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Uma nova W3?

Novo projeto de revitalização tenta salvar a avenida mais antiga de Brasília. Mas os problemas na via são tão sérios que o próprio governo admite: para implantar todas as mudanças, previstas para começar ainda este ano, serão necessárias duas décadas

Lilian Taham - Publicação:06/03/2013 16:50Atualização:06/03/2013 18:54

 (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press )
 

Antes mesmo de Brasília ser inaugurada, lá estava ela. Dividia o endereço onde moravam funcionários públicos recém-transferidos para a nova capital com o comércio de pequenos empresários que antes mantinham seus negócios no Núcleo Bandeirante, então Cidade Livre. A avenida W3 é mais antiga que a própria cidade. Uma combinação entre pioneirismo e funcionalidade qualificou por quase duas décadas essa via como a mais badalada, transitada e importante da capital federal.

Até a década de 1970 (no detalhe), a W3 foi o principal centro de compras da cidade. Hoje, as ruas e as calçadas esburacadas, a falta de segurança e de estacionamento afastam os consumidores (Arquivo Pessoal)
Até a década de 1970 (no detalhe), a W3 foi o principal centro de compras da cidade. Hoje, as ruas e as calçadas esburacadas, a falta de segurança e de estacionamento afastam os consumidores

O viço da W3, no entanto, não acompanhou o desenvolvimento de Brasília. A partir da década de 1970, à medida que o comércio das entrequadras começava a surgir, o movimento na avenida central diminuía. A construção dos shoppings, que rapidamente caíram no gosto dos candangos, acelerou o processo de esvaziamento da via que um dia foi considerada a aorta do Plano Piloto. O processo de desgaste poderia ter sido contornado se medidas de recuperação e até de readequação dos espaços tivessem sido tomadas a tempo.

Dono de um curso de pós-graduação na avenida, Pedro Tamer diz que os alunos se sentem inseguros: falta policiamento (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press )
Dono de um curso de pós-graduação na avenida, Pedro Tamer diz que os alunos se sentem inseguros: falta policiamento

Mas o fato é que a W3 foi esquecida pelas pessoas e abandonada pelo poder público, que ao longo dos anos chegou até a planejar mudanças – nunca executadas. O resultado é sentido por quem circula na avenida: melancolia. Quase toda a extensão da via comercial está pichada. A falta de legislação resultou na carência de um padrão para os letreiros, o que causa até desconforto visual. As calçadas são estreitas e estão avariadas, a iluminação é fraca; a segurança, duvidosa – fatores que contribuem para a degradação. Além disso, não há estacionamento suficiente.


O retrato do abandono na W3: o novo projeto prevê a retirada de todos os ferros-velhos (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press )
O retrato do abandono na W3: o novo
projeto prevê a retirada de todos os
ferros-velhos
Nos fundos da W3, virada para os prédios residenciais, a W2 é apertada e favorece apenas a passagem de carros. Do outro lado, as 700 – que na Asa Sul é o endereço das casas geminadas e na Asa Norte consolidou-se como mais um polo de comércio – também são prejudicadas pelo déficit de estacionamento, áreas verdes e espaço para circulação de pedestres. Assim, não há como se falar em passeio na avenida com potencial de ser para a capital brasileira o que é a Champs Élysées para Paris.


A revitalização da W3, com a necessária mudança da paisagem que hoje mais afasta do que agrega, está entre as prioridades enumeradas pelo atual governo. Técnicos da Secretaria de Habitação, Regularização e Desenvolvimento Urbano (Sedhab) do governo do DF trabalham atualmente em um ousado projeto no qual algumas de suas diretrizes envolvendo espaços privados foram incluídas na Lei de Uso e Ocupação do Solo (Luos), que tramita na Câmara Legislativa e deve ser votada até o fim deste ano. “Por parte dos deputados não há nenhuma grande divergência sobre o projeto de revitalização da W3.

