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O sorriso que cura

Quando um câncer de mama é encarado como motivo para dar novos rumos à vida, a superação torna-se uma realidade possível em um tempo menor do que o esperado. Na capital federal, onde a média de incidência da doença é uma das maiores do país, essa constatação é ilustrada por belos exemplos

Jéssica Germano - Redação Publicação:20/12/2012 16:58
As histórias variam. Uma dorzinha que começou mais leve, uma genética pouco sortuda ou a percepção de um corpo estranho. Os desfechos, porém, têm pontos em comum: experiências que seguem para a vida. Quem passa por um episódio de câncer, além de ser reconhecido facilmente pelas mudanças físicas que acontecem por conta do tratamento, acaba se tornando referência para as pessoas que se interessam pelo assunto. Foi nessa posição de porta-voz que Luciene Araújo usou seu caso para motivar outras pessoas que enfrentam a doença. “Eu queria ser uma prova viva para mostrar às pessoas que é possível superar tudo”, conta.

Munida dessa vontade, a professora criou um blog (www.superacao-lu.blogspot.com.br) onde conta, os processos pelos quais passou por conta da fase em que conviveu com um câncer de mama.

Ela define esse momento como uma valiosa etapa e comemora, a cada postagem, a oportunidade de viver sempre um dia a mais. “Faz quatro anos que eu renasci para a vida”, declara, completando que nunca considerou a doença como um fator que poderia lhe tirar algo, mas como um processo que lhe acrescentou muito, inclusive a possibilidade de novas experiências. “Quantas pessoas não tiveram essa oportunidade e não puderam viver outras coisas?”

É no diário virtual, intitulado adequadamente de Superação, e bastante acessado em países como Estados Unidos, Portugal e Alemanha, que Luciene conta como tem vivido e estimula outras pessoas a fazerem o mesmo. Além do blog, a doença também permitiu a descoberta de um dom: o trabalho artesanal. O talento começou a ser explorado ao dar aulas em um hospital da rede pública e acabou se tornando um projeto social que hoje preenche seu dia a dia. “É uma terapia”, define. Segundo ela, a atividade a fez desencanar de pensamentos negativos, naturais durante o processo.

Em meio a uma rotina corrida,  a consultora comercial Cristiane Bittercourt descobriu fazer parte do mesmo “grupo” de Luciene. Três meses depois de um pedido de casamento, ela teve de lidar com a possibilidade de ter de abandonar os maiores sonhos da sua vida: o ritual do matrimônio e a construção de uma família. Não foi fácil colocar todos os planos na gaveta e passar, paulatinamente, uma etapa por vez. Com o diagnóstico de câncer em mãos, em janeiro de 2011, Cristiane lembra que teve um mês de notícias desanimadoras – a descrição do tipo mais agudo da doença e a prescrição de que dosagens fortes de medicamento poderiam deixá-la infértil. Nesse momento, perder a cabeça parecia o caminho natural, mas não foi o percorrido. “Você tem duas vias: a desesperadora ou a que você pode amenizar o seu sofrimento”, diz. Ela conta que sempre teve certeza da cura, com fé e uma felicidade visivelmente encorajadora.

O apoio da família e dos amigos foi, segundo Cristiane, essencial. A participação do noivo, o analista de negócios Lewander Pedrosa, porém, foi o que deu estabilidade para ela acreditar que os sonhos interrompidos poderiam ser concretizados adiante. “Ele é muito para cima. Isso me ajudou muito”, conta. “Se a gente não se afastou até agora, nada mais no mundo nos separa”, completa Cristiane, comemorando a nova data do casamento, em junho de 2013.

Assumir a doença, sem vergonha da cabeça careca ou do vazio da mama recém-operada, trouxe consequências inesperadas. Muita gente pedia informações sobre seu estado de saúde. Então, por mensagens e fotos em redes sociais, Cristiane começou a contar passo a passo o tratamento, para que todos pudessem acompanha-la. Ao contrário do que se poderia imaginar, os e-mails chegam em tom de brincadeira e demonstram bom humor. O título do álbum que narra a sequência do tratamento no Facebook anuncia a ideia das fotos: “Nunca deixe de sorrir”.

