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O mercado floresceu

O DF tem a maior demanda de flores decorativas per capita do país e agora também começa a produzir. Saiba quais são as mais vendidas e quem está ganhando com isso

Juliana Borre - Redação Publicação:01/03/2013 16:05Atualização:01/03/2013 16:36

Copos-de-leite estão entre as espécies de flores nobres preferidas pelos brasilienses, que também compram muitas gérberas e lisianthus (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Copos-de-leite estão entre as espécies de flores nobres preferidas pelos brasilienses, que também compram muitas gérberas e lisianthus
 

Quem é amante à antiga pode até discordar. Mas, com o romantismo fora de moda e a perda da tradição de presentear o grande amor com um buquê de rosas, o mercado de flores e plantas no país teve de se reinventar. Foi preciso investir na diversificação da produção, no desenvolvimento de novas técnicas e tecnologias de cultivo, na logística. E, na contramão de outros setores que sofrem com a crise econômica mundial, esse segmento tem conseguido expandir o faturamento, desde 2007, entre 15% e 17% ao ano. Graças, sobretudo, ao foco no consumo interno.


Diante desse cenário, os estados mais tradicionais no ramo – São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Santa Catarina – viram surgir uma potência. Nos últimos cinco anos, o mercado de flores e plantas do Distrito Federal cresceu em torno de 20% ao ano e se tornou o líder no ranking do consumo per capita do Brasil. Aqui, gastam-se, por morador, em média, R$ 39,62 com flores, número 72,11% maior que a despesa nacional, de R$ 23,02, segundo dados de novembro de 2012 do Instituto Brasileiro de Floricultura (Ibraflor).

 

O recente cenário é resultado da elevada renda média da capital federal e da soma de uma série de incentivos e fatores. Cresceu não somente o mercado consumidor, mas também o produtor. Diversas espécies antes trazidas de outros estados começaram a ser cultivadas na cidade. O que agradou, além do comprador individual, ao decorador de eventos, que passou a ter maior possibilidade de escolha e flores mais frescas e vistosas para adornar os muitos salões pelo DF.

A médica Nobu Ashiuch é colecionadora de orquídeas e referência em hortênsias: cultivo é negócio tradicional na família (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
A médica Nobu Ashiuch é colecionadora de orquídeas e referência em hortênsias: cultivo é negócio tradicional na família

O surgimento de novos espaços para festas e feiras nos últimos anos e o crescimento desse segmento são, inclusive, apontados por produtores e vendedores como o principal trampolim para a atual fase florida. “Brasília é a segunda cidade em eventos no país, atrás de São Paulo. Nós temos 118 embaixadas e os órgãos do governo, que promovem eventos praticamente todos os dias. Além disso, há as formaturas, os casamentos, os encontros de negócios. Em todos eles, utilizam-se flores ou plantas na decoração”, explica o engenheiro agrônomo Cleison Duval, coordenador do programa de floricultura da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Distrito Federal (Emater/DF).


“O setor de flores está se organizando e se fortalecendo. E a área de eventos deu o boom”, admite a presidente da Associação Central Flores, Márcia Rosely, de 42 anos, 14 deles dedicados ao ramo. “Com a produção local a todo vapor, nós temos hoje maior variedade e durabilidade, e preço mais competitivo para o consumidor final”, explica.


De acordo com o presidente do Sindicato de Carnes Frescas, Gêneros Alimentícios, Frutas, Verduras, Flores e Plantas do Distrito Federal (Sindigêneros/DF), Joaquim dos Santos, os carros-chefes são as flores nobres (gérbera, lisianthus e copo-de-leite, entre outras), as tropicais (estrelícia, antúrio, helicônia, etc.) e as do campo (variações de margarida e crisântemo). Segundo a Emater, em 2011, o Distrito Federal produziu 430 mil exemplares de 47 espécies de flores e plantas ornamentais e 16 mil pacotes de 12 variedades de folhagens de corte (usadas para arranjos e buquês). Somam-se ainda 163 mil itens em vasos de 31 tipos e 379 mil de corte de 30 espécies.

