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PERFIL | Jorge Ferreira »

Feitiço que deu certo

Escritor, letrista e sociólogo, Jorge Ferreira, um dos mais bem-sucedidos empresários da cidade, é também um boêmio que liga pessoas a boas histórias (e vice-versa!)

Jéssica Germano - Redação Publicação:24/01/2013 13:40Atualização:24/01/2013 14:40

Um mineiro que conquistou Brasília, o empresário Jorge Ferreira tem um jeito particular de lidar com seus negócios: 'Não acredito no homem sem utopias' (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
Um mineiro que conquistou Brasília,
o empresário Jorge Ferreira tem
um jeito particular de lidar com seus
negócios: "Não acredito no homem
sem utopias"
Em tempos de capitalismo ferrenho, trabalhar, ter uma boa remuneração e exercer o que gosta nem sempre são desejos que se aliam em um caminho ao longo da vida.

Conseguir a combinação desses três itens e ainda acumular uma vasta rede de amigos – que inclui desde importantes figuras políticas a nomes da literatura e da música – e sucesso em 12 estabelecimentos comerciais, muito menos.

Para um mineiro de Cruzília, cidade no Sul do estado de Juscelino Kubitschek, os frutos são reais e palpáveis. Aos 53 anos, Jorge Ferreira faz negócios, literalmente, como quem conversa em mesa de bar. Graduado em ciências sociais pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), ele é abolicionista dos afazeres entre quatro paredes gélidas.

De conversa rápida e voz rouca, ele fez de seus bares e restaurantes um escritório cigano, “que funciona muito bem, obrigado”.

E a produção do dia a dia não para por aí: já são dois livros escritos, um CD recém-lançado com 13 letras autorais (veja detalhes ao lado) e caminhadas todos os dias pela manhã antes de enfrentar a maratona de cerca de 15 horas diárias de trabalho.

Sem contar as eventuais peladas que costuma jogar com os amigos, incluindo políticos famosos, como o ex-presidente Lula.

Jorge é uma figura conhecida na cidade. Na foto, amigos da cena cultural de Brasília o prestigiam no lançamento de um painel sobre ele no Conic ( Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
Jorge é uma figura conhecida na cidade. Na foto, amigos da cena cultural de Brasília o prestigiam no lançamento de um painel sobre ele no Conic

São mais de 25 anos de Brasília. Diferentemente da maioria dos candangos, que veio cedo para cidade para trabalhar, o motivo que o arrastou até aqui é considerado ainda mais nobre. “Eu vim por amor”, declara-se. Casado com Denise, a mesma mulher que o fez traçar Minas até o cerrado, e com quem tem três filhos brasilienses, o proprietário de casas como o tradicional Feitiço Mineiro, o Bar Brasília, o Mercado Municipal e o Bar do Ferreira não cogita sair da capital e não esconde a relação que mantém com a cidade sem esquinas, desde o início. “Eu já cheguei aqui achando tudo maravilhoso. Eu não estava me importando com o Niemeyer, com o Lucio Costa. Eu estava focado no meu amor”, lembra. “Já estava 1 a 0 para Brasília”.

Com o crescimento do Grupo Jorge Ferreira, que não para de expandir pela cidade, consolidou-se também um jeito próprio de liderança. Para os que trabalham próximo, a dinâmica e a descontração de Jorge são características marcantes e podem ser apontadas como um dos motivos para o êxito nos negócios.
Jorge Ferreira costuma receber personalidades famosas e figuras de Brasília em seus estabelecimentos (Arquivo pessoal)
Jorge Ferreira costuma receber personalidades famosas e figuras de Brasília em seus estabelecimentos

“A empolgação dele é algo fácil de perceber e isso certamente também passa para as pessoas ao redor, para os funcionários e para os sócios”. O depoimento é de Álvaro Neto, um dos parceiros comerciais que convive com o empresário na administração do Mercado Municipal há mais de dois anos. O jeito extrovertido resulta em um estilo de trabalho que o sócio resume em poucas palavras: “É quase uma emoção a cada dia”, conta, rindo.

Com Flávio Venturini (Arquivo Pessoal )
Com Flávio Venturini
Para Jorge Ferreira, também conhecido com o sobrenome “Feitiço”, em referência ao restaurante de destaque na Asa Norte, as conquistas andam lado a lado com o empenho. “Eu sou um empresário chão de fábrica, gosto de ficar dentro do meu negócio”, diz, enquanto abre os braços frente a uma das mesas de seus bares e mostra seu espaço.

O sucesso financeiro e de público faz par a diversos prêmios gastronômicos, e vão da qualidade dos sabores culinários ao chope. O reconhecimento é destacado pelo diretor executivo do grupo, Mauro Calixhman. “Ele é um administrador campeão”, define, garantindo que não é papo de colega. “Todos os funcionários são fãs do Jorge, do garçom ao faxineiro”.

Com João Bosco (Arquivo Pessoal)
Com João Bosco
Atualmente com uma equipe de cerca de 700 empregados, Jorge não esconde que tem um jeito particular de lidar com os contratados de seus estabelecimentos. Adepto de algumas teorias do socialismo, mas “anti-stalinista”, ele garante que continua a lutar, com as armas que tem, para diminuir as desigualdades sociais alastradas pelo país. Lembra, contudo, que nunca pregou uma relação paternalista em seus negócios. “Eu quero ter uma TV em cores na minha casa, mas quero que meus funcionários também tenham”, diz. E assume o lado esperançoso: “Não acredito no homem sem utopia, sem um sonho de uma coisa melhor”.