 

Mais que isso, esse é um tema sensível aos parlamentares, que entendem a importância dessa aprovação para Brasília, especialmente em um período no qual a cidade se tornará palco de eventos internacionais”, diz José Willemann, coordenador de Assuntos Legislativos do governo na Câmara Legislativa.

O restaurante de Simon Pitel funciona na W3 desde 1960: clientes deixaram de frequentar o Roma à noite (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press )
O restaurante de Simon Pitel funciona na W3 desde 1960: clientes deixaram de frequentar o Roma à noite

“Quem participou da construção de Brasília sabe bem que a W3 era o coração social e de convívio da nova capital, era um comércio de referência. Mas essa realidade mudou. Acredito que muito em função do surgimento dos shoppings e do perfil dos moradores, que se identificaram com esse tipo de centro comercial, não exatamente uma novidade, pois já existiam nos Estados Unidos desde a década de 1940”, explica Rômulo Andrade de Oliveira, subsecretário de Planejamento Urbano da Secretaria de Habitação.

 

Oliveira é, por parte do governo, quem lida diretamente com a proposta de revitalização da W3. Ele afirma que o projeto está em fase avançada, relata que algumas das intervenções devem ser confirmadas pelos distritais por meio da aprovação da Luos e prevê que o início das obras ocorra até o fim de dezembro. Mas o gestor avisa que o processo não é simples, envolve a participação do Executivo, do Legislativo, de empresários e da própria população. Por isso, calcula que, se tudo ocorrer como o planejado, todas as mudanças previstas só estariam completamente implementadas em um prazo estimado de duas décadas.

O empresário Behumil Med já viu diversos outros projetos nunca saírem do papel: ceticismo e sugestões para salvar o lugar (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press )
O empresário Behumil Med já viu diversos outros projetos nunca saírem do papel: ceticismo e sugestões para salvar o lugar

Entre os itens previstos de novidade para a W3 está a reorganização dos estacionamentos, com a abertura de mais espaço. O governo acredita que a pouca oferta de vagas afastou determinados comerciantes cuja natureza do negócio gera a circulação de muita gente. Uma das medidas para aumentar essa disponibilidade seria aproveitar melhor os nichos que separam uma quadra comercial da outra, com a possibilidade de construir, nessas áreas, garagens subterrâneas. Um projeto piloto, que terá como endereço uma das entrequadras da Asa Sul, está sendo desenvolvido e deve começar a ser implementado até o fim do ano.


Apesar de admitir que o projeto de revitalização é complexo, o subsecretário de Planejamento Urbano, Rômulo de Oliveira, está otimista: 
início das obras previsto para dezembro (Tony Winston/SEDHAB/divulgação)
Apesar de admitir que o projeto de revitalização é
complexo, o subsecretário de Planejamento
Urbano, Rômulo de Oliveira, está otimista:
início das obras previsto para dezembro
Para quem estudou soluções capazes de revigorar a W3 não basta comportar mais gente na avenida. É imprescindível que as pessoas voltem a ter prazer em caminhar nesse endereço comercial. No projeto em curso no Executivo, isso será possível quando as calçadas forem reformadas, com a ampliação e um projeto paisagístico prevendo espaços verdes, como jardins, e iluminação que garanta conforto e mais segurança aos pedestres.


Um dos proprietários do Instituto Laboro de pós-graduação, que funciona na 503 Sul, Pedro Victor Tamer relata que o sentimento de insegurança é muito comum entre os alunos que assistem às aulas às sextas à noite, aos sábados e domingos. “Já tivemos episódios de furto, o que é preocupante, amedronta e afasta as pessoas”, explica Tamer. Ele considera que uma proposta de recuperação da W3 passa, necessariamente, pela ronda ostensiva no local. “A falta de policiais circulando na região, associada aos becos escuros, torna alguns pontos da avenida sombrios.”

