem o recurso, na hora que entra na fundação de apoio, ele passa a ser dinheiro público. E todo mundo precisa ter acesso a informações sobre como será usado. A transparência é fundamental.

Uma dessas leis seria a Lei de Acesso à Informação, de 2011?

Isso, mas também as leis de inovação, que dizem o que o professor pode fazer e o que não pode, detalha o que cabe ao professor de dedicação exclusiva. Então, é uma série de novas normas que definem o processo com clareza.

Outro aspecto importante que levou à saída do reitor Timothy Mulholland foi a cobrança dos alunos. Estudantes ocuparam a Reitoria diversas vezes nos últimos anos. Como o senhor vê esse engajamento?

Acho ótimo. Os estudantes da UnB sempre foram engajados, políticos. Não será diferente na próxima gestão. Mas é preciso também respeitar as instituições. Não é nada positivo que os estudantes impeçam que um conselho superior se reúna, usar a força na universidade é muito desagradável. Aqui é o reino das ideias. Um estudante jogar um bolo na cara do reitor é inadmissível, como aconteceu com o reitor Lauro Mohry. Um único estudante chegar com um bumbo e impedir a reunião do conselho é um exagero. A violência é uma opção muito ruim para expressar as ideias.

Sobre a questão da excelência acadêmica, quais são os seus planos para elevar a UnB nos rankings nacionais e internacionais de universidades?

O plano é sutil. Percebemos um desânimo entre os professores. Foi um dos motivos pelo qual eu entrei em campanha. Vários colegas vinham me falar que não estavam conseguindo trabalhar porque todo processo é moroso, de uma progressão funcional até um recurso vindo de fora para viabilizar um centro de pesquisa, um laboratório, nada sai do papel. A proposta é uma gestão mais tranquila, menos dura, menos burocrática, mais descentralizada. Já temos professores excepcionais. Com um ambiente de trabalho agradável, nós vamos conquistar as primeiras posições entre as universidades públicas no Brasil. Não tenho dúvida.

Como enfrentar os desafios trazidos pela expansão da universidade, que inclui os três novos campi em Ceilândia, Gama e Planaltina?

A universidade ganha com a ampliação de sua estrutura. A sociedade recebe novas vagas. Ceilândia, Gama e Planaltina são hoje diferentes graças à presença da UnB. Então, vejo muito positivamente essa descentralização. Agora, todo processo de expansão requer cuidado. Nenhum curso novo começa nota 10. O que precisamos fazer é buscar a excelência acadêmica desses cursos novos.

Relatório da Secretaria de Segurança Pública do DF mostra que o campus é um dos locais mais visados da Asa Norte, principalmente para furtos. O que o senhor pretende fazer para lidar com a situação?

É realmente preocupante. Segurança talvez tenha sido a pauta principal da comunidade universitária na consulta, principalmente nos cursos noturnos. Primeiro, é preciso haver um projeto de infraestrutura para garantir a iluminação da universidade, dos estacionamentos. Os estudantes têm de se sentir seguros. Temos de fazer parcerias com todos os órgãos de segurança do GDF, hoje não há quadro suficiente para garantir a segurança. Os servidores que atuam em segurança também vão participar do projeto para melhorar a segurança no campus.

Qual é sua avaliação da última gestão?

Uma coisa que deu certo: saímos da crise. Então, isso foi um sucesso. Mas, para sair da crise, talvez por necessidade mesmo, houve uma centralização muito grande dos processos. Eles ficaram muito burocratizados e difíceis de serem executados. Também vários servidores antigos, que conheciam a máquina administrativa, foram colocados de canto e a máquina parou de funcionar. Outra coisa negativa foi a forma como usaram a Secretaria de Comunicação. Fui, pessoalmente, muito maltratado. E nenhum professor pode ser maltratado, independentemente da posição política. A Secretaria de Comunicação deve tratar todos os professores de maneira absolutamente isonômica.

Como o senhor avalia a universidade, o momento que ela vive hoje, em seu cinquentenário?

Estamos formando bem as pessoas. A formação multidisciplinar, com estudantes de áreas diferentes na mesma sala, sempre foi uma característica positiva. As formas de ensino mudaram muito. Precisamos estar à frente do tempo, fazendo ensino a distância. Não só para Brasília. E vamos conseguir fazer isso. O sonho de formar quadros para a administração pública brasileira foi conseguido. Vários colegas assumiram cargos de importância e fazem um belo trabalho pelo Brasil. A universidade tem de sonhar grande, pensar grande.

O que Brasília pode esperar nos próximos quatro anos da UnB?


Que o clima de esperança, de renovação, de vanguarda, volte a fazer parte da UnB. A universidade será transparente. Garanto também a divulgação da ciência. A parceria com órgãos de comunicação tem de ser muito grande. Vamos também formar integralmente nossos estudantes. Não só na sala de aula, mas no âmbito da pesquisa, da extensão. O objetivo não é ficar encastelado na universidade. A sociedade de Brasília pode esperar esse sangue novo de mim, um ex-aluno que viveu sua vida inteira neste campus e nesta cidade que adoro.


 (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
QUEM É
IVAN CAMARGO

52 ANOS
ORIGEM: Rio de Janeiro (RJ)

CARREIRA
É engenheiro elétrico pela UnB. Completou o mestrado em 1985 e o doutorado em 1988 no Instituto Nacional Politécnico de Grenoble, na França, ambos na área de sistemas elétricos de potência. Sua experiência é na área de Energia Elétrica e Regulação.

É professor associado da instituição. Foi superintendente de Regulação do Serviço de Distribuição e assessor da Diretoria da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Foi ainda decano de ensino de graduação da UnB, presidente da Sociedade Brasileira de Planejamento Energético e editor da Revista Brasileira de Energia.

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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017