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Entrevista I Agnelo Queiroz »

"Fizemos uma faxina"

Prestes a concluir o segundo ano de mandato, o governador Agnelo Queiroz diz que acabou com privilégios de grupos. Agora, é hora de Brasília decolar

André Lamounier - Editor Lilian Taham - Publicação:09/01/2013 14:42Atualização:09/01/2013 15:26

 (Minervino Júnior/En contro/DA Press)
 

Se mandato eletivo pudesse ser comparado a um jogo de futebol, a partida em que Agnelo Queiroz (PT) entrou em campo estaria quase para completar o primeiro tempo. Perto de finalizar o segundo ano de sua administração na chefia do Distrito Federal, o petista acredita que marcou gols, como o enfrentamento do cartel do transporte público, o investimento em uma Secretaria de Transparência e a decisão de erguer o Estádio Nacional. Admite, no entanto, bolas na trave, como a dificuldade de elevar a saúde ao patamar que considera ideal. No intervalo do jogo, o governador prevê que os melhores lances de sua gestão ainda estão por vir, no segundo tempo.

É para 2013 que seu time vai se concentrar no ataque. Em 2012, boa parte da equipe do governo trabalhou na defesa, o que Agnelo atribui à decisão de enfrentar grupos e ferir interesses em nome da melhoria na administração “Como enfrentei vários setores estabelecidos aqui, cortando privilégios de vez, tomei tantos tiros que nem sei da onde partiram”, diz Agnelo. O governador confia que o momento de colher o resultado na mudança radical de políticas públicas está próximo e será sentido a partir de 2013.

Agnelo Queiroz recebeu Encontro Brasília na residência oficial de Águas Claras, onde detalhou dificuldades administrativas do passado, enfrentamentos do presente e perspectivas para o futuro. Mais do que conjecturas políticas, o governador do DF falou um pouco de si, de seus gostos, como a pintura e o futebol, e de desgostos, como determinadas atitudes “mesquinhas” na política. Contou que busca na família inspiração e apoio para se manter em campo.

Desafiado para um bate-bola sobre personagens políticos, o governador disse muito, mesmo quando evitou falar explicitamente. Sobre Tadeu Filippelli (PMDB), seu vice-governador, foi detalhista: “Um grande companheiro que eu conheci muito mais agora na própria gestão e sobre quem a cada dia amplio minha admiração por sua dedicação e compromisso”. Quanto a Rodrigo Rollemberg e Cristovam Buarque, foi lacônico: “É um senador aqui do DF”, sobre o primeiro, e “foi um grande professor da UnB e governador”, quanto ao segundo. Ambos, embora tenham sido aliados na campanha, tornaram-se críticos ao governo e se afastaram de Agnelo.

O chefe do Executivo da capital da República tocou em pontos que lhe renderam elogios ao longo de sua primeira etapa, como o resgate da confiança de instituições de fomento no exterior, e abordou temas polêmicos, como a decisão de manter o projeto da construção do Estádio Nacional, com dimensão e orçamento gigantescos: “O Estádio é o carro de uma locomotiva, é o que vai puxar investimento de toda ordem. Será uma arena multiuso, cultural, com restaurantes, teatro, um centro comercial. Até futebol vai ter por lá”.

'Faltaram coragem e independência dos governantes para enfrentar esse cartel (do transporte)' (Minervino Júnior/En contro/DA Press)
"Faltaram coragem e independência dos
governantes para enfrentar esse
cartel (do transporte)"
ENCONTRO BRASÍLIA – Recentemente, o senhor recorreu ao desenho da cidade, em formato de avião, para fazer a metáfora de que Brasília vai decolar. Do que a cidade ainda precisa para sair do chão?

AGNELO QUEIROZ – Nestes dois últimos anos, colocamos a casa em dia. A situação era indescritível, de caos administrativo, financeiro e de credibilidade. Fizemos uma faxina, traçamos políticas públicas estruturantes para diversas áreas, que mudam completamente a realidade das pessoas. Por exemplo, estamos investindo na garantia de um transporte coletivo de qualidade. Da mesma forma, estamos mudando a política pública de saúde, antes centrada nos hospitais. Agora, estamos priorizando a atenção primária para rede de urgência e de emergência.

Há mudanças ainda na política de resíduos sólidos, habitacional, em que antes se doava o lote puro e agora entregamos a casa ou o apartamento, tudo feito de maneira transparente. Estamos olhando para frente, não mais apenas corrigindo o que nos foi deixado. Isso nos fará voar.

O senhor falou em caos e em faxina. Poderia dar exemplo do que encontrou e das mudanças que fez?

Não tínhamos, por exemplo, controle nenhum da gestão do transporte, que estava nas mãos de uma empresa privada, a Fácil. O governo não sabia nem para quantas pessoas bancava a gratuidade. Eram pagos R$ 9 milhões por mês a esse sistema.

Quando assumimos, baixamos para R$ 3 milhões. Descobrimos 2 mil cartões clonados.
Quem não se lembra que todo mês se formavam filas intermináveis para as pessoas terem acesso ao benefício? Isso é caos administrativo. Na saúde, tínhamos uma tragédia administrativa, porque a área estava toda centrada nos hospitais, sem medicamentos, com uma estrutura deteriorada.