Depois de participar de um concurso de fotografia e ganhar uma viagem para Gramado (RS) por receber o maior número de curtidas na rede social, Cristiane viu na sua história também a possibilidade de encorajar outros frente ao câncer. “Hoje, o meu objetivo é ajudar outras pessoas a enfrentar a doença”, declara.

O médico João Nunes, coordenador da especialização em oncologia do Hospital Universitário de Brasília (HUB), fala da relação direta entre os sistemas do nosso corpo, como o psicológico e o imunológico, por exemplo, e como a química entre eles pode influenciar um tratamento de câncer. O fenômeno é conhecido na medicina como psiconeuroimunoendocrinologia. “Uma paciente que tem depressão pode alterar negativamente seu sistema imunológico, neurológico e endocrinológico. Assim como o inverso também é verdade”, esclarece.

Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca), a taxa de sobrevida, após cinco anos do diagnóstico de câncer de mama é de 62% em nível mundial. Entretanto, mesmo com constantes boas notícias sobre os avanços medicinais para tratar a doença, o quadro requer cautela. O Distrito Federal está entre os estados com maior incidência de câncer de mama. Por aqui, 62 entre cada 100 mil mulheres têm a doença. A previsão é de que até o final de 2012 880 brasilienses tenham o diagnóstico.

Mas são vários os exemplos otimistas de enfrentamento da doença. Faltando um ano para concluir um curso de bussiness na Austrália, a notícia de um nódulo no seio não era o que Joana Jeker esperava para seus planos pessoais e profissionais. O diagnóstico acabou alterando todas as expectativas que ainda estavam tomando lugar. “Ter de abandonar o sonho (de morar fora) foi difícil. Mas outros sonhos virão”, aposta ela.

Com essa segurança, ela voltou para Brasília, onde se tratou perto da família. “Se você é uma pessoa para baixo e acredita que vai dar errado, pode ser que dê mesmo”. Para Joana, o grande trunfo foi acreditar na cura, por menores que fossem as chances. “É um sentimento que vem de dentro para fora.”

Hoje curada, Joana tem um dia a dia cheio, há mais de um ano composto pelas demandas da organização não governamental Recomeçar – projeto fundado e presidido por ela para dar suporte a pacientes com o mesmo diagnóstico –, a mulher “de peito”, como definem quem passou por essa experiência, vive uma vida normal.  Com planos de futuro e com uma autoestima de dar inveja a mulheres de corpos esculturais. “Sabe como a pessoa tem um pneuzinho aqui ou outra coisa ali? Eu tenho cicatrizes”, simplifica.

A advogada Verônica Almeida também decidiu inconscientemente amenizar seu tratamento. Com um câncer de mama diagnosticado há sete anos, mas já curado, e agora com uma metástase óssea, ela aprendeu a levar uma vida sem medo do amanhã. Quem ouve seus relatos de viagem, a preocupação com a aparência nas fotos e as brincadeiras constantes não desconfia da luta diária que enfrenta. Há quatro anos em processo quimioterápico sem interrupção, ela aprendeu a administrar a doença e a viver bem, sem que o câncer tomasse um espaço maior do que merecia.  “Não tem dias em que você acorda e diz: ‘Eu não quero sair da cama’? Todo mundo tem”.

Descolada, vaidosa e emotiva assumida, Verônica dividiu suas experiências no livro Câncer? Não, sou de Aquário. “Nesses cinco anos eu ousei, fiz diversas viagens, escalei ruínas incas, chorei e, mais do que chorar, sorri demais”, resume, logo nas primeiras páginas da obra. O projeto tornou-se uma espécie de diário, onde ela demonstra que ficou com “pressa de viver”. “Antes, eu tinha outras prioridades. Agora eu me priorizei”, diz.
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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017