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DEZ PERGUNTAS PARA | José Eduardo Belmonte »

"Criei meu próprio método de direção"

Figura conhecida - e muito querida - em Brasília, Belmonte é um cineasta maduro e entusiasmado. Nesta entrevista, ele fala dos ensinamentos da profissão e quais são seus novos projetos na sétima arte

Gustavo T. Falleiros - Redação Publicação:12/03/2013 14:18Atualização:12/03/2013 14:45

Bom de papo, José Eduardo Belmonte gosta de conversar, refletir: 'Cada vez mais, não sei para onde o cinema vai' (Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
Bom de papo, José Eduardo Belmonte gosta de conversar, refletir: "Cada vez mais, não sei para onde o cinema vai"
O enredo é bem conhecido: servidor público se muda com a família para Brasília. O caçula, talentoso, encontra nos pilotis espaço para extravasar a imaginação. Depois, estuda, cresce e, de algum modo, sente que a cidade já não comporta seus anseios. Bate asas e voa. José Eduardo Belmonte quase se encaixa nesse roteiro.


O cineasta, de 42 anos, natural de São José dos Campos (SP), divide-se entre as capitais do Rio de Janeiro e São Paulo, mas sua âncora é mesmo o filho, João Gabriel, de 12 anos, orgulhoso morador da Asa Sul, em Brasília. A parte do “talentoso” é verídica, como atestam os seus seis longas-metragens. O mais recente, O Gorila, baseado em um conto de Sérgio Sant’Anna, arrebatou crítica e público no último Festival do Rio e está prestes a entrar em circuito comercial. Na entrevista a seguir, o diretor expõe concepções de vida e de cinema, de verdade e ficção, com a tranquilidade que só a idade traz.

1 | ENCONTRO – Como foi deixar Brasília?

BELMONTE – É difícil falar porque fica parecendo um discurso partidário, mas existiu uma época do segundo governo Roriz que foi bem dura, de desinvestimento de cultura. Houve um esvaziamento. Não tinha dinheiro para filmar e, inevitavelmente, foi uma época em que muita gente saiu da cidade. Acabei fazendo o Concepção (2005). Tinha coprodução de São Paulo. Fui para lá e fui ficando. Agora minha rotina é esta: fico me alternando entre as três cidades – São Paulo, Rio e Brasília. Eu respeito o João, meu filho, que gosta muito daqui. De repente, é uma coisa interna, de não conseguir desgrudar de Brasília, e acabei ficando nessa loucura que é pegar avião toda semana. Mas, agora, quero começar a fazer filmes aqui.

Belmonte e Andrucha Waddington seguram trofeu Candango pelo filme 'Tepe' no Festival de Brasilia do Cinema Brasileiro em 1999 (Anderson Schneider/CB/D.A Press)
Belmonte e Andrucha Waddington
seguram trofeu Candango pelo filme "Tepe"
no Festival de Brasilia do Cinema Brasileiro
em 1999
2 | ENCONTRO - Em que pé está o projeto com a banda Móveis Coloniais de Acaju?
BELMONTE – Estou terminando, é um projeto muito legal. Era para ser um DVD, mas a gente quis estender. Sugeri fazer um documentário musical sobre como está e como ocupar a cidade. Então o Móveis é um personagem que perambula pelas 10 cidades do Distrito Federal e pelos espaços degradados – que hoje está a coisa mais fácil de achar. A praça dos Três Poderes mesmo: é uma loucura o que tem de rachadura.

3 | ENCONTRO - Seus filmes mostram muito uma classe média acuada. A ascensão da classe C muda o seu cinema?
BELMONTE – Eu falava de classe média porque era minha única experiência. Mas acho que, depois dos 40, você quer se abrir mais para o outro. O cineasta tem de ser um curioso, porque o cinema vai numa velocidade absurda, é um trem-bala. Um tema bem interessante de ser falado também é essa pequena luta de classes que está acontecendo em Brasília. A cidade permite que as pessoas se isolem muito facilmente. E meus personagens sempre querem sair desse isolamento, só que eles são estabanados e se perdem nessa busca.