Fizemos um grande investimento nesse setor, contratamos 7 mil servidores, abastecemos os hospitais, estamos comprando equipamentos, tecnologia e mudando a política para descentralizar o sistema. Quando iniciamos o governo, havia apenas 12% de cobertura da atenção primária, hoje esse índice aumentou para 30%. Temos quatro Upas (Unidades de Ponto Atendimento) em funcionamento. Quem for ao Hospital de Base verá que há 113 ou 114 pessoas internadas, porque eu acompanho essas internações do meu gabinete, verão que é um número razoável. Antes havia superlotação, corredores cheios, homens e mulheres juntos, patologias graves com menos graves, gente entubada no pronto-socorro.

Na área de assistência social havia quatro listas para benefícios, muita gente recebia duplicado. Unificamos essas listas com a ajuda do Ministério do Desenvolvimento Social, um trabalho hercúleo, e já incorporamos 22 mil pessoas que estavam fora do programa de transferência de renda.

Passadas, então, as fases do caos e da faxina, como o senhor classificaria 2012, que está para terminar?

Já começamos a entregar muitos produtos, porque, enquanto colocávamos a casa em dia, também elaborávamos nossas políticas públicas. Estamos fazendo obras importantes, recapeando a cidade paulatinamente. Além das reformas, já inauguramos várias clínicas da família, o Hospital da Criança completou um ano, um lugar incrível, onde atendemos 5 mil crianças por mês, com um padrão altíssimo de dignidade e tratamento humanizado.

O que faltou para Brasília levantar voo desde o princípio de sua gestão. É possível conquistar no ano que vem o que ficou para trás?


Faltava o preparo, recuperar a credibilidade. Reatamos as relações com organismos internacionais; visitei quase todos esses órgãos, não apenas os que têm representatividade no Brasil, mas também os de fora; renovei prazos e projetos.

Tínhamos vários convênios em andamento, mas alguns foram interrompidos em função da crise política. Agora já estamos discutindo com os bancos novos projetos, como o de saneamento para o Sol Nascente, a segunda maior favela do Brasil em número de população. Estamos regularizando essa região, investindo R$ 250 milhões.

Temos a meta de chegar a 100% de saneamento no DF. Até a forma como fomos recebidos pelos organismos internacionais que nos propuseram participar de um piloto para que nós sejamos exemplo para o mundo em sustentabilidade é um sinal do nosso trabalho e do resgate de credibilidade. A quantidade de eventos internacionais que vamos receber em Brasília, que já somam 19, é outro indicativo de que o que se acerta aqui será respeitado.

A cidade é a extensão da nossa casa. Com uma agenda tão movimentada com a qual o DF se comprometeu, o senhor assegura que Brasília está preparada para receber bem seus convidados?

Vamos receber bem. Brasília é a síntese do Brasil, é moradia de brasileiros de todos os lugares, a cidade do encontro, de acolher, onde os brasileiros se reuniram e construíram um lugar de todos. A nossa marca é a da alegria e da hospitalidade, tenho certeza de que Brasília dará um exemplo para o Brasil de saber receber bem o turista, os nossos visitantes, com carinho e alegria.

E organização?

Também. Vamos mostrar que temos capacidade. Estamos preparando essa infraestrutura. Com a agenda de grandes eventos, deixaremos um legado que é permanente para a cidade. O evento passa, mas os investimentos em mobilidade urbana que estamos fazendo, na arena, em hotelaria, serviços, aeroporto, tudo isso vai ficar para a cidade.

Saúde era uma marca da sua campanha. Na metade de seu governo, o senhor diria que fez o que deveria ser feito nessa área?

Não. Ainda estamos longe da qualidade que queremos. É preciso melhorar a parte da gestão, trabalhar a humanização da saúde. Temos excelentes profissionais, uma rede extensa, mas o modelo era equivocado e agora está sendo modificado, com uma mudança de cultura, tanto da saúde em si, como também da população, que se acostumou a ser atendida apenas em hospitais. Mudar essa cultura não é fácil.

Por que, em 50 anos de uma cidade planejada, o transporte público de qualidade ainda é uma carência?

É a primeira vez que estamos fazendo esse enfrentamento. Estou lutando para cumprir a lei. Faltaram coragem e independência dos governantes para enfrentar esse cartel. O interesse antes priorizado era dos permissionários do sistema de transporte, das empresas, não da população. Estamos invertendo isso.

Quando decidiu enfrentar os empresários do transporte, sofreu represálias?

Uma resistência muito grande, uma verdadeira guerra judicial, com liminares de tudo quanto é jeito. Chegaram a anunciar que não conseguiríamos fazer a licitação para ônibus. Tentavam afugentar outras empresas para que não viessem para cá. Como enfrentei vários setores estabelecidos aqui cortando privilégios de vez, tomei tantos tiros que nem sei de onde partiram. Tentaram até derrubar o governo, mas não posso responsabilizar esse ou aquele grupo especificamente. Em uma área, no entanto, sei que isso ocorreu, porque felizmente as investigações operação da Monte Carlo demonstraram.

