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A noite está abalada

Depois do traumático acidente que matou mais de 230 jovens em uma festa em Santa Maria (RS), a programação noturna de Brasília mudou. Seus frequentadores passaram a adotar hábitos mais cuidadosos e a palavra de ordem é atenção

Jéssica Germano - Redação Publicação:20/02/2013 15:20Atualização:20/02/2013 16:24

Todo cuidado é pouco: a localização de casas e pubs em subsolos pode aumentar a chance de ocorrerem acidentes graves  (Fotos: Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
Todo cuidado é pouco: a localização de casas e pubs em subsolos pode aumentar a chance de ocorrerem acidentes graves
 

A primeira reação foi, por diversas vezes, a mesma. Muita gente que costuma frequentar baladas parou para relembrar quando esteve em locais parecidos com a boate Kiss, em Santa Maria (RS), onde pelo menos 238 jovens morreram no final de janeiro, devido a um incêndio, enquanto estavam em uma festa para universitários.

 

O filme que passa para cada um aponta para a despreocupação habitual que acompanhava a vida noturna de grandes centros. A confissão também é sincera. Quase não se prestava atenção à presença de extintores, à lotação da casa ou às saídas de emergência em caso de acidentes. O acontecido, porém, parece ter servido como lição.

O empresário Bruno Sartório, ao lado da mulher, Stela Sartório, comenta: 
'O comportamento dos baladeiros já mudou' (Fotos: Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
O empresário Bruno Sartório, ao lado da mulher, Stela Sartório, comenta: "O comportamento dos baladeiros já mudou"

Após a ordem do governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, de antecipar uma operação rigorosa de vistoria de documentos e estrutura, Brasília se junta a outras cidades e fecha as portas de pelo menos 25 casas noturnas que funcionavam sem autorização. Enquanto isso, baladeiros frequentadores do circuito noturno da cidade não desaceleram o ritmo, mas garantem que o susto serviu para cultivar um saudável hábito: observar para prevenir possíveis acidentes. A palavra de ordem agora é atenção.


Frente ao acontecimento que comoveu o Brasil e o mundo, pela proporção da tragédia, a capital do país não se fez indiferente aos problemas que podem acarretar a falta de segurança. “Diante de tudo o que aconteceu, as pessoas começam a tomar mais cuidado, a se preocupar mais com a prevenção.” O atestado é da assessora Helen Moraes, carteirinha carimbada nos principais eventos da cidade. Na semana posterior ao incêndio no Sul, ela esteve em uma festa grande e disse que pôde observar a movimentação dos frequentadores e produtores. Para ela, os reflexos deixados pelas vítimas impactam fortemente a ideia de diversão em Brasília.

 

Apesar do medo, porém, Helen acha que o ritmo de procura por festas não deve diminuir. “Esse alarde, esse medo, prevalece, mas não está impedindo que as pessoas curtam e frequentem os lugares que sempre frequentaram”, observa. O que muda a partir de agora, segundo ela, é o modo como as pessoas irão usufruir desses ambientes. “Eu era bem leiga sobre chegar aos lugares e observar as questões de segurança. Agora eu já chego prestando atenção nessas coisas”, admite.

Para Rodolfo Vidigal (na foto com Fernanda Cardoso) o acidente em Santa Maria serviu de alerta: 'Agora, quando eu entrar em um local, vou logo já procurar a saída de emergência' (Fotos: Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
Para Rodolfo Vidigal (na foto com Fernanda Cardoso) o acidente em Santa Maria serviu de alerta: "Agora, quando eu entrar em um local, vou logo já procurar a saída de emergência"

De acordo com especialistas em estrutura física e ornamentação de prédios, o fato de em Brasília a maioria das casas e pubs estarem localizados nos subsolos das comerciais aumenta a chance de ocorrência de acidentes graves, como o que aconteceu em Santa Maria. “A ventilação nesses espaços é deficitária”, explica o diretor do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Distrito Federal (Crea), Francisco Rabello. Segundo ele, existem cuidados essenciais que devem ser tomados a fim de evitar tragédias. “Em todo lugar que tem um aglomerado de público, as pessoas devem ter algumas preocupações básicas. É como se estivessem dirigindo um carro”, compara, de forma didática. Localizar-se dentro do espaço é a primeira iniciativa aconselhada para saber como agir em casos extremos. Observar a presença de equipes treinadas também aparece entre os pontos importantes: “Eles são treinados para dar orientação aos usuários e acalmá-los, já que um problema pode ser simplesmente o pânico”, informa o engenheiro.

 

Para os proprietários das casas, a instrução fica a cargo de treinar seus funcionários para saber como agir em situações de emergência. “Um segurança, por exemplo, deve saber onde estão as mangueiras e indicar os locais por onde as pessoas devem sair”, esclarece, para completar sobre a realidade: “A maioria das casas é muito deficitária quanto a informações”.

Helen Moraes (esq.) com a amiga Thay Reis: 'Eu não observava as questões de segurança, agora eu já chego prestando atenção nessas coisas' (Fotos: Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
Helen Moraes (esq.) com a amiga Thay Reis: "Eu não observava as questões de segurança, agora eu já chego prestando atenção nessas coisas"

De acordo com o advogado e frequentador assíduo de casas noturnas Rodolfo Vidigal, há motivos de sobra para redobrar a atenção. “Eu nunca vejo uma sinalização de saída de emergência avisando ‘caso aconteça alguma coisa, saia por essa porta’. Geralmente a porta de entrada é a porta de saída”, pondera. Para ele, o precedente em Santa Maria foi um alerta. “A partir de agora, quando entrar em um local, vou procurar a porta de saída de emergência para já marcar na cabeça”, diz.


“Depois da tragédia, eu me lembrei de alguns lugares que já fui e pensei: ‘e se acontecesse um incêndio ali, como seria?’” A indagação de Bruno Sartório é comum a outros frequentadores da noite brasiliense, porém, para o empresário produtor de festas, ela veio acompanhada de uma série de outros questionamentos que refletem o comportamento do público desses eventos, desde o que aconteceu no Sul. “As pessoas já estão ligando, perguntando sobre alvará, querendo saber exatamente como irá funcionar o evento”, descreve ele, que, com a sua produtora, realiza festas nas principais boates da capital. “O comportamento dos baladeiros já mudou”, destaca.

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