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O velho oeste candango

Depois de dois adiamentos, foi marcada a estreia de Faroeste Caboclo, filme que leva para as telas uma das canções mais famosas de Renato Russo. A partir de 30 de maio de 2013, a obra, ambientada na Brasília dos anos 1970, entra em circuito nacional

Renato Alves - Redação Publicação:19/12/2012 16:57Atualização:20/12/2012 16:48

Cidade cenográfica criada no Jardim ABC para reproduzir a Ceilândia dos anos 1970 (Daniel Ferreira/CB/DA Press)
Cidade cenográfica criada no Jardim ABC para reproduzir a Ceilândia dos anos 1970

Nos próximos dias, um público privilegiado terá acesso a uma das mais aguardadas obras do cinema nacional. A mãe, a irmã e o filho de Renato Russo assistirão em primeira mão ao longa-metragem Faroeste Caboclo, baseado na canção homônima do cantor e compositor da banda Legião Urbana, nascida e criada nas superquadras de Brasília, que fez estrondoso sucesso nacional. Tal deferência se justifica: a família Manfredini acompanhou toda a produção, que começou em 2006, com o projeto de adaptação da música para o cinema. “Foram muitos encontros, telefonemas e trocas de e-mails com a direção e a produção, em que eram compartilhadas impressões pessoais sobre roteiro, locações e escolha do elenco”, lembra o diretor do longa, o brasiliense René Sampaio.Os demais terão de segurar a curiosidade.

O filme, ambientado no Distrito Federal do fim da década de 1970, está quase pronto e, depois de dois adiamentos, a data de lançamento foi marcada: 30 de maio, em circuito comercial. Orçado em R$ 6 milhões, Faroeste Caboclo tinha estreia prevista para outubro de 2011, depois adiada para o início de 2012. No entanto, os produtores esbarraram na falta de dinheiro para concluir o longa. Não revelam, porém, o valor para a finalização do filme, nem demonstram preocupação com a demora do lançamento.
O longa-metragem encenou algumas batalhas entre a polícia e traficantes: policiais de Brasília participaram das filmagens (Hugo Santarem/Pixel Imagem)
O longa-metragem encenou algumas batalhas entre a polícia e traficantes: policiais de Brasília participaram das filmagens

Com o tempo esticado, têm se empenhado em editar as imagens para transformá-las numa grande produção, conforme o anunciado desde o início do projeto, em 2008, quando René Sampaio conseguiu a autorização da família de Renato Russo para levar às telas a história escrita em música. Mas, agora, garantem, a estreia não será mais adiada.

O primeiro fim de semana de exibição será no feriado de Corpus Christi, uma sexta-feira. “Tomamos a decisão durante o Festival do Rio (em outubro), em reunião com o distribuidor, procurando a melhor janela para entrarmos em um grande número de salas em todo o Brasil”, conta Sampaio. “Não fechamos ainda o corte final.

O distribuidor viu uma montagem em estado adiantado e gostou muito, prevendo um grande lançamento.” Em tempo: o filme ainda não encerrou a captação e o único dinheiro de Brasília é o do FAC (Fundo de Apoio à Cultura, da Secretaria de Cultura do DF). “Agora, que temos data prevista para a estreia, seria o momento ideal de alguma empresa se juntar ao projeto. É um excelente negócio, pois o retorno virá rapidamente para quem aportar capital agora, no fim do processo”, ressalta René Sampaio, sem perder a oportunidade de mandar um recado ao empresariado candango.

A festa que até hoje dá o que falar no Distrito Federal, a Rockonha: filmagem feita em Sobradinho, no mesmo local onde o evento ocorreu de fato (Hugo Santarem/Pixel Imagem)
A festa que até hoje dá o que falar no Distrito Federal, a Rockonha: filmagem feita em Sobradinho, no mesmo local onde o evento ocorreu de fato

Uma equipe de mais de 100 pessoas, entre atores, produtores e técnicos, participou das gravações na capital e no Entorno, em abril e maio do ano passado. “Mais de 80% do tempo de tela é ocupado por cenas rodadas no Distrito Federal e no Entorno. A locação para o restante foi Pau Ferro, sertão de Pernambuco, e o Polo de Cinema de Paulínia (SP), onde foram filmadas as cenas da infância e da juventude de João do Santo Cristo”, detalha o diretor.

Respeitado no universo da sétima arte por curtas como Sinistro (2000), René Sampaio estreia em longas com Faroeste Caboclo. Ele garante que o filme segue roteiro fiel aos versos da letra da canção-hino da Legião Urbana, que retrata episódios de violência e a desigualdade brasiliense de 30 anos atrás.

Elenco do filme: Fabrício Boliveira (João do Santo Cristo), Felipe Adib (Jeremias), Ísis Valverde (Maria Lúcia) e Sérgio Penna (diretor de elenco) (Gavea Filmes/Divulgação)
Elenco do filme: Fabrício Boliveira (João do Santo
Cristo), Felipe Adib (Jeremias), Ísis Valverde
(Maria Lúcia) e Sérgio Penna (diretor de elenco)
O longa terá cerca de 100 minutos. Escrito por Marcos Bernstein e Victor Atherino, com consultoria do escritor Paulo Lins, autor do livro Cidade de Deus, o roteiro de Faroeste Caboclo ambienta a rotina violenta de quadras do Plano Piloto e, principalmente, da periferia de Brasília entre 1979 e 1981.