As gravações da operação demonstram o interesse de pessoas envolvidas com o crime em Goiás querendo entrar aqui e não conseguindo. Ao não obterem sucesso, partiram para derrubar o governo. Quando ganhei a eleição, assumi um compromisso com a população de ser intransigente com a corrupção. A primeira medida que tomei foi criar uma Secretaria de Transparência, que hoje é referência no Brasil. Só nessa fase inicial do governo, a pasta trabalhou em 14 mil auditorias, não há outra unidade da federação com essa marca.

Um dos projetos mais suntuosos do governo é o Estádio Nacional, que o senhor herdou do antecessor. A decisão de tocar a obra lhe rendeu críticas. Por que enfrentar o desgaste?

Mesmo em uma situação administrativa de terra arrasada era preciso pensar no futuro e projetar a cidade. Identifiquei que eventos grandiosos seriam a oportunidade de ouro para inserir nossa cidade no plano internacional. A partir disso surgiu toda uma política de investimento para atrair o público. Como fui ministro do Esporte, acompanhei grandes eventos no mundo, sei da importância estratégica que têm para a cidade. E assim, mesmo sob críticas, porque muitos defendiam que se fizesse um estádio pequenininho, tomei a decisão de construir o estádio.

Em que condições pegou a obra?

Não peguei o projeto do zero, peguei do menos um, porque tive de derrubar até a arquibancada para fazer o resto. Tinha em mente que, quando se discutisse a indicação das sedes, nós deveríamos estar bem colocados, porque não somos nem centro econômico, nem centro desportivo do Brasil. Só havia um jeito de ter uma boa posição na Copa: fazer uma boa lição de casa. Eu fiz.

O estádio é o carro de uma locomotiva, é o que vai puxar investimento de toda a ordem. Só de transporte público, vamos fazer investimento da ordem de R$ 3 bilhões, a modernização do aeroporto, a rede hoteleira sendo renovada, as melhores marcas de restaurantes vindo para cá. O Estádio será uma arena multiuso, cultural, com restaurantes, teatro, um centro comercial. Até futebol vai ter por lá.


JOGO RÁPIDO

Como o senhor se define como pessoa?
É difícil (risos). Tenho dificuldade de falar de mim mesmo.

Sua maior qualidade é...
Ser um humanista.

Seu maior defeito é...
Teimosia.

Tem hobbies?
Corrida, a pintura, o futebol, que quase toda semana jogo.

Para que time o senhor torce?
Botafogo. E o Gama, claro.


Qual a importância da família em sua trajetória?

Total. Minha família é muito unida. É meu sustentáculo. Nas decisões importantes, nas disputas, a gente sempre sentava e conversava. Fui deputado distrital, federal por três mandatos, fui ministro e concorri ao Senado em uma disputa violentíssima. A mais delicada campanha, no entanto, foi para o governo. Sabia que enfrentaria uma organização perigosa, meus filhos tiveram de sair da cidade por um momento, porque esse era o nível da política no DF. Foram momentos difíceis.

Qual a maior alegria que a política já lhe deu?
São muitas. Mas tem uma que considero mais: sou autor da lei de financiamento do esporte olímpico e paralímpico no Brasil, que é comparado antes e depois da lei. Para um homem público, isso é fantástico.

A maior mágoa da política?
Quando o interesse pessoal prevalece sobre o interesse da sociedade. O maior problema da política são as visões mesquinhas, pequenas.

 (Minervino Júnior/En contro/DA Press)

QUEM É

 

Agnelo Queiroz, 54 anos


CARREIRA


É médico e governador  do Distrito Federa.

 

Já exerceu mandatos de deputado distrital e, por três vezes consecutivas, deputado federal.


Foi ministro do Esporte.


É casado com a médica Ilza Maria e tem dois filhos, Fernanda e Guilherme.






UMA FRASE PARA DEFINIR

 

Rodrigo Rollemberg

É um senador aqui de Brasília.

Cristovam Buarque

Foi um grande professor da Universidade de Brasília. Foi governador também.

Dilma Rousseff

Grande gestora.

Lula

O maior estadista da história do Brasil.

Vice-governador Filippelli

Um grande companheiro que eu conheci muito mais agora na própria gestão e sobre quem a cada dia amplio minha admiração por sua dedicação e compromisso.

Arruda

O governador que colocou nossa cidade na situação mais deprimente da nossa história.

Rogério Rosso

Foi governador em um período muito curto, não teve condições nem legitimidade para fazer algo pela cidade. Conduziu uma transição até o povo escolher o governador.

Agaciel Maia

Grande parlamentar, com experiência, e que tem ajudado muito nossa cidade.

Patrício

É o presidente da Câmara que foi um dos alvos da operação Caixa de Pandora e que na atual gestão está recuperando sua credibilidade.

Ilza Maria

Minha parceira, com quem compartilho todos os sofrimentos, dores e alegrias.

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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017