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Profissão de mulher

Depois de anos sob olhares tortos, tatuagens e mulheres se unem em um ramo cada vez mais procurado e antes dominado por homens. Em Brasília, elas se destacam pelo carisma e detalhes dos traços na pele

Jéssica Germano - Redação Publicação:18/02/2013 15:10Atualização:18/02/2013 17:25

Nashari Langamer aprendeu a tatuar aos 16 anos e aos 23 já tem clientela formada: mullheres têm mais facilidade para o traço mais delicado (Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Nashari Langamer aprendeu a tatuar aos 16 anos e aos 23 já tem clientela formada: mullheres têm mais facilidade para o traço mais delicado
 

Fugindo do estereótipo de tatuadores fortes, cheios de ilustrações grandiosas pelo corpo e de voz pesada, os estúdios cedem lugar para o tom suave das saias e brincos com alargadores, usualmente acompanhados de acessórios pretos. Na capital que acolheu à altura a moda dos desenhos pelo corpo e tem a primeira mulher profissional do país, os papéis de seda com sobreposição de grafite recebem inspiração de tatuadoras cada vez mais jovens e dispostas a se especializarem. Segundo um dos profissionais mais antigos da cidade, Jerson Filho, Brasília sempre teve um espaço muito bom para agregar tatuadores e fãs do estilo.


Acompanhando a moda mundial dos últimos anos, a capital, inclusive, se destacou entre as cidades brasileiras. “Há uma febre da tatuagem em Brasília”, diz Jerson, de 33 anos, que acompanha o comportamento há 17, quando começou o ofício. “Até pessoas que vêm de fora acham que aqui tem muita gente tatuada. Casado com uma austríaca (Bianca Treitler, que se tornou também tatuadora quando o conheceu) e ministrante de workshops e cursos sobre o assunto, Jerson viu de perto o espaço conquistado pelo sexo feminino na área de pigmentação de pele. “Antigamente, não se via muitas mulheres tatuadoras trabalhando em estúdios. E, quando trabalhavam, até os próprios clientes, às vezes, não queriam ser tatuados por elas”, conta. Hoje, ele enxerga a evolução em relação à aceitação da figura feminina e a relaciona ao domínio de estilo que algumas tatuadoras de Brasília conquistaram. “Elas estão se destacando porque já têm um diferencial como artistas.”

O casal de tatuadores Jerson Filho e a austríaca Bianca Treitler, que aderiu à profissão 
quando o conheceu: 'As mulheres estão se destacando nessa área em Brasília', diz ele (Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
O casal de tatuadores Jerson Filho e a austríaca Bianca Treitler, que aderiu à profissão quando o conheceu: "As mulheres estão se destacando nessa área em Brasília", diz ele

Entre os nomes que aparecem nas rodas de tattoo estão Nashari Langamer e Monique K. Pak, além de Bianca Treitler. Antes de elas nascerem, porém, foi uma goiana criada em Brasília, Hosanir Finotelli, conhecida como Medusa, de 56 anos, quem abriu o caminho para mulheres nos estúdios. Há 36 anos, quando ela começou a trabalhar, a história era bem diferente. “Uma vez, um tatuador me disse que mulher não tatuava e não servia para tatuar. Eu respondi: ‘Ah, é? Então, eu vou ser a primeira, porque deve ter um monte de mulher querendo fazer tatuagens em lugares íntimos do corpo’”, diz. Hoje, depois de participar de diversos concursos de tatuagem como jurada e acompanhar momentos importantes do ramo no país – e de ter recebido uma série de prêmios de honra por sua participação no mundo tatuado –, ela enxerga sua contribuição na busca por respeito e oportunidade em áreas com estereótipos.


