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ENTREVISTA | WASNY DE ROURE »

Um pioneiro do Legislativo

Único político da primeira safra de deputados distritais na Câmara Legislativa, Wasny de Roure assume a presidência da Casa. Sua prioridade é resolver pendências na questão fundiária de Brasília

Ana Maria Campos - Publicação:23/01/2013 15:17Atualização:23/01/2013 15:24

O novo presidente da Câmara Legislativa, Wasny de Roure (PT), é um dos políticos que fazem parte da história da capital. É o único da primeira safra de distritais que ainda tem mandato na Casa. Na estreia, durante a legislatura de 1991 a 1994, dividiu o plenário com o hoje governador Agnelo Queiroz (PT) e com o vice Tadeu Filippelli (PMDB). Naquela época, foi relator da CPI das Terras Públicas, que apresentou ao DF problemas até hoje pendentes de solução.

Nessa trajetória, Wasny integrou quatro legislaturas na Câmara e exerceu um mandato como deputado federal, além de uma suplência. Economista, foi secretário de Fazenda do governo de Cristovam Buarque, em 1995. Agora, mais de duas décadas depois do primeiro mandato, chegou ao comando do Legislativo, com o apoio do governo.

Um dos mais antigos petistas do DF, Wasny acredita que, na presidência da Câmara, terá um papel fundamental no equilíbrio político, que levará o aliado Agnelo Queiroz à campanha para reeleição. Apesar da postura de parceiro, a ponto de tratar a administração do DF como “nosso governo”, Wasny também faz críticas, como a necessidade de ampliação do número de creches.

 (Fotos: Monique Renne/CB/DA Press)
O senhor esteve na inauguração da Câmara Legislativa e continua na Casa, agora como presidente. Houve avanços nesses 20 anos?

A Câmara cresceu como instituição e ocupou espaço maior. Sofreu também alguns golpes, sobretudo na sua credibilidade, mas estamos num processo de continuidade da construção da imagem da Casa.

Alguns deputados envolveram-se em escândalos graves, inclusive na Operação Caixa de Pandora. Esse desgaste atinge a credibilidade dos demais políticos do DF?

Não é nova a expressão que o joio se parece com o trigo. O texto bíblico já trata dessa forma. Mas é preciso ter clareza nos detalhes e na caminhada de cada um. Precisamos ter a responsabilidade de analisar quem está cumprindo dignamente o seu papel e reconhecer a importância da Câmara. A maioria dos políticos de Brasília passou pela Casa, o que demonstra como a instituição impulsionou nomes na vida pública. A Câmara também chegou a expulsar alguns deputados e esse desgaste não foi só do Legislativo. Foi também do Ministério Público, do Tribunal de Contas e do Executivo.

A população entende a importância da Câmara Legislativa?


É preciso analisar o que acontece quando as matérias não são apreciadas na Casa. Por exemplo, quando se debatem o IPVA, o IPTU, o projeto se aprimora. A Câmara foi pródiga em tratar de algumas matérias com repercussão nacional, como o uso do cinto de segurança, a proibição de cigarro nos restaurantes... Tivemos várias iniciativas que colocaram a Câmara numa posição inovadora.

Qual será o seu maior desafio, o grande trabalho nos próximos dois anos?

Queremos estabelecer todos os canais possíveis com a população para que a sociedade possa de fato cobrar, criticar e também contribuir. Queremos introduzir, inclusive, uma sessão deliberativa pública para que aqueles que tiverem interesse possam ter mais facilidade para assistir. Seriam votações, por exemplo, na rodoviária de Brasília, Praça do Relógio, Feira do Guará, Feira da Ceilândia ou na administração do Gama, a depender do assunto que vamos debater.

A TV Distrital no ar também não seria uma forma de aproximar os deputados da população?

Claro. Temos várias iniciativas que queremos debater com os colegas e com a cidade. Podemos resgatar aquilo que já é uma conquista e que está sendo muito pouco usado, como as redes sociais. A Câmara tem de se tornar uma agência de notícias.

O governador declarou apoio à sua candidatura 10 dias antes da eleição. No seu comando, será um aliado dele?

No que é interesse público, fui e sou um aliado. No que colidir com meu ponto de vista, não deixarei de externar. O governo tem maioria, mas o plenário tem a soberana vocação da deliberação. Farei a luta como um deputado, como os demais.

Quais são as suas principais críticas em relação ao governo?

O nosso governo tem de comprar alguns enfrentamentos. É importante perceber que o governo tem opiniões favoráveis a certas coisas e desfavoráveis a outras. Não podemos aceitar a proliferação de ocupações desenfreadas e assistir à omissão de orgãos fiscalizadores. O governo deveria ter feito mais consultas na mudança do Nota Legal. Deveria ter alertado com antecedência e alterado apenas para o ano seguinte. Na política de creche e do ensino superior também há atrasos. Diferentemente, por exemplo, da saúde, área na qual há críticas, mas inúmeras obras em curso.

O PT deve manter a aliança com o PMDB em 2014?