O desenvolvimento no número de casas está ligado inevitavelmente também ao jeito brasiliense de consumir – considerado, por muitos, exigente – e que Jorge soube entender. “Eu não faço bar para turista”, revela a receita. “Meus bares são feitos para os moradores de Brasília. Eles têm um pouco a cara de Minas, de Rio, do Nordeste... Eu tento fazer essa mistura que reflete a cidade”, explica.

Com Jorge Aragão (Arquivo Pessoal)
Com Jorge Aragão
Além do estilo original presente nas casas do grupo, há o afeto natural que o brasileiro tem com a atmosfera dos bares, e que Jorge acredita fazer parte da cadeia social do país. “A bebida para mim sempre foi algo de convivência humana”, assume o fã de cerveja, para explicar, em seguida, sua teoria. “O bar é a distância entre o seu trabalho e a sua casa”, teoriza. E conclui, sorrindo: “O meu trabalho já é o bar, então eu diminuí um pouco a distância”.

Cidadão honorário de Brasília, título recebido pelo trabalho cultural que realiza no Feitiço Mineiro ao promover encontros de grandes músicos nacionais e promessas locais, Jorge nem pensa em afastar seus negócios da vertente artística. “São mais de 10 mil shows, mais de 13 mil artistas. Poucos bares têm hoje no Brasil isso em relação à música”, aponta, mostrando a importância do negócio, sem grandes ostentações.

Com Márcio Borges (Arquivo Pessoal)
Com Márcio Borges
Amigo de longa data do empresário-autor-letrista, o jornalista baiano Carlos Henrique foi um dos que pôde acompanhar de perto esse ímpeto cultural. Parceiro de Jorge em sua primeira investida na escrita, o comunicador participou proximamente da concepção da revista literária Tira Prosa, veiculada entre 1997 e 1999. “Embora tenha sido muito bem-sucedido como empreendedor, ele nunca esqueceu ou renunciou ao compromisso com a cultura”, ressalta. Para Henrique, aliás, há até uma desconfiança de que o lado artístico supere o empresarial em certas proporções. “Eu acho que ele tem mais prazer na organização desses eventos culturais do que propriamente na gestão dos negócios”, diz. E comenta sua tese para o sucesso do amigo. “Talvez aí esteja o segredo do êxito dele: essa generosidade com que ele toca as coisas”.

O chef Olivier Anquier (Arquivo pessoal )
O chef Olivier Anquier
Para o músico brasiliense Thiago Nascimento essa vertente, além de importante para o cenário cultural da cidade, é uma grande oportunidade de mostrar bons trabalhos. “O Feitiço não tem um ar de apenas um barzinho que tem música ao vivo. Não. As pessoas vão para lá para escutar o artista tocando”, comenta, comparando a outros estabelecimentos do ramo, que investem principalmente em covers.

Nascimento lembra a honra que sentiu ao ser chamado para realizar seu primeiro show com músicas autorais na casa, em abril de 2011. “Desde que me entendo por músico, é uma casa onde eu sempre tive vontade de tocar, até pelo fato de vários artistas nacionais terem passado por lá”, diz.

Para Jorge Ferreira, os ofícios parecem mesmo estar todos interligados. Um complementando o outro. “Eu me sinto como o homem do renascimento”, dispara, comentando que é natural fazer diversas coisas ao mesmo tempo: “livro, letras de músicas, revista literária, jogar minha pelada com os amigos, pescar...”. Na lista para 2013, apenas desejos de que o ano que terminou se prolongue. “2012 foi um ano especial. O encontro da minha poesia com a música foi definitivo”, declara. Nas entrelinhas, a origem dos possíveis projetos de ano novo.

O jovem músico brasiliense Thiago Nascimento ( Paula Carvalho / Esp.Encontro / DA Press )
O jovem músico brasiliense Thiago Nascimento
“Hífen humano”


Sentado à mesa de um de seus negócios, com alguns botões da camisa abertos, a barra para fora da calça e a pose do braço apoiado em uma grade próxima, acompanhado de um cigarro, “Jorjão” dá a ideia da informalidade que o segue por onde vai.

O apelido é um dos muitos que se acumularam ao longo de suas quase três décadas em Brasília. Para o cartunista Ziraldo (ao centro da foto, com outros amigos), a descrição do amigo vai além.

“Jorjão é o novo Zé Parecido”, dispara com risos, comparando o empresário ao ex-governador do Distrito Federal José Aparecido Ferreira, que, segundo o criador de O Menino Maluquinho, “sempre quebrava o galho de alguém conhecido”. As definições não param aí. “Ele é um hífen humano: sempre junta uma pessoa a outra”.

Sobre o sucesso de Ferreira, que tem em seus dois livros lançados a participação de Ziraldo, o cartunista tem uma teoria breve: “Ele ficou rico, mas não teve culpa. Como ele sempre foi mão aberta, tudo caía na mão do Jorge”, entrega, com carinho.


O jornalista baiano Carlos Henrique  (Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
O jornalista baiano Carlos Henrique
Na música e na literatura

 

No prefácio do livro de poemas Rio Adentro, o amigo e compositor mineiro Fernando Brant antecipa a identidade que se construiu em torno de Jorge Ferreira: “Poeta é o que faz. Logo, Jorge Ferreira que fez família, bares e amigos não poderia deixar de fazer, também, em versos”.
Abaixo, as principais produções na cultura:


CD Balé das Almas Zebeto Corrêa Souza Cruz (2012)
    R$ 20


Rio adentro Livro de poemas - Geração
Editorial (2011)
    R$ 30


Fazimento Livro de causos, que reúne poemas e crônicas - Geração Editorial (2009)
    R$ 22

 

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017