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Erotismo na veia

Brasília não fica de fora da comoção causada por Cinquenta Tons de Cinza. Outros títulos ganham as prateleiras e fomentam o interesse crescente pela literatura erótica

Diego Ponce Deleon - Publicação:10/01/2013 13:49Atualização:10/01/2013 14:02

Gabriela ficou surpresa com a narrativa erótica do ponto de vista feminino: faz a diferença (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Gabriela ficou surpresa com a narrativa erótica do ponto de vista feminino: faz a diferença
 

Estranho que a concorrida trilogia Cinquenta Tons apareça como novidade no mercado literário. Afinal, os impressionantes 70 milhões de exemplares da série, escrita pela britânica E. L. James, vendidos mundialmente não trazem nenhum teor inusitado ou assunto inédito. Pelo menos, não no que diz respeito ao mote principal do enredo: o sexo.

Há quase 700 anos, Boccaccio relatou passagens eróticas, regadas a luxúria e sedução, em Decamerão, escrito entre 1348 e 1353. A heroína Justine, do polêmico Marquês de Sade, versou sobre sadomasoquismo 200 anos antes do casal Ana e Grey (protagonistas de Cinquenta Tons e adeptos da prática). Em 1955, quando Decamerão voltou a ser proibido na Inglaterra, a insaciável Lolita, do russo Nabokov, ganhava as prateleiras (e a mente dos leitores).

Recentemente, os brasileiros acompanharam as estripulias sexuais de uma senhora, em A Casa dos Budas Ditosos, de João Ubaldo Ribeiro. Ou seja: qual o diferencial desse novo filão, que está deixando as mulheres em polvorosa? Brasília também sucumbiu às fantasias e lê, fervorosamente, os diversos títulos que invadiram o mercado e prometem apimentar as relações.

Toda mulher quer seu príncipe, segundo Priscila: nem que seja apenas na literatura (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Toda mulher quer seu príncipe, segundo Priscila: nem que seja apenas na literatura

A indagação sobre o sucesso do gênero recai até mesmo nos profissionais da área. O médico Gerson Lopes, membro da Academia Internacional de Sexologia, admite dificuldade em compreender o êxito dos livros: “O conteúdo não é novo. Acredito que seja um novo boom, assim como aconteceu em outros momentos. A indústria do erotismo está em franco crescimento e a literatura parece ter pego uma carona”. Seja como for, Lopes não parece estar muito preocupado com as razões da recorrente procura. Prefere celebrar o movimento. “Há inúmeros aditivos que podem enriquecer a vida a dois. A literatura erótica é um deles. Ajuda a quebrar a monotonia, um desastre para a sexualidade do casal”, explica.

Segundo o sexólogo, as brasileiras ainda precisam percorrer longo caminho nesse quesito. “Nas cabeceiras dos estrangeiros, não faltam brinquedos e ferramentas para esquentar a intimidade. Aqui, ainda estamos longe do ideal”, acredita.

O público local parece ter entendido o recado. “Quase metade dos mais vendidos é ocupada por livros do segmento”, revela Gabriela Sartori, gerente de uma grande livraria em Brasília. Da mesma maneira que acontece no mercado mundial, as mulheres respondem pela expressiva maioria entre os consumidores. “Elas saem com os livros na mão. Perguntam por outros títulos. Mas seria incorreto dizer que homens não procuram. Eles também estão lendo”, esclarece. Prova disso é o estudante Felipe Alencar. Ele não somente aderiu ao gênero, como recomenda.
Para a funcionária pública Luciana Emery, todo mundo gosta de conto de fadas: com sexo, é ainda melhor
 (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Para a funcionária pública Luciana Emery, todo mundo gosta de conto de fadas: com sexo, é ainda melhor

Ao mencionar Cinquenta Tons de Cinza, arrisca uma previsão: “O livro explora a mente do leitor de forma sensual, com uma escrita detalhista e sutil. Provavelmente, em breve, novos romances de mesmo conteúdo apareçam por aí”.

Prognóstico atendido. Uma farta parcela do mercado literário atual está tomada pelas obras “eróticas”. Estima-se que, em 2012, mais de 100 milhões de exemplares dos vários “pornôs para mamães” (como foram apelidados) foram comercializados. No Brasil, ultrapassa 3 milhões de cópias, número sem precedente na área.

Para compreender a comoção (e o calor) gerado pelos devassos personagens, nada melhor que beber da fonte. A curiosidade provocada pelo burburinho inicial parece ser combustível comum entre as leitoras. Gabriela Zeni Martins, de 19 anos, não vai se esquecer como tomou conhecimento de Cinquenta Tons: “Quando comprei não sabia sobre o que se tratava, fiquei bem surpresa quando minha mãe (por essa eu não esperava..) me falou do assunto. E, honestamente, fiquei positivamente surpresa!”. De acordo com Gabriela, um dos méritos da autora inglesa foi o ponto de vista feminino: “Um livro erótico escrito por uma mulher, para mulheres. Nunca tinha visto outro assim. O erótico e o pornô ficaram restritos aos homens, então parece ser um grande passo para nós falarmos de sexo abertamente”.

