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Os anônimos do Congresso

Quem são as pessoas que servem ao país e, de quebra, acompanham os bastidores do poder: do garçom do plenário do Senado ao funcionário que registra a presença dos deputados na Câmara

Eunice Pinheiro - Redação Publicação:23/01/2013 14:23Atualização:23/01/2013 15:07

QUEM É: CLODOALDO SILVA DOS SANTOS - É funcionário de serviços gerais e, desde 1997, responsável pela limpeza do plenário do Senado. Ganhou fama desde que decidiu fazer desenhos alusivos ao Brasil e a Brasília no tapete azul do plenário. Achava monótona a decoração do lugar. A cada 15 dias, faz uma arte nova. Muitos o consideram um verdadeiro artista, mas ele prossegue sua rotina na limpeza. 'Quis acrescentar uma imagem de patriotismo e inovar um pouco'.
 (Fotos: André Correa/Esp. Encontro/DA Press)
QUEM É: CLODOALDO SILVA DOS SANTOS - É funcionário de serviços gerais e, desde 1997, responsável pela limpeza do plenário do Senado. Ganhou fama desde que decidiu fazer desenhos alusivos ao Brasil e a Brasília no tapete azul do plenário. Achava monótona a decoração do lugar. A cada 15 dias, faz uma arte nova. Muitos o consideram um verdadeiro artista, mas ele prossegue sua rotina na limpeza. "Quis acrescentar uma imagem de patriotismo e inovar um pouco".
 

Ele passa o ano recolhendo sementes sob as árvores de Brasília. Tem até um calendário para nortear o trabalho. Sabe que dezembro é o mês de colher as sementes de flamboyant e de pau-brasil; em janeiro, é o momento propício para as de sucupira e oitizeiro. É com essas sementes que Jairo Luis Brod, secretário da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, faz milhares de mudas de árvores e distribui para os colegas de trabalho e moradores de Brasília. “Foi a forma que encontrei para contribuir com a humanização de nossa cidade”, explica o paranaense de 54 anos, que tem um desejo simples: tornar a vida diferente.

Jairo, o catador de sementes, é uma das pessoas que trabalham – e nesse caso não é mera força de expressão – no Congresso Nacional. Ele integra o contigente de anônimos que contrariam a imagem de que o Legislativo é uma casa sem lei, embora seja o seu papel fazê-las. Entre as 30 mil pessoas que circulam diariamente pela Câmara dos Deputados e pelo Senado, há inúmeros trabalhadores que, além de ajudar essa gigantesca engrenagem política a funcionar, são apontados como verdadeiros agentes de transformação social, seja pelo carisma, pela função ou seja pelas duas coisas combinadas. Se numa primeira olhada é difícil identificá-los, observando mais atentamente percebe-se que eles estão por ali. E, para nossa surpresa, não são tão poucos.

QUEM É: JAIRO LUIS BROD - Secretário da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados e educador ambiental nas horas vagas. Costuma distribuir mudas de plantas e decorar gabinetes e corredores da Câmara em datas temáticas, como festas juninas. 'Muitos me consideram louco, destrambelhado, carente. Acho que falta tolerância para com os que são diferentes. Mas é fazendo isso que eu me sinto bem.' (Fotos: André Correa/Esp. Encontro/DA Press)
QUEM É: JAIRO LUIS BROD - Secretário da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados e educador ambiental nas horas vagas. Costuma distribuir mudas de plantas e decorar gabinetes e corredores da Câmara em datas temáticas, como festas juninas. "Muitos me consideram louco, destrambelhado, carente. Acho que falta tolerância para com os que são diferentes. Mas é fazendo isso que eu me sinto bem."

Tão logo começamos a busca, vários dedos apontam para Jairo Brod. Ele mora em Taguatinga, dirige um Uno Mille 2004 e não usa cartão de crédito. Vaidade, só com os mais de 5 mil livros da estante de casa. Jairo Luis Brod é secretário da Comissão de Educação da Câmara. É ele quem, em conjunto com o deputado presidente da Comissão, define os projetos que deverão ser votados, organiza as audiências públicas e garante o funcionamento diário da comissão. “A educação salva as pessoas. Para mim, é mais que trabalho. É uma paixão”, explica.

Por acreditar tanto no poder da educação, Jairo partiu para os projetos com a comunidade. O desejo de viver numa cidade mais arborizada e de dar noções de ecologia para crianças o levou a cultivar e distribuir mudas de árvores. Ao todo, já foram mais de 3 mil mudas doadas. O cultivo é feito com a ajuda das crianças. “Junto a meninada, preparamos os saquinhos, semeamos e, como tenho de trabalhar, eles regam e cuidam para que ninguém deprede. Trabalham com tanto carinho, que chegam a batizar cada planta que nasce”, conta Jairo.