Acredito que sim. Podemos ter divergências com o PMDB. Isso é natural na política, mas eu também tenho assistido a muitas vitórias em virtude da lealdade e da firmeza do vice-governador, Tadeu Filippelli. A aliança do PT e do PMDB foi a demonstração de maturidade na política brasiliense depois de uma crise da envergadura que vivemos em 2009 e 2010.

E a disputa ao Senado nas próximas eleições? O PT deve ter candidato?


Essa é uma discussão que precisa ser feita com os partidos da base. É natural que o PT pleiteie. Essas questões vão se dar a partir de uma leitura nacional. Assim foi com a vaga do (Rodrigo) Rollemberg. Ele foi eleito por conta de uma aliança do PT com PMDB, PDT, PSB, PPS e outros partidos. Brasília tem uma forte inclinação de esquerda e a vitória do Cristovam (Buarque) e do Rollemberg, inclusive, foi uma lição para o PT, que não acreditou que seríamos capazes de eleger dois senadores. Esse foi o grande erro do companheiro (Geraldo) Magela. Ele acreditava que nós elegeríamos apenas o Cristovam. Se ele confiasse num acordo que fizemos lá atrás para que fosse candidato, poderia ser senador do PT.

Magela quer recuperar esse tempo perdido e se candidatar ao Senado?

Ele agora está fazendo um excelente trabalho à frente da Secretaria da Habitação. No DF, mesmo quem não é eleitor dele reconhece a sua capacidade de trabalho.

Os senadores eleitos na aliança encabeçada por Agnelo se tornaram adversários do governo. Como avalia essa posição?

Não tenho a leitura de que são adversários. São críticos. São quadros qualificados, pessoas honradas, em quem votei. Acho que foram prematuras essas posturas de ruptura, contudo respeito. Só ressalto que ambos tiveram no PT um parceiro quando enfrentaram desgaste pelo apoio que deram ao governo Arruda. O PSB entrou no governo pouco antes da Caixa de Pandora.

A exoneração do deputado Cristiano Araújo da Secretaria de Desenvolvimento Econômico por ter liderado um movimento contra a sua eleição representa um rompimento com o PTB?

Não vejo assim. Era uma situação insólita para o governador ter na sua base um secretário que concorria com as posições dele. É uma situação de constrangimento. Ele cobrou lealdade. Não podemos brincar de esconde-esconde. O governador tem respeitado os deputados, acatado as demandas, na medida do possível.

Qual é a importância de um presidente da Câmara nos dois anos que antecedem as eleições ao governo?

São dois anos decisivos. Creio que nos dois primeiros anos tivemos um desempenho histórico, recorde de qualidade. Votamos projetos inovadores, leis de acesso à informação e de melhor controle, a questão do Estatuto do Servidor Público, o Plano Diretor de Transporte Urbano, a atualização do Plano Diretor de Ordenamento Territorial. Tivemos um conjunto muito positivo de matérias. Nesse momento, no entanto, faz muita diferença ser ou não parceiro nos projetos do governo.

Qual a pauta principal de 2013?


Temos duas pautas principais: a votação do Plano de Proteção do Conjunto Urbanístico de Brasília e da Lei do Uso e Ocupação do Solo. A regularização fundiária é uma prioridade.

As condenações do mensalão terão impacto na campanha do PT?

Sempre tem. Mas faço a seguinte leitura: o PT até nisso é inédito na política brasileira. Demonstrou capacidade. A maioria dos ministros foi indicada no governo do PT, o julgamento ocorreu, as condenações também. O PT vai reagir, analisar e fazer a sua autocrítica. Isso vai ajudar o partido.

Não acha que o partido deveria punir quem foi condenado pelo STF?

O PT tem uma leitura de que essas pessoas, a despeito de que não fosse de conhecimento do partido, estavam numa função partidária. Além disso, o mensalão não é novo. Esse é um capítulo de uma novela que começou no outro governo. Sobre esse capítulo, até agora o Supremo não se pronunciou.

Qual é a diferença do governo atual do PT e o anterior, de Cristovam Buarque?


Esse governo está mais com o pé no chão. Na gestão do Cristovam houve avanços na cidadania, no Orçamento Participativo, na criação da Bolsa-Escola, na faixa de pedestres. Naquele momento, conquistávamos um valor, que é a cidadania, direitos e deveres. Foi um paradigma importante que estava sendo reconquistado. Mas o governo do Agnelo enfrentou uma coisa que Cristovam não enfrentou: nós encontramos uma cidade devastada moralmente. E reconstruir uma cidade nessas circunstâncias é muito mais difícil do que fisicamente. É uma questão de valores, de culturas, de hábito , e isso Agnelo está enfrentando.

QUEM É

 (Fotos: Monique Renne/CB/DA Press)
Wasny Nakle de Roure
61 anos
Casado e pai de três filhos

ORIGEM


Goiânia (GO)


FORMAÇÃO


Mestre em economia pela Universidade Federal de Minas Gerais e pela Universidade
de Oxford, na Inglaterra


CARREIRA


É presidente da Câmara Legislativa do DF.

Está no quarto mandato como deputado distrital.

Já exerceu um mandato de deputado federal.
Em 1995, foi secretário e Fazenda do DF, no governo de Cristovam Buarque.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017