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Império animal

Enquanto o mercado de pet cresce 7% ao ano no país, no Distrito Federal esse número chega a 13%. Uma rede de São Paulo investiu R$ 3 milhões na capital, e outros negócios, como atendimento móvel, dão ideia do entusiasmo dos investimentos no setor

Cecília Garcia - Redação Publicação:24/01/2013 14:45Atualização:24/01/2013 15:12
A arquiteta Beatriz Cristino Jocobo gasta, em média, R$ 600 por mês no pet shop: ração, banho, tosa, hidratação, penteados para as fêmeas e gravatinha nos rapazes
 (Raimundo Sampaio/ DA Press)
A arquiteta Beatriz Cristino Jocobo
gasta, em média, R$ 600 por
mês no pet shop: ração,
banho, tosa, hidratação, penteados
para as fêmeas e gravatinha nos
rapazes
A arquiteta Beatriz Cristino Jocobo tem quatro cachorros que são suas fiéis companhias. “Dão muito trabalho, mas não consigo mais ver minha vida sem meus cãezinhos. A maior qualidade deles é o companheirismo”, afirma. A servidora pública mora com a mãe, que foi quem ganhou o primeiro pet delas, o Zulu, um yorkshire de 12 anos.

Logo em seguida, foi a vez de Cristal, da mesma raça, juntar-se à família para fazer companhia ao outro cãozinho. Já Veludo, um shih tzu de 2 anos, foi um caso de amor à primeira vista, e é chamado de “lindão da vovó”. A última a se juntar ao grupo foi Biju, uma shih tzu de pouco mais de 4 meses e sem pedigree, por isso o nome.

Para cuidar de sua família sobre patas, Beatriz gasta, em média, R$ 600 por mês no pet shop. Ela empolga ao descrever: ração, banho, tosa, hidratação, penteados para as fêmeas e gravatinha nos rapazes. Isso tudo sem contar as idas ao veterinário. Beatriz não mede esforços na hora de cuidar daqueles que, guardadas as devidas proporções – como ela mesma ressalta –, são os filhos que ela não tem. “O melhor é que, quando chegam à adolescência, não vão para a balada”, brinca.

A primeira butique pet de Brasília foi ideia da proprietária Graça Souza: 'Nós, que 
amamos animais, queremos o melhor para os bichinhos. Isso é o que eu procuro oferecer' (Raimundo Sampaio/ Encontro/ DA Press)
A primeira butique pet de Brasília
foi ideia da proprietária Graça Souza:
"Nós, que amamos animais, queremos
o melhor para os bichinhos. Isso
é o que eu procuro oferecer"
Os gastos com o cuidado de um animal de estimação são divididos geralmente em 30% para higiene e cuidados, e 70% são destinados à alimentação. Fora isso, existem custos com a saúde, que vão de vacinações obrigatórias a procedimentos cirúrgicos inesperados.

Há também os gastos com o conforto básico e os extras, como os acessórios que embelezam os companheiros de dia a dia. E é este conjunto de despesas que agita o mercado que movimenta R$ 13 milhões por ano no Brasil, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet).

Brasília é uma forte representante desse cenário. Por aqui existem cerca de 1.050 estabelecimentos que prestam serviços na área, de acordo com o levantamento realizado pelo Sindicato dos Petshops do DF (Sindpet) no ano passado.

O modo de humanizar os animaizinhos é um dos fatores que impulsionam a atividade na cidade. Este crescimento deve-se, de acordo com o presidente do Sindpet do DF, Fernando Toniel, ao fato de Brasília ser uma cidade solitária. As pessoas que moram aqui encaram o animal de estimação como um membro da família. “Essa visão acaba estimulando uma atenção maior ao pet”, explica.
Tânia Regina Souza Trindade é a dona do Lucky, um shih-tzu que tem convênio de saúde: 
seu companheiro tem atendimento garantido quando precisa (PaulaCarvalho /espEncontro / DA Press)
Tânia Regina Souza Trindade é a dona do Lucky, um shih-tzu que tem convênio de saúde: seu companheiro tem atendimento garantido quando precisa

Uma das áreas que mais cresce nesse mercado é a de acessórios. “Não chamo de supérfluos porque, quando fazem bem para o emocional do proprietário, deixa de ser dispensável”, comenta. “É um ‘algo a mais’ que o dono faz pelo seu animalzinho”.