Foi assim com uma muda de ipêbranco, batizada pelos meninos de “véu de noiva”. Ela foi plantada numa esquina da QND 21, em Taguatinga. Na primeira florada, transformou-se num cartão-postal. Um belo dia, a administração de Taguatinga cortou a árvore. “Foi uma comoção geral. A população ficou revoltada”, lembra Jairo.
Jairo Brod também organiza torneios de queimada, corrida, basquete, carrinhos de rolimã e jogos entre as crianças de Taguatinga Norte. Os gastos saem do bolso dele. “Essa foi a forma que eu encontrei para tirar os meninos da frente do computador”, justifica.

Senador Eduardo Suplicy (PT-SP)
Café com pouco açúcar e água gelada (Edilson Rodrigues/CB/DA Press)
Senador Eduardo Suplicy (PT-SP)
Café com pouco açúcar e água gelada
Transformar o ambiente que o cerca é um hobby. Na Câmara, é ele quem mobiliza os colegas para enfeitar os corredores e salas em datas comemorativas, como São João e Natal. “Isso humaniza o ambiente de trabalho e integra os colegas. Muitos me consideram louco, destrambelhado, carente. Falta tolerância para com os que são diferentes. Mas é fazendo isso que eu me sinto bem”, justifica.

A discrição e presteza do garçom do plenário do Senado José Antônio Paiva Torres, o seu Zezinho, também o destacam no Congresso. E fazem dele um funcionário imprescindível para os senadores. A cumplicidade é grande. “Sirvo os senadores no plenário há quase 20 anos. Sei do que cada um gosta. Não precisa nem pedir”, explica Zezinho.

Sendo assim, basta o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) apontar na porta para que sobre a mesa dele sejam colocados café – com pouco açúcar – e água gelada. O mesmo acontece na chegada da senadora Ana Amélia (PP-RS ), que prefere o café ralinho, com dois dedos de café e o restante da xícara completado com água. Já o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) só toma café descafeínado com adoçante, enquanto Aníbal Diniz (PT-AC) prefere os chás de boldo.
QUEM É: JOSÉ ANTÔNIO PAIVA TORRES (Conhecido por seu Zezinho) - É garçom do plenário do Senado há 20 anos e sabe de cor as preferências dos senadores. Sabe, por exemplo, a quantidade 
de açúcar no café de cada um e quem prefere chá a café. Também acostumou-se a socorrer os mais exaltados durante as discussões. 'Estou num lugar que é importante para o Brasil, participo da construção de nossa história.' Ali, viu nascer a Constituição de 1988. (André Correa/Esp. Encontro/DA Press)
QUEM É: JOSÉ ANTÔNIO PAIVA TORRES (Conhecido por seu Zezinho) - É garçom do plenário do Senado há 20 anos e sabe de cor as preferências dos senadores. Sabe, por exemplo, a quantidade de açúcar no café de cada um e quem prefere chá a café. Também acostumou-se a socorrer os mais exaltados durante as discussões. "Estou num lugar que é importante para o Brasil, participo da construção de nossa história." Ali, viu nascer a Constituição de 1988.

Calmo e calado, Zezinho caminha de um lado para outro do plenário, muitas vezes sem ser percebido. Já socorreu muitos senadores que, no meio das discussões mais acaloradas, chegaram a perder o fôlego. Nessa hora, corre com um copo de água com açúcar, suco de maracujá ou chá de camomila para acalmar os ânimos. “Tudo o que consegui foi trabalhando como garçom. Além disso, admiro muito os senadores. Estou num lugar que é importante para o Brasil, participo da construção de nossa história”, justifica. Antes de trabalhar no Senado, Zezinho serviu o deputado Ulisses Guimarães.

Foi de lá que ele viu nascer a Constituição Federal de 1988, aprendeu a conviver de perto com os bastidores do poder e a jamais ouvir o que não era dirigido a ele. “Só ouço o que é da minha alçada”, afirma. Com 40 anos de trabalho, nem pensa em se aposentar. Prefere continuar acompanhando de perto a história política do Brasil.

Senador Aníbal Diniz (PT-AC)
Prefere os chás de boldo (Paulo de Araujo/CB/DA Press)
Senador Aníbal Diniz (PT-AC)
Prefere os chás de boldo
No plenário do Senado, outro anônimo leva a sério o ofício. É o funcionário de serviços gerais Clodoaldo Silva Santos. Responsável pela limpeza do plenário desde 1997, Clodoaldo achava monótona a decoração do lugar. Um dia, ao escovar o carpete que cobre a parede da Mesa da Presidência, traçou algumas listras e deixou por lá. A repercussão não foi das melhores. Dias depois, arriscou de novo. O primeiro filho acabara de nascer e ele decidiu homenageá-lo com o desenho da bandeira do Brasil.

“O carpete era feio e o espaço estava desperdiçado. Quis acrescentar uma imagem de patriotismo e inovar um pouco”, explica Clodoaldo, que nunca imaginou a repercussão que “sua ousadia” provocaria. Por causa dela, já foi entrevistado por gente famosa, como Ana Maria Braga, e é tratado como artista pelos visitantes.

