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O sarau saiu da sala

Os encontros com número reduzido de pessoas, normalmente restritos a ambientes caseiros, cresceram. Com novos moldes, atraem grande público em manifestações culturais, que incluem performances e até debates

Jéssica Germano - Redação Publicação:19/12/2012 16:39Atualização:19/12/2012 16:57

Se antes os saraus aconteciam para se compartilharem dons artísticos só entre amigos e conhecidos, hoje é arena cultural: alternativa de entretenimento de qualidade na capital (Minervino Júnior/Encontro/D.A.Press)
Se antes os saraus aconteciam para se compartilharem dons artísticos só entre amigos e conhecidos, hoje é arena cultural: alternativa de entretenimento de qualidade na capital

A origem da palavra, como a maioria das nossas heranças linguísticas, é do latim, do termo seranus. As definições nos dicionários variam entre uma reunião em casa particular, clube ou teatro, em que se passa a noite dançando ou tocando, e o encontro de pessoas amantes de letras, que recitam ou escutam obras em prosa ou verso. Os conceitos, porém, não puderam acompanhar os caminhos que surgiram para esse tipo evento.

Os encontros atuais, que talvez só tenham em comum a veia artística e o nome em si, sarau, revelam diferentes formatos. Desde um quadrado intimista, sem palcos ornamentais, com poucos presentes, até um grande programa, com grupos artísticos numerosos e um teatro amplo, os saraus têm agradado aos brasilienses. Se originalmente a ideia era reunir conhecidos e dividir dons artísticos, hoje atua como arena cultural e funciona como alternativa de entretenimento de qualidade para as noites de Brasília. E o melhor: de graça.
As irmãs Ludmila e Gabriela Maia, com a amiga Mariana Acioli no Projeto Sarau: surpresas com as apresentações e os talentos escondidos na cidade (Minervino Júnior/Encontro/D.A.Press)
As irmãs Ludmila e Gabriela Maia, com a amiga Mariana Acioli no Projeto Sarau: surpresas com as apresentações e os talentos escondidos na cidade

A empresária Cristina Roberto, que foi dona do bar Bom Demais, um dos maiores pontos de encontro cultural da cidade nos anos 1980, ficou conhecida também pelos famosos saraus que promovia em casa. Seus encontros tornaram-se grandes eventos mensais que renderam boas histórias durante nove anos, de 2003 a abril de 2012. Atualmente, ela é dona de um bufê e um bistrô, e se permite uma folga do tradicional encontro, mas planeja não demorar muito a voltar. A vasta experiência fez com que Cristina reunisse diferentes impressões sobre esse tipo de programação. “De dez anos para cá, o sarau tomou uma proporção maior. Mas Brasília sempre teve isso: a casa de alguém ser um ponto de encontro de artistas”, conta.

Ela acredita que as muitas variações para o evento acabaram transformando a ideia original: “A palavra sarau entrou na moda, designa muitas coisas”. Para ela, deve reger a premissa da democracia na expressão. “Eu não sei se todos os lugares que se chamam de sarau têm esse clima de ser uma tribuna livre. Para mim, sarau é um território livre”, pondera, acrescentando que não deve haver filtros burocráticos, como seleções limitadas de artistas ou ordem de apresentação, por exemplo.
Ricardo Guti e Vavá Alfiouni, do Sarau Siga: Nem sempre corresponde à ideia que as pessoas têm. Você pode ter um sarau sem poesia, diz Ricardo (Minervino Júnior/Encontro/D.A.Press)
Ricardo Guti e Vavá Alfiouni, do Sarau Siga: Nem sempre corresponde à ideia que as pessoas têm. Você pode ter um sarau sem poesia, diz Ricardo

As variações, entretanto, vieram com uma programação prévia, fechada e divulgada com antecedência. O programa ficou e se adaptou. O subsolo de uma quadra comercial talvez fosse um lugar do qual se esperaria um encontro para celebrar e dialogar sobre arte. Mas é em um teatro pequeno, no Espaço Mosaico, com uma decoração escura, intimista, com capacidade para 80 pessoas, que as vibrações artísticas ganham espaço e convidam brasilienses dos mais diferentes estilos para participar do espetáculo. Seja um quadro musical, seja uma entrevista em formato de bate-papo, a ideia ali é servir de vitrine para boa produção local. Lá acontece o Sarau Siga, que há três anos mostra o que é produzido nos quadrados de Brasília, sempre com três convidados por noite.