Pioneira na área, a goiana Medusa enfrentou o preconceito quando começou a trabalhar, há 36 anos: 'Um tatuador me disse que mulher não tatuava e não servia para tatuar' (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Pioneira na área, a goiana Medusa
enfrentou o preconceito quando começou
a trabalhar, há 36 anos: "Um
tatuador me disse que mulher não tatuava
e não servia para tatuar"
Nashari Langamer, de 23 anos, também viveu as barreiras que tentavam impedir que a afinidade, desde a infância, com desenhos, e na adolescência, com tatuagens, virasse profissão. A família materna era totalmente contra o manuseio das máquinas para agulhas e tintas, e foi apenas com o incentivo do pai que Nashari, na época com 16 anos, começou a aprender a tatuar. O primeiro desenho, inclusive, foi no pai. “Ele me deu a máquina, mas eu não tinha em quem tatuar. Quem iria confiar em uma garota de 16 anos?”, conta. Trabalhando em um estúdio ao lado de dois homens e com a agenda sempre cheia, ela vive da maré que embala a moda de tatuagens na cidade e da escolha profissional que fez. “Sempre tem público para todo tipo de tatuador. Tanto que, para mim, não tem muito esse negócio de concorrência. Se faço o meu trabalho do meu jeito e benfeito, sempre vou ter o meu público”.

 

Para Nashari, a conquista do mercado pelas mulheres tem a ver com a facilidade delas para um traço mais delicado, mas garante que isso não é uma regra. Segundo ela, o contrapeso está, talvez, no fato de que alguns homens prefiram um estilo mais grotesco. “Mas quando eles querem fazer um traço fino, bonito, fazem”, diz. Sobre as dificuldades da área para elas, Nashari ainda observa um comportamento antiquado, mesmo que em menor proporção, principalmente por parte dos homens: “O preconceito é mais dos outros tatuadores contra as tatuadoras do que da clientela”.


Nascida na Áustria e viajante com parada por vários países, Bianca Treitler, de 36 anos, tem fundamento para comparar o desenvolvimento de tatuagens no Brasil e lá fora. Tatuando há três anos no mesmo estúdio que o marido, Jerson Filho, ela percebeu que o número de mulheres vem aumentando. “Acho que hoje em dia não tem essa de que os homens têm mais vantagem. O que conta mesmo é o trabalho que se destaca”, opina. E quando o assunto é traço feminino são os estilos mais finos e detalhados que comumente ganham espaço, como o pontilhismo, desenhos indianos, indígenas e florais. “As mulheres têm a tendência de desenhar o que gostam mais, e são coisas que outras mulheres naturalmente também gostam”, explica. “Mas isso não impede uma mulher de tatuar um homem.”

Monique K. Pak com Marlus Alvarenga, seu cliente: 'discípula' de Jerson Filho, em apenas um ano e meio ela já tem um portfólio invejável (Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
Monique K. Pak com Marlus Alvarenga, seu cliente: "discípula" de Jerson Filho, em apenas um ano e meio ela já tem um portfólio invejável

E, ao contrário da maioria de cursos profissionalizantes que ensinam técnicas e teoria, aprender a tatuar é arte muito menos formal. Textos sobre funcionamento de máquinas, qualidade de tintas e espessuras de agulhas podem ser encontrados na internet. Já a aptidão para manusear o instrumento de trabalho e seu posicionamento na pele, por outro lado, fica a cargo de observar tatuadores mais experientes e que estejam dispostos a dividir conhecimento reunido ao longo de anos de exercício. “Para aprender a tatuar existe toda uma cultura por trás, não é simplesmente você pagar por um curso”, explica Monique K. Pak, de 20 anos. Profissional há pouco mais de um ano e meio, ela foi aprendiz de Jerson Filho, recebendo dicas de tatuagem no próprio estúdio do tatuador. “A maior parte do aprendizado é no dia a dia, tatuando. A gente aprende muito com os colegas de trabalho”, conta. “A tatuagem é quase um trabalho artesanal”, afirma.


Monique já encontrou o caminho mais fácil e não chegou a viver o preconceito citado por outras tatuadoras. “Os clientes veem o nosso portfólio, conhecem o nosso trabalho, então não ficam mais com tanto receio”, explica. Foi assim com o professor de literatura Marlus Alvarenga, que teve a indicação de um amigo e se encantou pelo trabalho de Monique. “Acho que o carisma, o tratamento feminino, faz toda a diferença. No primeiro contato que você tem, já percebe um diferencial no atendimento”, diz. Para Marlus, esse viés da feminilidade pode ser considerado um dos grandes trunfos das mulheres tatuadoras. “Você acaba vindo e voltando para fazer outras tatuagens. Já chega aqui pensando na próxima”, garante.

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017