 

O negócio de Pedro Tamer é exemplo do tipo de atividade que o governo pretende estimular na W3. Para os gestores, quanto mais estabelecimentos houver na avenida com potencial de atrair público jovem, com perfil cultural ou acadêmico, melhor será para a recuperação da via. Por isso, bares, restaurantes, cursinhos são muito bem-vindos aos olhos do GDF. O subsecretário Rômulo Oliveira fala, inclusive, sobre a hipótese da construção de um albergue da juventude nesse endereço. Ele diz que a presença de jovens com acesso a opções de lazer e de estudo devolveria parte da antiga movimentação ao lugar.


O que Oliveira estuda em tese, Simon Pitel um dia viu acontecer na prática. Dono do Roma, o mais antigo e um dos mais tradicionais restaurantes de Brasília, o belga chegou à cidade em 1958, na mesma época em que os pioneiros da construção da nova capital. “No começo não havia shopping, as pessoas vinham passear na W3, que era muito movimentada”, lembra Pitel, que abriu as portas de seu restaurante em 15 de abril de 1960 e coleciona entre os fregueses ex-presidentes, como Lula, Fernando Henrique, Fernando Collor, além de ministros e empresários. “Naquela época, os poderosos e os não poderosos lotavam o Roma, era um programa obrigatório.”


Simon Pitel sentiu o declínio de toda uma avenida. Embora o restaurante dele ainda seja muito frequentado, com média de 4,5 mil clientes por mês, ele afirma que praticamente 80% das pessoas procuram o local na hora do almoço, diferentemente de algumas décadas atrás, quando as pessoas recorriam ao Roma como uma opção também para o jantar: “Hoje, elas têm medo de circular pela W3 à noite e isso fez cair muito o movimento.” Assim como vários outros comerciantes, ele também é a favor das intervenções de revitalização da via. Pitel acredita que um projeto bem estruturado poderia devolver vigor à avenida.


É o que pensa o também estrangeiro Behumil Med. Natural da República Tcheca, ele é dono da Musimed, uma livraria musical que fica na 505 Sul. A diferença é que Behumil já perdeu a confiança de que o discurso oficial vai virar realidade na W3. “Há anos escuto falar em mudanças importantes, participei de todas as reuniões para discutir projetos, mas nunca vi nada sair das ideias. Então, hoje, não participo mais desses debates, desisti”, desabafa.


Behumil calcula na ponta do lápis a diferença que uma avenida recuperada faria em seu negócio. Para funcionar em um espaço de 800 m², ele paga R$ 13 mil por mês, sem contar o aumento que virá neste mês. Se a W3 fosse mais movimentada, o faturamento ajudaria a amenizar as despesas. Embora descrente, o dono da livraria indica medidas relativamente simples que o governo poderia tomar para melhorar a condição dos comerciantes na via que luta para sobreviver: “Há que se incentivar quem trabalha, taxar com impostos altos os locais fechados, atrair os restaurantes. Quem sabe assim a gente não transformaria a W3 na nossa Champs Élysées”, propõe o europeu de coração candango.

 

 

O QUE DEVE MUDAR


Perspectivas de algumas das intervenções sobre os espaços públicos na W3

 

 > Reforma em calçadas, com  previsão de alargamento;


 - Sistema de transporte que inclua o Veículo Leve sobre Trilhos;
 - Redefinição dos prédios;
 - Prédios poderão ser revisados quanto à altura e ao aproveitamento de espaço;
 - Letreiros devem obedecer a um padrão, que também será definido para quiosques;
 - Os proprietários, organizados em condomínios, deverão apresentar à administração pública projeto de recuperação de fachada e de fixação de publicidade, o que valerá também para a W2;

 

> Ampliação de estacionamentos, com garagens cobertas nas entrequadras das 500;

 

 - A atividade industrial também seria bem-vinda nos ramos de confecção de vestuário, acessórios, impressão, reprodução de gravações, fabricação de produtos de padaria, confeitaria, pastelaria;

 - Área também destinada ao setor residencial, como albergues e pequenas pousadas;

 

> Projeto paisagístico, com jardins, árvores e sistema de iluminação.

 

 

 

 

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017