Faroeste Caboclo, a canção, foi composta por Renato Russo em 1979, quando ele tinha apenas 19 anos, mas lançada somente em 1987, no álbum Que país é este?.

O filho de Renato Russo, Giuliano Manfredini, acompanhou de perto as filmagens. Tanto que ganhou um papel na trama. Fruto do relacionamento do vocalista da Legião Urbana com uma fã, Raphaela Bueno, morta em um acidente de carro em 1989, Giuliano mora com a avó no Lago Sul. Aos 22 anos, divide-se entre o curso de administração em uma faculdade particular e a administração de uma produtora cultural. Giuliano, que nunca havia participado de um filme como ator, já foi guitarrista da banda Síndrome, hoje vive agitando o cenário musical da capital com os shows e eventos organizados por sua empresa, a Mundano Produções.

Para dar vida à canção nas telonas, os roteiristas criaram novos personagens. Além de João, Maria Lúcia e Pablo, há um senador e um policial corrupto. Vivido pelo experiente Marcos Paulo, falecido recentemente, o senador é o pai de Maria Lúcia. O não menos experiente Antonio Calloni interpreta o policial bandido. “Aceitei o convite desse projeto por se tratar de uma homenagem ao Renato Russo, um poeta, um gênio da nossa música”, comentou ele, em meio à gravação de uma troca de tiros, contracenada com atores profissionais e policiais civis de verdade.

O músico Philippe Seabra, criador da Plebe Rude e responsável pela trilha sonora do 
filme: segredo sobre a interpretação da canção que dá origem ao longa (Kleber Lima/CB/DA Press)
O músico Philippe Seabra, criador da
Plebe Rude e responsável pela trilha sonora
do filme: segredo sobre a interpretação
da canção que dá origem ao longa
Entre os protagonistas do longa, há atores que ganharam fama recentemente com participações em tramas globais. Protagonista da minissérie Subúrbia, Fabrício Boliveira interpreta João de Santo Cristo, o rapaz pobre do interior da Bahia que se muda para Brasília em busca de uma vida melhor. Já Maria Lúcia, a quem Santo Cristo o coração prometeu, é vivida por Ísis Valverde, que fez a piriguete-maria-chuteira Suellen, da novela Avenida Brasil. Jeremias – maconheiro sem-vergonha, que desvirginava mocinhas inocentes e dizia que era crente, mas não sabia rezar, como descreve a letra da música – é vivido pelo jovem ator de teatro Felipe Abib.

Na trama de René Sampaio, o gosto pela maconha leva Maria Lúcia a conhecer os inimigos Jeremias e Santo Cristo. Os traficantes se encontraram pela primeira vez em um casarão do Lago Sul. Jeremias aparece vestido com roupas de couro e um bigodão ao estilo mexicano, típico dos antigos faroestes americanos. Para manter esse clima de bangue-bangue, o diretor escolheu as ruas empoeiradas do Jardim ABC, onde rodou as cenas de Ceilândia do fim dos anos 1970. A comunidade localizada no Entorno recebeu uma cidade cinematográfica e a equipe de Faroeste Caboclo por quatro semanas.

O brasiliense Renné Sampaio, diretor do longa-metragem: filme foi orçado em R$ 6 milhões e ainda precisa de financiamento (Antônio Cunha/Esp. CB/DA Press)
O brasiliense Renné Sampaio, diretor do
longa-metragem: filme foi orçado em
R$ 6 milhões e ainda precisa de financiamento
Para as filmagens no Plano Piloto, os produtores montaram uma base na 609 Norte, numa das unidades do Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb). Eles ocuparam quatro amplas salas do subsolo da faculdade. Cada cômodo foi destinado a uma etapa da produção. Havia espaço para ensaios dos atores, testes de figurinos, pesquisas para cenários, entre outros. Tudo muito organizado para rodar e finalizar o filme.

Com o intuito de não deixar técnicos, atores e todos os outros profissionais perdidos, cada fase da filmagem ficava escrita em quadros fixados nas paredes. Eles também serviam para as fotografias e desenhos dos cenários, roupas, mobílias e todos os objetos usados nas cenas. Entre eles, estava a clássica Winchester 22, escolhida por João para enfrentar o Jeremias. “Como se trata de um personagem, a do filme será especial, banhada a ouro”, revela a produtora Bianca De Felippes.

Outro candango envolvido na obra é o músico Philippe Seabra, fundador, vocalista, guitarrista e letrista da Plebe Rude, banda formada nos anos 1980 em Brasília, como Os Paralamas do Sucesso, o Capital Inicial e a Legião Urbana. Seabra é o responsável pela trilha sonora de Faroeste Caboclo. Trilha que deve incluir a canção-título. Mas como ela aparecerá é o maior segredo do longa. “Aí você quer que eu estrague a surpresa”, responde René Sampaio, ao ser questionado se, em sua obra, a música será tocada da forma original ou não, interpretada por outra pessoa ou banda.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017