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DEZ PERGUNTAS PARA | ROBSON CAETANO »

Muito além das pistas

O maior velocista da história do atletismo brasileiro não se cansa. Aposentado das pistas desde 2001, Robson Caetano diz que o trabalho como comentarista esportivo é uma fonte de adrenalina - mas não a única. Agora, ele mira a cidade de Brasília para receber seu projeto social

Jéssica Germano - Redação Publicação:10/01/2013 15:34Atualização:10/01/2013 15:44
'Tem um sonho que eu ainda não concretizei, que é vir à capital federal para um voo livre', diz Robson Caetano (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
"Tem um sonho que eu ainda não concretizei,
que é vir à capital federal para um voo
livre", diz Robson Caetano
O adolescente que saiu de uma comunidade pobre do Rio de Janeiro cresceu, aprimorou suas potencialidades e superou obstáculos mundo afora. Depois que se tornou referência na categoria em que representava milhões de brasileiros em competições esportivas, arriscou novos caminhos, inclusive nas artes cênicas e na dança de salão.

Hoje, aos 48 anos, Robson Caetano é comentarista esportivo na TV, porta-voz de duas empresas que lidam com eventos e gerenciamento de carreiras de atletas, lidera um instituto voltado para ações sociais e carrega uma paixão que pouco tem a ver com os metros rápidos pelos quais corria: o voo livre. E é no céu de Brasília que ele sonha voar rajadas ainda não experimentadas. No terreno de novos projetos, a capital também faz parte do cenário – a ideia é implantar atividades do Instituto Robson Caetano no cerrado e levar o atletismo a áreas carentes do Distrito Federal.

De passagem por Brasília, o medalhista olímpico contou os seus planos para o futuro e o momento delicado pelo qual passa o atletismo brasileiro. Determinado, ele mostra por que conquistou 23 títulos brasileiros, 18 títulos sul-americanos e três Copas do Mundo: “Você tem que ter objetivos claros”. E revela: “Minhas metas de vida hoje estão muito relacionadas a ajudar pessoas”.

1 | ENCONTRO - Você parou de atuar diretamente no atletismo há mais de 10 anos. Do que mais sente falta da vida de esportista?

ROBSON CAETANO - Da adrenalina da competição. Porque isso é o que move o atleta no treinamento. Não é nem a medalha. É a competição, aquele sentimento de”meu Deus do céu, é agora, não tem mais jeito, eu estou aqui’” É disso que eu sinto saudade. Só. Do resto, não. Eu passei realmente a entender que o esporte é feito desses momentos, e o mais sagrado, eu diria, é a competição.

2 | Atualmente, você é comentarista esportivo na TV. É uma maneira de continuar perto do esporte e se realizar?


É uma maneira menos cansativa, eu diria. É um jeito de permanecer, de ter as notícias da área, ter suas fontes ainda renovadas para ter uma carreira esportiva prolongada. Ao longo da minha trajetória, eu fui entendendo que existia uma possibilidade grande de eu me tornar comunicador do esporte e falar com as pessoas, em uma linguagem bem simples e direta, sobre atletismo.

3 | E essa atividade tem a adrenalina da qual você diz sentir saudade?

Ah, tem. Eu vi vários recordes mundiais serem quebrados; vi o Usain Bolt (atleta jamaicano, considerado por muitos especialistas o mais velocista de todos os tempos) correr os 100 metros e bater o recorde em Pequim; vi a Yelena Isinbayeva (saltadora russa e atual recordista mundial) conquistar medalha no salto com vara e bater o recorde do mundo; vi Fabiana Murer (brasileira, campeã mundial do salto com vara) vencer uma prova em uma competição difícil, em Nova Iorque. Eu não sou mais espectador. Hoje, sou interlocutor do esporte. É algo que me coloca perto, com a mesma adrenalina.

4 | Você tem o Instituto Robson Caetano, que presta serviços amparando jovens em situação de risco e pessoas que sofram de maus-tratos em casa. Quais são os futuros projetos dessa iniciativa?

Há uma avalanche de ideias e coisas concretas que estão acontecendo. Nós já temos uma parceria com o governo do estado do Rio de Janeiro para entrar em 10 comunidades carentes e atingir mil crianças no total. Mas não será um projeto só para crianças. Eu vou visitar as famílias, conversar com os pais. Aqui em Brasília, fui ao Supremo Tribunal Federal e várias pessoas se mostraram favoráveis a essa caminhada do instituto na ação social. E é muito legal ter esse respaldo. Eu diria que você planta uma semente e ela gera frutos. Vamos esperar eles maturarem para a gente colher e degustar.

