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Ora, pois! Portugal está aqui...

No ano de Portugal no Brasil, Encontro Brasília fez uma lista de comidas, lugares e pessoas que te levam a encontrar um "bocadinho" da terrinha na nossa capital

Jéssica Germano - Redação Publicação:13/12/2012 18:21Atualização:13/12/2012 19:06

Mais de 510 anos após o primeiro navegador luso pisar em terras tupiniquins e cruzar a rota que se modernizou com voos diários, Brasil e Portugal voltam a se unir em um ano especialmente dedicado a celebrar a relação entre os dois países. Desde o último 7 de setembro até 10 de junho de 2013 – data de morte de um dos mais importantes nomes da literatura portuguesa e mundial, Luiz Vaz de Camões – os dois países, considerados irmãos pátrios, se encontram por meio de um intercâmbio cultural, tecnológico, empresarial e gastronômico.

Apesar da familiaridade histórica, alguns laços entre Brasil e Portugal não se aprofundaram, seja pelos costumes diferentes pela distância continental. Com esse detalhe em evidência, o ano em curso pretende colher muito mais frutos do que apenas novas relações em setores como comércio e turismo, por exemplo. Representantes luso-brasileiros esperam renovações do olhar, principalmente dos brasileiros em relação ao país europeu. “Quando os brasileiros descobrem o Portugal cultural, histórico, se apaixonam”, constata Miguel Horta, comissário responsável pelo Ano Brasil-Portugal. “O Brasil hoje tem uma ideia genérica de Portugal, como o país dos nossos avós. Portugal hoje é um país moderno, jovem, inovador, e é essa a imagem que nós queremos trazer ao Brasil.”

Se, para muitos, a visita à terrinha requer passagem internacional, definição de roteiro turístico e esforço para driblar as diferenças de sotaque, os cerca de 10 mil portugueses que vivem atualmente em Brasília relativizam essas etapas. A capital tem diversos pontos que refletem a tradição de nossas heranças. Lugares que mantêm os traços de Portugal alcançáveis aos olhos e ao paladar. Do pastel de Belém mais original aos detalhes que decoram aldeias e ilhas de lá e adornam cantinhos aqui, este guia mostra que, apesar das barreiras culturais que ainda existem, é sim possível conhecer os traços lusos e viver Portugal em plena Brasília, ora, pois.

Agenda cultural

 

Exibição do filme Voo
do Humbi-Humbi, no âmbito da semana europeia dos Direitos Humanos
5 de dezembro

Local: Auditório do Instituto Camões, na Embaixada de Portugal
Entrada franca

Café Literário
de Natal – Café Camões
7 de dezembro

Local: Auditório do Instituto Camões, na Embaixada de Portugal
Entrada franca

Concerto do Quarteto
de Lopes Graça
22 de janeiro de 2013

Local: Teatro Oi (SHTN Trecho 1,
Conj. 1B, Bloco C)
Ingressos a partir de R$ 30


Portuguesa com certeza: Olga reproduz o perfeito ambiente luso. No Sagres, o Bacalhau a Lagareiro sai por R$131 (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Portuguesa com certeza:
Olga reproduz o perfeito
ambiente luso. No Sagres,
o Bacalhau a Lagareiro sai por R$131
UM CLIMA DE PORTO

Sagres Restaurante

 

Há um lugar em Brasília que une o artesanato, a diversidade e os sabores lusos. Referência em se tratando de culinária portuguesa na cidade, o restaurante Sagres funciona há 18 anos sob os cuidados atentos da dona, uma portuguesa criada em terras brasileiras.

O clima de Portugal, percebido desde o lado de fora, é resultado de frequentes viagens realizadas pela proprietária, Olga Soares,  à terrinha. Das toalhas de mesa ao fado soprando nos ouvidos, passando por todos os vinhos servidos, tudo vêm do país que tem um oceano de distância em relação ao Brasil. E Olga pretende manter o lugar assim. “A vida é feita de detalhes e o Sagres também”, descreve.

Para viver plenamente a experiência portuguesa, Olga indica duas receitas: o bolinho de bacalhau, feito sem farinha de trigo, e o tradicional Bacalhau à Lagareiro. O estabelecimento ganhou, por três anos seguidos, a avaliação de melhor restaurante português e melhor bolinho com o peixe salgado, segundo uma revista especializada. “É um país com enorme diversidade. Aqui tem de tudo um pouco: do norte ao sul”, convida a anfitriã.

 

Bacalhau com Lagostin: receita  de sucesso do restaurante A Bela Sintra, por  R$148 (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Bacalhau com Lagostin: receita
de sucesso do restaurante A Bela Sintra,
por R$148
SUA EXCELÊNCIA, O BACALHAU

A Bela Sintra

 

Apesar de a cozinha lusitana ser extensa e ter outros fortes protagonistas, para se viver uma experiência gastronômica tipicamente portuguesa, o bacalhau é um item essencial da lista.

