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Saúde I Amamentação »

De peito aberto

É uma dúvida comum, mas especialistas garantem: mulheres que fizeram implantes de silicone podem amamentar normalmente. Algumas, inclusive, até doam lei materno

Maria Vitória - Redação Publicação:22/01/2013 18:24Atualização:24/01/2013 13:38

Vânia Fontes tem dois filhos e, entre uma gravidez e outra, colocou próteses. Com Pedro no colo, ela afirma: 'Com silicone ou não, as duas amamentações foram semelhantes' (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
Vânia Fontes tem dois filhos e, entre uma gravidez e outra, colocou próteses. Com Pedro no colo, ela afirma: "Com silicone ou não, as duas amamentações foram semelhantes"
 

Uma das cirurgias estéticas preferidas por mulheres em todo o mundo é a colocação de próteses para aumentar os seios. São realizados cerca de 1,2 milhão de implantes por ano. Estados Unidos e Brasil são os países campeões nesse tipo de procedimento. E tudo vai muito bem até que, constantemente, a maternidade traz a grande dúvida: amamentar ou não amamentar? Muitas mães “siliconadas” indagam se o seio vai cair, se o produto prejudica o bebê ou altera o gosto e as propriedades do leite, entre várias outras perguntas relacionadas à prótese.

A pediatra Sônia Salviano, especialista em aleitamento materno, garante que tais questionamentos não têm fundamento. “O silicone não interfere na amamentação. As próteses também não alteram a produção ou excreção do leite”, esclarece a médica do Banco de Leite Humano do Hospital Regional de Taguatinga, centro de referência internacional em aleitamento materno.

Segundo Sônia, qualquer mulher fica preocupada com a estética durante a gravidez e na fase de aleitamento. “Mas as mães que possuem silicone e pensam em não amamentar por esse motivo estão equivocadas. Além de a amamentação ser muito importante para a criança e para a relação entre mãe e filho, as próteses não são afetadas quando se amamenta”, garante a pediatra.

'A quantidade de leite produzida por uma mulher está associada ao estímulo hormonal que a paciente terá durante a fase de gestação', afirma o mastologista Sérgio Zerbini, do Hospital de Base do Distrito Federal (Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
"A quantidade de leite produzida por uma mulher está associada ao estímulo hormonal que a paciente terá durante a fase de gestação", afirma o mastologista Sérgio Zerbini, do Hospital de Base do Distrito Federal

O cirurgião plástico Carlos Carpaneda explica que o silicone não sofre nenhum dano durante ou após a amamentação, pois as próteses modernas têm maior proteção contra a contratura capsular. Segundo ele, o que pode ocorrer é a amamentação aumentar a espessura dessa cápsula, o que causa o endurecimento da mama. Mas isso acontece em apenas 2% dos casos e o implante de silicone precisa ser trocado. “O produto não interfere na qualidade ou sabor do leite materno porque ele é um gel de alta coesividade que não ultrapassa a membrana do silicone. Além disso, o implante fica abaixo da glândula mamária, não tendo nenhum contato com o leite”, esclarece Carpaneda.

O tamanho dos seios também não indica se uma mulher terá menos ou mais leite. “A quantidade de leite produzida não está associada ao tamanho de suas mamas, e sim ao estímulo hormonal que a paciente terá durante a fase de gestação”, afirma o mastologista Sérgio Zerbini, do Hospital de Base do Distrito Federal.  E acrescenta que uma mulher pode amamentar normalmente seis meses depois de ter colocado a prótese de silicone, pois os ductos mamários já se adaptaram ao implante.

Renata Monnerat trabalha com marketing e faz parte do grupo de mulheres com próteses que tiveram uma boa experiência durante o período de amamentação.  “Acho que todas nós temos certo medo logo depois do parto, nas primeiras mamadas do bebê.

Depois, aprendemos como é maravilhoso. A minha filha foi amamentada até os 6 meses”, conta. Helena, a filha de Renata, está com 1 ano e sabe que o colo da mãe é o melhor lugar para estar. “Fiquei muito triste quando ela rejeitou o peito, aos 6 meses, depois que contraiu uma gripe. Mas foi tudo normal. Durantes as mamadas tínhamos um momento único, só nosso, uma conexão divina”, diz.

Renata colocou a prótese de 235 ml em 2006. Ao descobrir a gravidez, em 2011, ela se preparou para o nascimento de Helena: fez um curso para gestante e aprendeu que o aleitamento é um ato funcional, natural depois do parto. Ainda na maternidade, deu o peito para a filha, que fez algumas tentativas até sugar o mamilo. Hoje, as mamas estão normais e a prótese também.