Além da bandeira, o plenário do Senado mantém, no carpete, os desenhos da Catedral e do Congresso. Apesar de nunca ter tido aulas, o trabalho é perfeito. A cada 15 dias, Clodoaldo escova o carpete e reconstrói cada desenho. Com a escova, elabora os contrastes: cerdas para cima dão os efeitos escuros; cerdas para baixo, os claros. “Acho que colaboro para melhorar a imagem do Senado. Isso é patriotismo”, afirma Clodoaldo, que continua limpando o plenário todas as manhãs.
QUEM É: RAIMUNDO NONATO NASCIMENTO DIAS - Trabalha na Chapelaria da Câmara dos Deputados. Sua função? Identificar visualmente e registrar a presença dos deputados. Para isso, precisa memorizar a fisionomia e o nome de 513 deputados. Difícil? Raimundinho decora alguns detalhes, como bigodes, tipos de óculos e até o jeito de caminhar. 'Nós recebemos muito apoio da diretoria. O que dizemos é o que vale. E, para evitar o assédio, esse trabalho só é executado por servidores efetivos. Eles são menos vulneráveis às pressões', garante.  (Fotos: André Correa/Esp. Encontro/DA Press)
QUEM É: RAIMUNDO NONATO NASCIMENTO DIAS - Trabalha na Chapelaria da Câmara dos Deputados. Sua função? Identificar visualmente e registrar a presença dos deputados. Para isso, precisa memorizar a fisionomia e o nome de 513 deputados. Difícil? Raimundinho decora alguns detalhes, como bigodes, tipos de óculos e até o jeito de caminhar. "Nós recebemos muito apoio da diretoria. O que dizemos é o que vale. E, para evitar o assédio, esse trabalho só é executado por servidores efetivos. Eles são menos vulneráveis às pressões", garante.

Na Chapelaria da Câmara dos Deputados, um funcionário pouco conhecido trabalha numa das mais importantes funções da Casa. Raimundo Nonato Nascimento Dias é responsável por marcar a presença dos deputados que chegam à Casa. Raimundinho, como é chamado pelos colegas, fica atrás de uma pequena mesa, logo na entrada da chapelaria. Cada deputado que passa, ele marca a presença no computador. Detalhe: o reconhecimento é visual.

Para memorizar a fisionomia e o nome de 513 deputados, Raimundinho se vale de truques. Procura decorar detalhes, como bigodes, tipos de óculos e até o jeito de caminhar de cada deputado. “Durante um mandato, reconheço todos. Sei o nome completo e até o estado de origem. Mas, se um deputado se afasta um tempo, apago o que tinha gravado”, explica o piauiense, que precisa ser lembrado até do próprio aniversário.

De acordo com Raimundinho, na Câmara, a tensão é constante. Ele coordena uma equipe de seis identificadores. Ninguém pode errar. “Os deputados passam depressa, nem nos veem. A responsabilidade é grande, porque, quando registro a entrada deles, a presidência da Mesa Diretora é automaticamente avisada. A abertura da sessão depende desses dados”, explica o funcionário, que diz ter errado apenas dois nomes em 12 anos de trabalho. Raimundinho garante que não se engana nem se deixa enganar. Mesmo que a pressão venha do alto. Como no caso da assessora que exigia o registro de um deputado. “Ela me ligou pedindo para registrar a presença dele. Eu disse que ele não havia sido identificado, mas ela garantia que ele estava na Câmara.

Senadora Ana Amélia (PP-RS )
Prefere o café ralinho, com dois 
dedos de café e o restante 
da xícara completado com água (Bruno Peres/CB/DA Press)
Senadora Ana Amélia (PP-RS )
Prefere o café ralinho, com dois
dedos de café e o restante
da xícara completado com água
Fizemos uma varredura. Ninguém tinha visto o deputado.” Não contente, a assessora ligou para o secretário geral e exigiu a inclusão na lista de presentes. Corre daqui, corre dali, e os servidores da Câmara conseguiram localizar o parlamentar numa reunião no Palácio do Planalto. Resultado: o nome não foi incluído e a assessora... bem, deixa pra lá.

“Nós recebemos muito apoio da diretoria. O que dizemos é o que vale. E, para evitar o assédio, esse trabalho só é executado por servidores efetivos. São menos vulneráveis às pressões”, diz Raimundinho. Sobre o prazer que o trabalho proporciona, ele é categórico: “Tenho orgulho de servir a essa Casa, onde as leis mais importantes do país são criadas. Contribuo fazendo bem o meu trabalho”.

Érica Carvalho Mandetta também pensa assim. Ela é tradutora de Linguagem Brasileira de Libras na TV Câmara. “Somos o meio que garante a acessibilidade de milhares de surdos”, afirma. Sempre de roupas pretas, exercita todo o seu poder de interpretação, já que a expressão facial do tradutor faz toda a diferença. “Sou feliz porque sei que interfiro positivamente na vida de muitas pessoas”. Em poucos meses, Érica vai dar à luz um menino. Seu desejo é contar a ele que o trabalho pode ser uma fonte de felicidade. Principalmente quando alguém utiliza o que faz para mudar a vida de outro.

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EDIÇÃO 57 | Setembro de 2017