A estrutura de apresentação é informal, o que não abandona a atmosfera circense e teatral do lugar, e segue permeada por canções que dialogam com um tema – anunciado ou não – para a noite. Com anfitriões da classe artística, a noite ganha doses fortes de diversão e perguntas instigantes que, de quase cinco em cinco minutos, convidam a plateia a integrar o espetáculo no palco térreo.

Para o músico, ator, apresentador e um dos curadores do projeto Ricardo Guti, a cena artística vive um mito em relação à terminologia dos saraus. “Você pode ter um sarau sem poesia. Essa ideia de sarau tira, às vezes, a grandiosidade do evento”, opina. O compositor Vavá Alfiouni, outro curador do Sarau Siga, lembra que o projeto surgiu pela falta de espaço para os artistas mostrarem seus trabalhos. “Artes plásticas não é uma coisa que você ouve no rádio”, exemplifica, apontando as dificuldades certas linguagens apresentam em relação a outras. A variedade da programação foi algo que se firmou nas características do sarau. Vale desde a exposição de ilustrações com a presença do artista até a apresentação de um grupo acrobata.
A empresária Cristina Roberto promoveu saraus em seu quintal por nove anos: Brasília sempre teve isso de a casa de alguém ser um ponto de encontro de artistas, conta (Minervino Júnior/Encontro/D.A.Press)
A empresária Cristina Roberto promoveu saraus em seu quintal por nove anos: Brasília sempre teve isso de a casa de alguém ser um ponto de encontro de artistas, conta

Para o diretor, produtor de cinema e ator Guilherme Reis, convidado de uma das edições do Sarau Siga, o lado eclético do sarau reflete uma característica local. “A diversidade, a segmentação, as propostas de gostos, de gente, é Brasília. A cidade é isso: essa diversidade grande”, avalia o responsável pela produção de um dos maiores festivais de teatro da cidade, o Cena Contemporânea.

O conceito intimista dos saraus ficou para trás no auditório com capacidade para 700 pessoas do Museu Nacional da República. Ali, sete grupos artísticos se alternam diante de uma plateia desde o início de 2011, quando começou o Projeto Sarau. Para Tom Maranhão, uma característica essencial da ideia geral dos saraus se mantém, mesmo que nesse formato gigantesco: “A interação entre quem se apresenta e quem aplaude”. Para o produtor da Casa da Cultura da América Latina, que junto com o Museu apresenta o projeto, o fato de o evento ser gratuito e o público ser interessado faz com que o retorno e o comparecimento sejam positivos.
 A produtora Beatriz Gonçalves, curadora do projeto Sarau de Ideias: espaço para a cultura e a troca de ideias, os eventos são também um espaço político (Minervino Júnior/Encontro/D.A.Press)
A produtora Beatriz Gonçalves, curadora do projeto Sarau de Ideias: espaço para a cultura e a troca de ideias, os eventos são também um espaço político

A analista judiciária Ludmila Maia, frequentadora, acredita que esse tipo de evento tem garantia de arte de qualidade, sem precisar desembolsar grandes quantias: “Combina com o brasiliense de bom gosto”. Já Gabriela Maia, que foi ao Projeto Sarau com a irmã e uma amiga, Ludmila e Mariana, acredita que a diversidade das atrações e o quê de novidade, a cargo de novos artistas em cena, são o que mais chama para os saraus. “Eu vejo muitas pessoas que eu não conhecia. Eu fico até surpresa com o tanto de talento que há na cidade”, comenta a advogada.