A grande sacada, aos olhos da funcionária pública Luciana Emery, foi o cuidado na dosagem dos elementos do livro: “A autora soube apimentar o romance na medida certa. Todo mundo gosta de contos de fadas, mas as histórias de amor sempre deixam o sexo de lado. Logo isso, que é o diferencial numa relação de casal bem-sucedida!”.

O arquétipo dos personagens masculinos adotado (normalmente, dominadores, sedutores e ricos) aparece como uma acalentada atração para as leitoras e garante a ávida leitura. “Toda mulher sonha com um Christian Grey: bonito, romântico, sensual e com dinheiro suficiente para tornar todos os sonhos realidade”, conta Luciana. Opinião compartilhada pela estudante de veterinária Priscila Duda, de 23 anos: “A enorme procura foi pelo fato de muitas mulheres se imaginarem no lugar da Ana (de Cinquenta Tons). Seja por ele (Grey) fazer coisas inimagináveis, como a levar para andar de helicóptero ou dar-lhe um carro de presente, seja também por ser um homem misterioso, que vai se abrindo e se descobrindo aos poucos”. Priscila, apresentada ao gênero por uma amiga, diz que “toda mulher merece um homem daquele. Nem que seja apenas na literatura”. A servidora Luciana não tem do que reclamar: “Já encontrei meus ‘cinquenta tons’”, brinca.

Resta saber até quando os livros vão aquecer os lençóis. Por enquanto, a fórmula parece render. “Nunca dei tanta consultoria sobre o tema. Amigos escritores me procuram. Querem saber o que não pode faltar na história”, conta o especialista em sexualidade Gerson Lopes, que contabiliza mais de 30 anos dedicados ao assunto. A resposta está na ponta da língua: “Enquanto houver fantasia, há erotismo”. Fica a dica.

Cláudia, a mãe, convenceu a filha Cibele a ler o chamado 'pornô mamãe': 'Será uma experiência nova' (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Cláudia, a mãe, convenceu a filha Cibele a ler
o chamado "pornô mamãe": "Será uma
experiência nova"
De mãe para filha


Cibele Kamchen prometeu que jamais leria nada que fosse considerado “pornô para mamães”. Achou uma grande bobagem o tema. Mas a própria mãe parece ter dobrado a resistência da filha. A enfermeira Cláudia Emília Carmo, de 51 anos, transgrediu os detalhes sórdidos que prevalecem nos livros.

Para ela, a leitura convida para uma discussão bem mais ampla: “A mulher atual deixou de ser passiva. Hoje, tem trabalho, opinião, está mais independente. Ainda existem as submissas, mas acredito que são mais aquelas que querem tirar proveito das situações, com bens materiais e status. Com essa, não me identifico”.

Ela espera que a filha se valha do mesmo: “Quero muito que ela leia, será uma experiência nova. Talvez a ajude a distinguir situações similares”. Convite aceito. “Tirei da cabeça que só encontraria a parte erótica. Estou preparada para um romance com um teor diferente. Já me comprometi a ler”, promete Cibele.

Nada de constrangimentos por causa do assunto. Pelo contrário, a mãe aproveita para fazer um franco desabafo: “Teve uma passagem que parei de ler e fui chorar, mas chorar mesmo de soluçar. Algumas vezes ria muito, falava alto: ‘Que homem lindo, quero um desse’. Também me excitava em algumas partes, afinal, não sou de ferro”. Nada de tons cinzentos na casa de Dona Cláudia. Sobram cores.

O leitor
Felipe Alencar comprou o livro Cinquenta Tons para os pais, que gostaram menos que ele: 'Entreguei e disse 'Toma, pai, vai se divertir com mamãe!' (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Felipe Alencar comprou o livro Cinquenta Tons para os pais, que gostaram menos que ele: "Entreguei e disse 'Toma, pai, vai se divertir com mamãe!"

O estudante de arquitetura Felipe Alencar, de 24 anos, ecoa como voz dissidente entre as fervorosas leitoras do gênero. O contato inicial com a literatura erótica também se deu por meio de Cinquenta Tons de Cinza, uma unanimidade. A intenção primária, porém, difere das demais histórias: “Estava voltando de uma viagem com meus pais e vi o livro na vitrine de uma loja. Como eu e minha família temos muita liberdade, facilidade e humor para tratar de assuntos como esse, comprei o livro, entreguei na mão de meu pai e disse: ‘Toma, pai, vai se divertir com mamãe!’.

Nada feito. O pai deu uma folheada e não aprovou. A mãe pareceu mais simpática à causa, mas o considerou fraco. O próprio Felipe, então, resolveu enveredar pelas páginas. A leitura revelou o segredo do best-seller: “As mulheres devem estar muito mais à vontade para experimentar o novo”.

Além do sexo, ele acredita que a descrição do “homem perfeito” acaba seduzindo o público feminino. Ele não se incomoda em fazer parte dos poucos leitores do sexo masculino e se diverte com alguns episódios: “Toda vez que encontro alguém na rua lendo algo do tipo, no trabalho ou na faculdade, eu olho com aquela cara de segundas intenções: ‘Ahá! Eu sei o que você está pensando!’”, brinca.

 

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017