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O artesão da capital

A história do alemão Walter Reinicke se confunde com a de Brasília. Ele assinou diversos trabalhos em órgãos públicos, projetos de Oscar Niemeyer e Athos Bulcão, com quem conviveu. Depois de 55 anos, anuncia o fechamento da marcenaria

Guilherme Goulart - Redação Publicação:13/12/2012 14:57Atualização:13/12/2012 14:54
O marceneiro Walter Horst Reinicke volta ao Palácio do Itamaraty, prédio que ajudou a construir: 'Aqui se cuida das coisas' (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
O marceneiro Walter Horst Reinicke volta ao Palácio do Itamaraty, prédio que ajudou a construir: "Aqui se cuida das coisas"

“Prezados senhores, comunicamo-lhes que, a partir de dezembro de 2012, pretendemos encerrar as nossas atividades de marcenaria...
Agradecemo-lhes a confiança e amizade demonstrada durante tantos anos. Atenciosamente, Walter Reinicke.” A nota, pouco comum na era dos smartphones, marca o fim de mais de 55 anos de serviços prestados ao Distrito Federal. Entre mobiliário, assoalhos, dobradiças, pilastras, janelas e obras de arte, a marcenaria que daqui a alguns dias fecha as portas participou ativamente da construção e da consolidação de Brasília como capital. Desde 1957 servindo como referência, inclusive para arquitetos e artistas plásticos, o trabalho da empresa embeleza prédios, embaixadas, palácios e hospitais.

Para entender toda essa história, é preciso voltar no tempo e descobrir um pouco mais sobre a vida do homem de 82 anos que assina a mensagem de despedida. Mudemos, então, de continente e de década, para chegar à Europa de 1930. Nesse ano, nasce, na Espanha, o alemão Walter Horst Reinicke. Confuso? Melhor deixar que ele mesmo explique: “Olha, cuidado aí! Nasci e me criei na Espanha, mas sou alemão. Sou filho de pais alemães. Nada contra a Espanha, mas não é o certo. Tenho a nacionalidade alemã até hoje”, conta o senhor de cabelos brancos, olhos azuis, óculos de grau e forte sotaque alemão.

Os pais de Walter deixaram a Alemanha logo após o fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Em Barcelona, eles se conheceram e se casaram. Em Bilbao, nasceram os três filhos — Walter é o caçula. A família ficou novamente exposta a bombas e a tiroteios por força da Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Em 1952, cansado de tanto conflito, sofrimento e incerteza, Walter decide ir embora do continente europeu e desembarca no Rio de Janeiro. Aprende a trabalhar a madeira com o mestre marceneiro alemão Max Balzet.

A marcenaria do pioneiro Walter: data marcada para fechar as portas, já que nenhum dos filhos seguiu o ofício ( Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
A marcenaria do pioneiro Walter: data marcada para fechar as portas, já que nenhum dos filhos seguiu o ofício

Brasília se abre como oportunidade apenas cinco anos depois. Em 1957, quando a irmã de um amigo convida Walter a desbravar o sonho de Juscelino Kubitschek. Apesar de certa resistência, a dupla depara com a paisagem da futura capital no mesmo ano. A primeira impressão assusta. “Muita poeira. Tchau, aqui, não fico”, reage Walter. Mas fica. A experiência como marceneiro rende frutos. É chamado para montar e dirigir a carpintaria do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Bancários (IAPB). Ao lado do sócio, Werner, dá início a uma rotina frenética. “Era um ritmo brabo, das 7h às 22h. No último ano, antes da inauguração, 24 horas por dia.”

Os sócios são contratados para fazer a marcenaria de diversos órgãos públicos e prestar serviço nas embaixadas da Grã-Bretanha, Suíça e Austrália. “A gente fazia tudo em madeira, do mais simples ao mais complicado. Tinha concorrência, mas nós éramos os melhores”, orgulha-se. A pesada carga de trabalho abre a chance de expansão dos negócios. Walter e Werner, este falecido há oito anos, compram um terreno no Setor de Indústria e Abastecimento, onde ainda hoje funciona a WR Consultoria e Execução em Madeira. Walter mora ali durante sete anos. “Quando chovia muito, não conseguia sair de casa. Ficava tudo alagado”, conta. O improviso não o impede de reservar um tempo para construir a própria família. Em 1963, casa-se com a mineira Maria Helena, com quem tem dois filhos.

Vários trabalhos em Brasília têm a assinatura da marcenaria de Walter: projeto do painel de Athos Bulcão no Cine Brasília é um deles (Cadu Gomes/CB/DA Press)
Vários trabalhos em Brasília têm a assinatura da
marcenaria de Walter: projeto do painel de
Athos Bulcão no Cine Brasília é um deles
Mas o início dos anos 1960 é mesmo de muito trabalho, o que permite o convívio com figuras ilustres, como o arquiteto Oscar Niemeyer. “Sempre que alguém perguntava sobre algum tipo de trabalho em madeira, o Niemeyer dizia: ‘Ah, vai lá nos alemães’”. A referência famosa rende notoriedade e contatos com mais gente competente, como os arquitetos Milton Ramos e João Filgueiras Lima, o Lelé. “Com o Lelé, fizemos amizade mesmo”, alerta Walter.

Também ficam responsáveis pela confecção de painéis do artista plástico Athos Bulcão. “Trabalhar com o artista é diferente e tem de atender direito. No caso do Athos Bulcão, ele passava o desenho e a gente fazia”, detalha. A experiência, no entanto, não era tão simples, como explica Valéria Cabral, secretária executiva da Fundação Athos Bulcão (Fundathos). “O Athos ia ao local onde ficaria o trabalho. Foi assim com o painel do Cine Brasília. Trata-se de uma caixa que se encaixa como se fosse um estojo de escola. É muito engenhosa. Nesse caso, ele (Walter) pensou com o professor. É competentíssimo”, elogia.

Após mais de meio século de dedicação, Walter precisou tomar uma decisão difícil: encerrar as atividades. Desde 2010, ele trabalha a ideia para fazer a transição com menos sofrimento. Os profissionais da WR Consultoria e Execução em Madeira passarão para outra empresa. “Não vou sumir do mapa. Vou sempre passar orientação, sempre me comprometer”, emociona-se.

A intenção era de que o negócio continuasse nas mãos da família. “Infelizmente, não consegui que os meus filhos seguissem o meu trabalho. Há dois anos, tomei a decisão de fechar. Não é fácil, não”, lamenta. Mesmo assim, no fim das contas, Walter só tem a agradecer: “Tenho satisfação interna (por tudo que fiz). Só alegrias. Fui poupado”, resume, outra vez em tom brincalhão.
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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017