O produtor Paulo Tashiro, que cultiva flores em uma chácara de Taguatinga há cinco anos: 
'A procura aumentou muito. Com o produto fresco, colho num dia e entrego no outro' (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
O produtor Paulo Tashiro, que cultiva flores em uma chácara de Taguatinga há cinco anos: "A procura aumentou muito. Com o produto fresco, colho num dia e entrego no outro"

O cultivo de plantas passou de geração para geração na família de Paulo Tashiro. A tradição começou com o avô japonês Hisso Tashiro, em 1957, na chácara de 30 hectares, hoje cercada por Taguatinga Norte. Paulo chegou a morar no Japão entre 1997 e 2003 em busca de uma vida melhor. Mas voltou para dar continuidade aos negócios dos Tashiros. Ele concilia a cultura com a fabricação de batata palha e a administração do Pesque-Pague Taguatinga. Entre 30% e 40% da renda vêm das flores, produzidas em cinco hectares. “Há cinco anos, começamos a diversificar a produção. Forneço mais copos-de-leite, folhagens e tango. A procura aumentou muito. Com o produto fresco, colho num dia e entrego no outro”, diz.


Um olhar mais cuidadoso para a floricultura, com a elaboração de políticas públicas, também foi primordial para alavancar esse mercado. “Em 2007, a Secretaria de Agricultura local elencou o setor como prioritário. A Emater já trabalhava com flores, atendendo a demanda. Agora, o projeto está distribuído entre os 16 escritórios espalhados pelas áreas rurais do DF. Quando você coloca como prioridade, aparecem os recursos. A empresa fez um plano de ação, com metas a serem cumpridas em diferentes etapas”, explica Cleison Duval.


“Além disso, o governo do DF ampliou o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) do Executivo Federal e criou o Programa de Aquisição de Produtos Agrícolas (Papa). Em ambos, as empresas públicas podem adquirir itens diretamente do produtor familiar, sem precisar de licitação. Elas fazem apenas uma cotação e podem comprar. Em 2013, essa iniciativa será ampliada para todas as áreas, e isso vai fazer crescer ainda mais o mercado de flores”, acredita o engenheiro agrônomo Rodrigo Batista, gerente do escritório da Emater no Núcleo Rural Rio Preto, perto de Planaltina.


Conhecedor do mercado brasiliense há mais de 30 anos, Kees Schoenmaker, presidente do Instituto Brasileiro de Floricultura (Ibraflor), sediado em Holambra (SP), atribiu a popularização das flores também à venda em supermercados, onde os preços são mais competitivos. “Quem vai a um evento e se encanta com a decoração quer levar aquela beleza para casa. Isso impulsionou a venda no dia a dia. As redes só têm de zelar mais pela qualidade do produto. O tratamento dentro da loja, às vezes, deixa a desejar”, diz.


Três das 21 mulheres do Núcleo Rural Rio Preto: a renda familiar 
aumentou 30%, diz Rosemary Reis (a terceira de baixo para cima) (Fotos: Minervino Júnior/Encontro/DA Press)
Três das 21 mulheres do Núcleo Rural
Rio Preto: a renda familiar aumentou 30%, diz
Rosemary Reis (a terceira de baixo para cima)
As expectativas para o setor são tantas que Joaquim dos Santos quer fundar em Brasília, em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), a primeira Faculdade de Arte Floral do país. “Pelo andamento das negociações é possível que a primeira turma comece as aulas já no primeiro semestre de 2013”, conta o presidente do Sindigêneros, há 25 anos dono de loja de flores na cidade e formado na Escola Ibero-americana de Arte Floral, na Argentina. Além disso, já acontece, desde 2012, a FestFlor, uma feira na qual produtores, decoradores e vendedores discutem o setor e se encontram com compradores. É um espaço para negócios e para os apaixonados por plantas.


Paulista de Pererira Barreto, Nobu Ashiuch também espera um futuro promissor para o mercado de flores. Médica patologista da Secretaria de Saúde do DF, depois de aposentada, ela se tornou uma referência no cultivo de hortênsias. Nobu cresceu em meio às plantações da família, entre Anápolis (GO) e Sobradinho. Colecionadora de orquídeas, foi a partir de cursos sobre como cuidar delas na Emater que ela virou, de fato, produtora rural. “Quando a Associação Central Flores foi inaugurada, em 2001, alguns viveiristas passaram a me pedir mudas de hortênsias também. Vi o potencial e comecei a investir nelas”, conta.


Sempre antenada, Nobu percebeu que faltava esse tipo de flor cortada. Desde então, fornece a matéria-prima para decoradores de outras cidades, como Jundiaí, Itatiba e Campinas, no interior de São Paulo, Uberlândia (MG) e Goiânia (GO). Como não depende da renda das flores para sobreviver, a produtora não sabe precisar o quanto vende e lucra. “Só sei que a minha despesa mensal é de R$ 10 mil”, calcula ela, que conta com a ajuda do irmão Itiro Ashiuchi, engenheiro civil, no negócio. “Somos dois aposentados brincando de plantar florzinha”, diz ela, delicada como uma flor.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017