5 | E como está o projeto de trazer as atividades do instituto para Brasília?

Estamos na fase de precisar conversar mais. O governador Agnelo (Queiroz), que era ministro dos Esportes, sempre se mostrou muito interessado na causa do atletismo. A ideia é a gente proliferar esse projeto e levar para o Brasil inteiro, Brasília está na mira. O instituto criou uma metodologia própria da paciência, de termos paciência com os resultados.

6 | Como é sua relação com a capital?

Eu adoro Brasília. Nós (da agência R2C), inclusive, temos um projeto chamado Heróis do Atletismo, que a Caixa Econômica abraçou e que, basicamente, foi concebido em Manaus e nasceu em Brasília. É um projeto de visitas a escolas públicas para falar sobre a importância do atletismo, e é sensacional. Então, nós estamos sempre passando por aqui. E eu tenho uma relação muito intensa com a cidade até por conta das artes. Vim para cá apresentar duas peças de teatro. Eu subi rampa com o presidente (Fernando) Colllor. E a cidade tem uma história, que o mais incrível é a visão do Juscelino Kubitschek, de olhar para o deserto e dizer: “vou fazer daqui a capital do Brasil” e transformar isso com a ajuda do Oscar Niemeyer. É gostoso saber que existe um oásis no meio do deserto. Com todos os problemas de uma grande capital, mas Brasília é uma meca, eu diria.

7 | No esporte, os atletas são treinados a lidar constantemente com a superação. Como foi trabalhar com esse fator em uma competição de dança?

O Dança dos Famosos (quadro do programa Domingão do Faustão, da Rede Globo) foi um capítulo muito especial na minha vida. Eu, pelo menos, comecei tendo a certeza absoluta de que eu não iria chegar a lugar nenhum. Do atleta, eu só aproveitei a disciplina mesmo. Um dia, tive uma conversa com a Ivonete Liberato, minha parceira na competição, e perguntei: “Você quer ganhar esse negócio? Porque se você quiser, a gente vai estudar pra valer”. E nós fizemos. Ensaiávamos praticamente o dia inteiro, estudáveamos e... conseguimos!

8 | E atualmente você pratica alguma atividade física?

Estou jogando golfe, e faço voo livre há mais de 20 anos, é um esporte que amo. Mas não pratico mais com a frequência de antes. Tem um sonho que eu ainda não concretizei, que é vir a Brasília voar. O céu daqui é maravilhoso e a temporada é fantástica. E eu adotei o vôlei de praia como esporte de fim de semana. Nada muito rígido, são coisas muito à vontade, gosto de me divertir. O grande barato é ir para os lugares e ver a turma toda.

9 | Como você avalia o atual momento do atletismo brasileiro, após uma olimpíada sem medalhas?

Estamos atravessando uma entressafra longa. Vivemos hoje a expectativa de um resultado que possa salvar o atletismo. Temos de começar a pensar de maneira diferente. Eu vou dizer sempre: temos de investir na base. Não adianta pensar no atletismo de alto rendimento se você não planta nada. Fizemos alguns investimentos, e o mais expressivo foi no atletismo feminino e nas provas de campo, onde conseguimos grandes resultados, mas ainda falta. O Brasil tem uma tradição enorme nas provas de saltos, cito Jadel Gregório, João Carlos de Oliveira, Nelson Prudêncio, Ademar Ferreira da Silva e José Teles da Conceição. Essas histórias precisam ser repetidas para os atletas para que eles possam entender que existe a possibilidade. Não é difícil.

10 | Você já tem novas apostas, que estejam impressionando, com chances para 2016?

Nós temos uma realidade, que é a Rosângela dos Santos. Existem questões técnicas que devem ser aprimoradas, mas ela é uma atleta que tem uma vontade muito grande de estar em uma final olímpica. Tem o Aldemir Gomes, que é um atleta velocista do Rio de Janeiro, que se comportou muito bem nos 200 metros nas Olimpíadas de Londres, neste ano, e tem chances reais de ser um futuro recordista dos 100, 200 metros.
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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017