Mas há histórias que mostram que o final pode ser também diferente. O pequeno Samuel, de 3 anos, mamou durante dez meses. A irmãzinha, Lívia, de 2 anos, apenas três semanas. A mãe deles, a representante comercial Tarsila Araújo, teve problemas com a prótese de silicone logo depois do parto da menina. Ela sempre teve seios muito pequenos e em 2005 decidiu aumentá-los. Colocou o implante de 285 ml. 
A pediatra Sônia Salviano é médica do Banco de Leite Humano do Hospital Regional de Taguatinga e estimula a doação de leite inclusive por quem tem prótese: 'As mães que têm silicone e pensam em não amamentar por esse motivo estão equivocadas' (Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
A pediatra Sônia Salviano é médica do Banco de Leite Humano do Hospital Regional de Taguatinga e estimula a doação de leite inclusive por quem tem prótese: "As mães que têm silicone e pensam em não amamentar por esse motivo estão equivocadas"

Quando engravidou de Samuel, Tarsila procurou o cirurgião plástico que fez a sua operação e ouviu dele que estava tudo normal. “Fiquei tranquila. O meu filho nasceu e comecei a amamentá-lo sem problema. Foi tudo muito lindo, ele pegou o peito na primeira mamada”, conta Tarsila, emocionada. No terceiro mês, um susto: surgiu um abcesso logo acima da aoréola da mama esquerda. Ela tomou antibióticos e a ferida regrediu. Nesse período, novas visitas a médicos, exames de ecografia e a descoberta de uma pequena infiltração na prótese. A recomendação médica era para a retirada, apesar de não ter interferência ou contaminação do leite materno. Então, Tarsila decidiu continuar com a amamentação e adiou a cirurgia.

Quando Samuel completou 9 meses, uma surpresa: mamãe Tarsila estava grávida novamente. E mais uma vez ela adiou a retirada da prótese.  A menina nasceu em 9 de junho de 2010 e, exatamente um mês depois, Tarsila entrava na sala de cirurgia para retirar as próteses. “Amamentei minha filha só por três semanas. O abcesso voltou, e foi maior desta vez”, conta a mãe. “Os cirurgiões disseram que eu poderia voltar a amamentar Lívia, mas fiquei temorosa. Insegura”, diz. E nos planos futuros não há previsão de colocação de nova prótese. “Acho que pode dar tudo errado”, revela.

Por outro lago, há exemplos inspiradores. Durante sete meses, a sargenta do Corpo de Bombeiros Vânia Fontes ia de sua casa, em Águas Claras, até o Banco de Leite Humano do Hospital Regional de Taguatinga duas vezes por semana.  Ali, ela coletava o seu leite em vidros de 250 ml e doava para outras mães – assim, passou a fazer parte de um grupo especial de mulheres com alta produção de leite, as amas secas. É uma herança genética, transmitida pela sua mãe e tias. Ela faz a doação mesmo tendo próteses de silicone de 285 ml em cada uma das mamas. “O implante não alterou a minha amamentação, apenas deixou o seio esquerdo mais sensível. Dói porque está cheio de leite”, diz Vânia.

Renata Monnerat faz parte do grupo de mulheres que colocaram próteses e tiveram uma boa experiência com a amamentação. 'Tudo normal, minha filha mamou até os 6 meses' (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
Renata Monnerat faz parte do grupo de
mulheres que colocaram próteses e
tiveram uma boa experiência com
a amamentação. "Tudo normal,
minha filha mamou até os 6 meses"
Ela tem dois filhos: Beatriz, nascida em 2005; e Pedro, prestes a completar 1 ano. Ela amamentou a menina por dois anos e nessa fase também tinha muito leite. “Às vezes a mama ficava inchada, dura, e precisava fazer compressas de água quente e esvaziar o peito com uma bomba, o que era muito dolorido”, conta. Em 2007, com as mamas um pouco flácidas, colocou o implante. Com o nascimento de Pedro, as dores ao amamentar ficaram mais fortes.

Depois de consultar mastologistas, fazer exames de imagem, veio a confirmação da alta produção de leite materno. Como volta a trabalhar no início de 2013, os médicos a aconselharam a iniciar o desmame do garoto: ela dá o peito duas vezes ao dia e complementa a alimentação com papas de frutas e de legumes. Para diminuir a produção, usa uma faixa abdominal, com fecho de velcro na lateral, para comprimir as mamas. “Com silicone ou não, as duas amamentações foram semelhantes. Senti menos dores na primeira, mas as mamas incharam, os bicos racharam. Porém, valeu a pena. Pude amamentar meus filhos e os de outras pessoas”, afirma Vânia.


DOIS TIPOS DE IMPLANTE

 

No implante retromuscular, a prótese fica atrás do músculo peitoral. Como é mais invasiva, a paciente leva mais tempo para se recuperar. É indicado para quem tem pouco seio, com formato mais natural.

 

No implante retroglandular, a prótese fica atrás das glândulas. É mais adequado para quem tem seios médios, e a recuperação é um pouco mais rápida.

 

A AMAMENTAÇÃO

 

Mamas normais

 As glândulas mamárias são formadas por diversos alvéolos, que são ligados aos mamilos por dutos. Com a gestação, entram em ação diversos hormônios que aumentam e estimulam as glândulas a produzirem leite. Conforme o bebê suga o leite,
o organismo produz mais líquido e os alvéolos mantêm-se abastecidos.


Com silicone


A princípio, a vida das mamães siliconadas não muda. Quando o bebê estimula o mamilo e a aréola, um hormônio chamado oxitocina contrai os alvéolos e dutos, expulsando o leite. Só em casos extremos, se a prótese for muito exagerada, a região das glândulas pode ficar muito pressionada pelo implante e acabar atrofiando, prejudicando a produção e o fluxo do leite.

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017