O Distrito Federal tem o maior nível de escolaridade do país e um PIB de cerca de R$ 161 milhões, de acordo com a Companhia de Planejamento do governo (Codeplan). De acordo com Fernando Toniel, tais características também estimulam o mercado na capital: têm uma ligação direta com o fato de as pessoas investirem um pouco mais no cuidado dos animais. Ainda segundo o presidente do Sindpet, solteiros, casais sem filhos e pessoas recém-separadas são grupos de clientes que têm aumentado de forma rápida. “Nesses casos, o animal vira o companheiro de todas as horas.”

Os números que Brasília apresenta com relação ao comércio e o perfil da população foi o que atraiu a atenção do Grupo Pet Center Marginal, de São Paulo. A primeira unidade fora do estado de origem da rede, que tem 10 anos e conta com 15 lojas, foi inaugurada em novembro no Setor de Indústria e Abastecimento. A loja, de mais de 2 mil m², abriga farmácia, clínica veterinária, centro de estética, entre outros serviços. Além de possuir mais de 20 mil itens à venda.

Sérgio Zimerman, responsável pelo grupo, conta que investiu cerca de R$ 3 milhões nessa nova unidade e espera recuperar o investimento em quatro anos. Para ele, a aplicação justifica-se porque “observamos a pujança da cidade em termos de varejo. Os shoppings são bem frequentados, com pessoas efetivamente consumindo. Sentimos que era um momento oportuno para escolher aqui como o local da primeira loja fora de São Paulo”, conta.
Olívia e Seedorff são os gatos adotados por Tainara Monteiro Martins: 'Os gatos são uma terapia barata, nos ajudam a desestressar' (PaulaCarvalho /espEncontro / DA Press)
Olívia e Seedorff são os gatos adotados por Tainara Monteiro Martins: "Os gatos são uma terapia barata, nos ajudam a desestressar"

O perfil de negócio do novo pet shop segue um modelo, segundo Zimerman, aplicado pelas grandes redes de venda do mundo, e que se diferencia do modo brasileiro. Nesse molde, as rações correspondem a 50% dos negócios. “Para se ter uma ideia, em termos de consumo de rações super-premium, Brasília é o terceiro maior mercado do país”, explica. “Estamos abrindo a loja no lugar certo.”

Mas os números, sozinhos, não explicam por que Brasília está em expansão no segmento pet. Dados e pesquisas não dão conta de representar o amor que as pessoas sentem pelos seus animais de estimação e o cuidado que as fazem desapegar de altas somas de dinheiro para garantir a saúde, o conforto e a alegria de seus pets.
Uma família que contribui, e muito, com os dados do setor é a do servidor público Eduardo Costa.

Na família de Eduardo Costa não falta carinho para os quatro cães e para a coelha: 
os gastos nem são vistos como 'despesa' (Raimundo Sampaio/ Encontro/ DA Press)
Na família de Eduardo Costa não falta
carinho para os quatro cães e para
a coelha: os gastos nem são vistos
como "despesa"
Além da esposa e do filho, seu lar é constituído por quatro cães – os bulldogs Frederico Fellini e Mafalda, a golden retriever Meg e o boxer inglês Muttley – e também por Clara, a coelha. Só os cachorros representam um gasto de R$ 1.100 por mês com banhos semanais, rações de qualidade e vacinas. Mas Eduardo não pensa na despesa. Para ele, os pets são parte da família: “Merecem receber o melhor tratamento possível”, diz.

Um nicho de mercado que se embalou no amor dos donos de animais de estimação foi a criação dos planos de saúde médico-veterinários. Um exemplo é a Prevpet, da Clínica Veterinária Gerar Saúde Animal. A administradora do plano, Larissa Gomes, explica que esse tipo de serviço ainda é pouco conhecido porque a maioria das clínicas não visa à prevenção de doenças. “Eu e meu marido observamos que os animais, quando chegavam à clínica, já estavam em situação difícil de tratar, às vezes nem tinha mais o que fazer. Resolvemos, então, criar o plano levantando a bandeira da prevenção”, conta.