No restaurante A Bela Sintra, já referência na cidade quando o assunto recai sobre receitas de Portugal, o Bacalhau com Lagostins é um dos pratos mais pedidos. Composto por uma posta do peixe, lagostim (crustáceo parecido com lagosta) e legumes, a combinação é ideal para quem não quer passar sem bacalhau e opta por um prato leve e saboroso.

De acordo com o gerente e sommelier da casa, Alexandre Souza, a alguns toques regem os temperos lusos e aparecem em destaque na culinária de Portugal. “Duas coisas típicas dessa cozinha são o azeite, usado praticamente em todos os pratos, e o coentro”, destaca. “O português tem essa coisa de os pratos serem mais condimentados. Têm muito alho, cebola e coentro. A comida tem um sabor muito marcante”, completa, pontuando que, para quem não gosta de um dos elementos citados, e só notificar o garçom, que o sabor forte vem suavizado.

O casal Manuel Pontes e Armida Pontes: os segredos da Panificadora Portuguesa estão a sete chaves (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
O casal Manuel Pontes e Armida Pontes:
os segredos da Panificadora Portuguesa
estão a sete chaves
A FAMOSA PADOCA

Panificadora Portuguesa

“O português da padaria.” A expressão é clássica e já virou até trecho de música. Para quem ainda não conhece o estabelecimento, que já virou memória de infância de muitos brasilienses nos seus mais de 30 anos de funcionamento, a visita à Panificadora Portuguesa vale a primeira experiência com um tradicional pão português. Preparado sem química nenhuma, a receita é um segredo, não revelado de jeito nenhum pela dona do lugar, a simpática dona Arminda Pontes. Nascida em uma colônia portuguesa de Angola, ela fundou a padaria junto com o marido, Manuel Pontes, em 1978, e desde então acompanha todo o negócio.

Na parte da manhã, o que movimenta a padaria é realmente a busca pelo pão para o desjejum. Na parte da tarde, a procura maior é pelo croissant e pela ensaimada, uma rosca de chocolate com canela, ambas receitas da angolana, filha de portugueses.

'É a cultura e a leitura que podem libertar as pessoas', diz Victor Alegria (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
"É a cultura e a leitura que podem
libertar as pessoas", diz Victor Alegria
O PORTUGUÊS MAIS BRASILIENSE

Victor Alegria

A história com o Brasil começou a ser traçada por meio de um exílio imposto em 1964. Os anos que se seguiram foram de ótima serventia para construir uma caminhada de dedicação e amor pela terra distribuída em tons de verde, amarelo e azul. Atualmente, dono de uma das mais importantes editoras da cidade, a Thesaurus, o português de alma candanga Victor Alegria luta para seguir com os planos de levar a história e a produção da capital federal para o mundo.

Apaixonado pela cidade que, segundo ele, “tem um planalto que parece um mar”, o conterrâneo de Camões promove diversos programas culturais entre Brasil e Portugal. Os projetos vão de exposições a distribuição de livros brasileiros em bibliotecas portuguesas. “É a cultura e a leitura que podem libertar as pessoas”, afirma em tom certeiro.

Para o português de frases longas e sotaque ainda resistente, esses intercâmbios são motivo de orgulho e precisam ser citados. Para os brasilienses que desejam conhecer mais da cultura portuguesa, ele indica algumas obras que, em sua opinião, retratam bem a sua terra natal. “Os livros de (José) Saramago são obras que, até hoje, causam um bocado de reação em Portugal”, destaca, listando em seguida Império à Deriva, de Patrick Wilker. “Além de escritores que não se pode deixar de conhecer e que, ainda hoje, continuam vivos, como Eça de Queiroz e Alexandre Herculano”, completa o português-brasiliense.

Maria do Carmo, com sua farta e variada bandeja: do pescocinho e freira ao pastel de Santa Clara (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Maria do Carmo, com sua farta e variada
bandeja: do pescocinho e freira ao pastel
de Santa Clara
AH... OS DOCES

Delícias Lusas

Quilos a mais com certeza não preocupavam as antigas freiras portuguesas, responsáveis pelos famosos doces feitos de gema e açúcar. Em Brasília, quem carrega a posição de provedora de tais guloseimas é a brasileira, casada com português, Maria do Carmo Onirro. Ela é a responsável, junto com o marido, pelo Delícias Lusas.

Há sete anos, servem barriguinha e pescocinho de freira, feitos com gema e folha de hóstia, pastel de Santa Clara, Toucinho do Céu e Papo de Anjo, “São receitas originais, sem nenhuma mudança ou adaptação”, explica ela, que morou 12 anos em Portugal, onde aprendeu o ofício.