As discussões em torno do fazer artístico são também comuns nos saraus. Foi a partir dessa concepção que a produtora Beatriz Gonçalves propôs, como curadora, o projeto Sarau de Ideias, com seis encontros voltados para o debate sobre os principais movimentos e manifestações culturais do Brasil. “O sarau é um espaço para discussão, para a troca de ideias e, sem dúvida, é um espaço político”, diz.
Para o ator Guilherme Reis, o ecletismo do sarau atualmente reflete uma característica local: Brasília é diversidade, segmentação, propostas de gostos, de gente (Minervino Júnior/Encontro/D.A.Press)
Para o ator Guilherme Reis, o ecletismo do sarau atualmente reflete uma característica local: Brasília é diversidade, segmentação, propostas de gostos, de gente

Em frente a um bistrô e a uma livraria no Centro Cultural do Banco do Brasil, o programa, com mesas e cadeiras espalhadas em frente a um pequeno tablado, foi proposto para apresentar sempre dois convidados e um mediador em clima de conversa. Em outubro, Antônio Cícero e Chacal foram os convidados para o tema “Poesia marginal”. Para o estudante Rodrigo Guimarães, os saraus, além de uma oportunidade de aprendizado, são um espaço para mostrar parte de sua veia artística e interagir com os presentes. Ele e mais quatro amigos, todos bem jovens, ainda estudantes do ensino médio, já mostraram no Sarau de Ideias uma música composta pelo grupo.
Os cariocas Antônio Cícero e Chacal estiveram no projeto Sarau de Ideias no CCBB em outubro: estrutura informal e contato direto com o público para falar de poesia marginal (Minervino Júnior/Encontro/D.A.Press)
Os cariocas Antônio Cícero e Chacal estiveram no projeto Sarau de Ideias no CCBB em outubro: estrutura informal e contato direto com o público para falar de poesia marginal

 

SARAUS AFORA

Programe-se para os próximos encontros culturais que acontecerão na cidade

 

Terça Crônica
Evento quinzenal com a presença de convidados da cidade para apresentar trabalhos de um cronista e um músico de destaque na cena brasileira
Próximas edições: 4 de dezembro, às 20h, com o tema “Maitê Proença e Vinicius de Moraes”; e 18 de dezembro, às 20h, com Affonso Romano de Sant’ana e Alex Souza (convidados)
Local: Café com Letras – CLS 203, Bloco B, loja 19
Contato: (61) 3322-4070
2013: Um novo projeto, chamado Segundas Intenções, está programado para acontecer sempre às segundas-feiras.
O formato é parecido com o Terças Crônicas, mas são saraus de literatura intimista

Sarau Siga
Encontro mensal que reúne sempre três artistas da cidade para debater o processo criativo Próxima edição: 9 de dezembro, a partir das 12h
Tema: Siga da Farofa, com a banda Passo Largo e a Cia. Circo Rebote Local: piscinão do Lago Norte
Contato: (61) 3032-1330
2013: O projeto continua, porém, ainda sem programação definida


Quinta Cultural
Projeto do T-Bone que, desde 2008, traz músicos nacionais e locais, escritores, grupos de poesia e de teatro da cidade, além de promover recitais e bate-papos literários.
Sempre às quintas-feiras, das 18h às 23h. A programação de 2012 está encerrada. A partir de março de 2013, retornam os eventos semanais
Local: Açougue Cultural T-Bone –
SCLN 312, bloco B, loja 27
Contato: (61) 3963-2069

Projeto Sarau

Os próximos encontros serão em 2013, com duas edições programadas: em abril, sobre as ligações culturais luso-brasileiras, no Museu da República; e outra com saraus realizados em diversas escolas da rede pública de ensino, a partir de novembro
Contato: (61) 3321-5811

Sarau Chatô
Com 12 edições ao longo do ano, o projeto, criado em dezembro de 2011 para homenagear Assis Chateubriand, reúne em um mesmo espaço manifestações artísticas como música, literatura, teatro, artes plásticas, cinema e dança. Com os encontros desse ano já finalizados, o projeto ainda não tem programação definida para 2013.
Local: Correio Braziliense, SIG, Quadra 2, 240.
Contato: sarau@facbrasil.org.br

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017