De fato, a adesão a um plano pode significar uma boa economia financeira, pois existem anuidades a partir de R$ 150. Por ano, os donos que tratam bem gastam, em média, R$ 700 por pet, isso sem contar os imprevistos. O inesperado geralmente sai caro. Um exemplo é a retirada de tumor de mama, que tem maior recorrência em cadelas não castradas. Dependendo da expansão e da quantidade, é no mínimo R$ 1.200 de gastos, podendo chegar a R$ 2 mil.

Tânia Regina Souza Trindade, técnica em atendimento multimeios, é a dona do Lucky, um shih-tzu que tem convênio de saúde. Uma das razões que a faz aprovar o serviço é a prevenção. “É uma questão de comodidade, de segurança, de ter sempre um veterinário quando precisa”, explica. E foi assim, com antecedência, que ela descobriu um problema de cristais na urina de Lucky. Como o tratamento começou rápido, ele não desenvolveu cálculo renal. Outra grande utilidade para Tânia é que seu shih-tzu é um pouco alérgico, e nos momentos de crises mais sérias tem a sempre certeza de que seu companheiro terá atendimento garantido.
Eduardo Quirino Sales tem um 'petmóvel': 'Não pensava que daria tão certo. 
Hoje tenho planos de expandir a área de atendimento' (PaulaCarvalho /espEncontro / DA Press)
Eduardo Quirino Sales tem um "petmóvel": "Não pensava que daria tão certo. Hoje tenho planos de expandir a área de atendimento"

Problemas de saúde nos animais são recorrentes e é preciso tratá-los. Essa fatia do mercado também é bastante movimentada. Que o diga a bancária Tainara Monteiro Martins. Ela vive com o namorado e dois gatos: Olívia e Seedorff, ambos adotados e que necessitam de gastos regulares. Com a areia, são R$ 60 mensais; com ração de boa qualidade, R$ 150 a cada três meses. Isso sem contar as vacinas, a castração e as idas ao pet shop e veterinários. Mas Tainara gasta sem dó. Sabe que, com os melhores produtos, os pets ficam mais saudáveis e dão menos trabalho.

Esses gastos são relativos aos próprios animais, mas uma vez teve de desembolsar no total R$ 2.400 com uma cirurgia ortopédica e recuperação pós-cirúrgica de um gato de sua avó. O preço foi salgado, mas para ela, valeu a pena. “Os gatos são uma terapia barata. O animal proporciona calma, diversão, é companheiro e nos ajuda a desestressar”, garante.

Para se manter nesse intenso ramo, os estabelecimentos sempre recorrem às novidades. Essa é a marca do pet shop Di Petti. Com 16 anos de experiência, a proprietária Graça Souza explica que a loja surgiu com a ideia de ser a primeira butique pet de Brasília.

De acordo com ela, na cidade, à época da inauguração da loja, a maioria dos estabelecimentos voltados aos animais de estimação era focada na venda de rações, tinha características bem agropecuárias e poucas variedades de acessórios. Por isso, ela resolveu inovar e trazer artigos importados inéditos por aqui.

Produtos dentais, calcinhas para cadela, casinhas com formatos criativos. O que Graça pode fazer para mudar, ela faz. Seus funcionários, há pouco tempo, passaram por um curso de penteados em animais, para melhor atender sua clientela, que ela garante: é fiel. Dona de um shih-tzu, ela fala com conhecimento de causa: “Nós, que amamos os animais, queremos o melhor para os nossos bichinhos. Isso é o que eu procuro oferecer”.

Outro empreendimento que amplia os números do mercado pet brasiliense foi idealizado por Eduardo Quirino Sales. Além de ser dono de um estabelecimento convencional, Quirino agora dirige, na companhia de um assistente, um pet shop móvel, ou Petmóvel, como o negócio foi batizado.

O interior da van é totalmente adaptado para realizar todos os serviços de pet shop comum, como banho, tosa, hidratação e até mesmo venda de produtos. Há quase dois anos nesse ramo, Quirino atende o Lago Sul e os condomínios próximos, realizando seus serviços em cerca de 20 animais por dia.

A ideia veio do proprietário anterior da van, que trouxe dos Estados Unidos o modelo. Sua esposa se encantou pela novidade e realizaram a compra. “No início não pensava que daria certo. Hoje já tenho planos de adquirir outro veículo e expandir a área de atendimento”, conta.
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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017