Catarina Patrício trouxe para Brasília o estilo português: visual mais arrojado, comum às europeias (Catarina Patrício trouxe para Brasília o estilo português: visual mais arrojado, comum às europeias)
Catarina Patrício trouxe para Brasília o
estilo português: visual mais arrojado, comum
às europeias
UM ESTILO PRÓPRIO

Catarina Patrício Hair Space

Arrastada para o Brasil após uma história de amor iniciada com um brasileiro em Porto de Galinhas, durante umas férias, Catarina Patrício trouxe para Brasília o trabalho que já realizava há mais de dez anos em Portugal. Com uma breve passagem por salões de beleza da capital, ela abriu um negócio próprio, onde mantém as características do mercado de beleza português.

No espaço, a empresária e cabeleireira põe em prática técnicas comuns dos negócios portugueses, porém, pouco exercidas por profissionais daqui, segundo ela. De acordo com Catarina, o processo de diagnóstico e análise do cabelo, acrescido de uma conversa com o cliente, é fundamental antes dar início a qualquer procedimento. Com experiência no ramo de beleza nas duas culturas, Catarina elege também um estilo característico que fez a cabeça das brasileiras. “A mulher europeia, em geral, usa o cabelo muito curto e o que eu reparo é que, quando as clientes vêm cortar o cabelo mais curto, elas adoram, porque aqui no Brasil não existe uma preparação muito grande para fazer esse corte”.

Segundo ela, é preciso técnica para aliar a modernidade desse estilo com a praticidade que o dia a dia corrido exige. “Têm francesas, que já estão aqui há 30, 40 anos, que souberam do salão, vieram e adoraram”, conta. A visita ao salão, além da garantia de um visual arrojado, traz a possibilidade de ouvir boas histórias de Portugal, com um sotaque charmoso da dona do espaço.

Yannah com o marido, João Manuel: iguaria é receita da sogra, seguida à risca (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Yannah com o marido, João Manuel:
iguaria é receita da sogra, seguida à risca
ELE, O PASTEL DE BELÉM

Bistro do Manuel

Poucas coisas lembram mais Portugal do que o famoso pastelzinho de Belém. Originalmente chamado de pastel de nata, o doce não falta nas cozinhas portuguesas. A receita preparada no Bistrot do Manuel, o português que veio morar em Brasília após se apaixonar por uma brasileira, merece destaque. Para bons entendedores do assunto, o pastelzinho servido no restaurante e café localizado no Lago Norte  é o melhor de Brasília.

Lisonjeada por ser a dona da receita, a esposa de João Manuel Coelho comenta que o sucesso da iguaria vem de sua origem. “É um produto genuinamente português: Só leva massa folhada, creme de leite, açúcar e ovos. Mais nada”, lista Yannah Raslan, de maneira tão simples, que a naturalidade chega a contrastar com o sabor surpreendente do doce servido ainda quente.

Segundo o casal, não há segredo para receita, apenas muito empenho por parte da brasileira em aliar o passo a passo feito pela sogra portuguesa e a tradicional receita feita no país europeu. Para um pastelzinho ainda mais gostoso, Yannah dá a dica: “Você pode comê-lo natural ou polvilhado com canela e açúcar de confeiteiro. A canela, na verdade é um temperinho, que quebra um pouco o doce do pastel”.

A embaixada de Portugal tem uma biblioteca com mais de 12 mil títulos: visitantes são bem vindos (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
A embaixada de Portugal tem uma
biblioteca com mais de 12 mil
títulos: visitantes são bem vindos
UM PASSEIO PELA FONTE

Instituto Camoes e Embaixada Portuguesa


Quando a questão é lugar para se ver e entender a antiga e atual trajetória do país irmão, infelizmente, Brasília ainda sofre com uma baixa em relação a outras cidades brasileiras, como o Rio de Janeiro. Na capital federal, porém, há um espaço onde referências, história e arte portuguesas se unem: a Embaixada de Portugal. Em companhia da sede do Instituto Camões, a representação tem uma biblioteca que acumula mais de 12 mil títulos, que de alguma forma tratam da relação luso-brasileira.

Além disso, a estrutura abriga um auditório, onde são realizados eventos culturais abertos ao público. Ciclos de cinema, palestras a respeito de temas portugueses, lançamentos de livros e saraus de poesia fazem parte da programação frequentemente apresentada, sempre disponível no site da embaixada.

João Pignatelli, conselheiro cultural: Uma de nossas preocupações é trazer Portugal a Brasília. (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
João Pignatelli, conselheiro cultural:
Uma de nossas preocupações é trazer
Portugal a Brasília.
A instituição realiza também visitas guiadas à estrutura, nas quais os brasilienses podem ver de perto as influências e produções artísticas portuguesas, desde esculturas até faianças em porcelana. “Uma das nossas preocupações é trazer Portugal mais à Brasília. Trazer à cidade, regularmente, manifestações culturais que já vão para outras cidades”, declara João Pignatelli, conselheiro cultural da embaixada.

Para melhor entender seu país natal, ele indica ainda uma ida ao Memorial JK, feita com um olhar especial para o acervo de fotos da época em que Juscelino Kubitschek esteve em terras vizinhas. “É um registro do período que ele passou no país e mostra a relação que ele tinha com Portugal, que era muito forte”, pontua.

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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017