4 | ENCONTRO - Isso teria um viés religioso?
BELMONTE – Na verdade, sempre quis filmar o invisível – você descobriu o meu segredo. Eu sempre fui cristão. Já passei pelo catolicismo, já passei pelo candomblé. Mas hoje, engraçado, frequento uma igreja presbiteriana. Revi, de certa forma, o meu cristianismo e, cada vez mais, isso me interessa como tema também. O filme que eu quero fazer em Brasília (Sobre a Esperança e a violência, sem previsão de lançamento) é sobre uma pequena comunidade religiosa no Tororó e como eles reagem a um fato trágico. Quero assumir isso como um tema.

5 | ENCONTRO - Quais foram os seus mestres?

BELMONTE – Foram dois. O Armando Bulcão, professor da Universidade de Brasília (UnB) que quebrou as estruturas, fez uma revolução. Sabia muito de montagem, e foi aí que aprendi realmente a filmar. É o meu principal mestre, quem me ensinou a usar câmera. E o Nelson Pereira (dos Santos), que foi meu orientador de final de curso e filmei com ele nA Terceira Margem do Rio (1994). Aí foi uma escola de cinema mesmo, desde o básico, a cozinha de como fazer um filme, tudo. Ele era louco porque, numa época em que só ele filmava no país (estávamos na era Collor), ele parava para ensinar. Tinha muito aluno, não tinha dinheiro pra nada e ele explicava tudo o que fazia. Aprendi quase tudo lá.
Belmonete durante a direção do filme ' Billi Pig' (Paula Houeven/Divulgação)
Belmonete durante a direção do filme " Billi Pig"

6 | ENCONTRO - Hoje, qual seria o caminho para um jovem cineasta se lançar? YouTube?

BELMONTE - Em cinema, não se pode trabalhar em uma única frente nunca. O mercado é muito dinâmico. Quando comecei, fiz videoclipe, o que me abriu muitas portas. Fiz Raimundos, Pato Fu, bandas que estavam estourando na época com a MTV. Mas festival era – e ainda é – uma porta nacional, só que agora ficou um pouco mais difícil de ocupar, a competição virou meio selvagem. A principal coisa é exibir seu filme e pensar em qual é o melhor festival pra ele. O de Brasília tem um perfil específico. Já a internet é uma rede: você pode cair e se perder ou ser achado por alguém. Cada vez mais, não sei para onde o cinema vai. Será que a gente vai ter ainda o hábito da sala (de projeção), que é quase religioso? Isso está se perdendo. Então, não sei.

7 | ENCONTRO - Hoje você é cineasta 100% do tempo?

BELMONTE – Fiz durante muito tempo publicidade em Brasília. Hoje, não mais. E fazia muito clipe. Agora, faço exclusivamente cinema, mas não só direção. Por exemplo, estou escrevendo uma série para a HBO, para a (produtora) O2, chamada Destino Rio. E assim vai. Há quase 10 anos vivo só de cinema. Às vezes aperta, mas, em geral, é bom.

8 | ENCONTRO - O Gorila saiu consagrado do Festival do Rio com os prêmios de melhor ator (Otávio Müller) e melhor atriz coadjuvante (Alessandra Negrini). Existe segredo para “domar” os atores?

BELMONTE – Quando me formei, descobri que era o que eu tinha de estudar mais. Concentrei nisso a ponto de não usar mais coaching. E fui criando um método de direção de atores. Para resumir em poucas palavras: ao contrário do teatro, que é representação, o cinema é ser – não adianta você ter a consciência racional da cena se você não tem a emocional. O que a cabeça entendeu o corpo tem que entender. Então fico trabalhando numa frequência e permito que eles usem a inteligência deles e criem junto. Eles são coautores do processo.

9 | ENCONTRO - E qual ator o surpreendeu mais?
BELMONTE – São tantos, não dá para dizer um só. O ator com que eu trabalhei que mais entende de cinema é o Milton Gonçalves (em Billi Pig, 2012). Ele tem domínio de tudo: set, dramaturgia, câmera, cena. Agora, eu tive grandes colaboradores, como o Cauã (Reymond), um ator maravilhoso. A Grazi (Massafera) foi uma experiência que eu adorei, uma figura muito inteligente. A Alessandra Negrini é genial, muito rigorosa. Selton (Melo) é um craque. Luiza Mariana (Se Nada Mais Der Certo, 2009) é gênio também. A escolha faz muito parte da direção. Isso é um clichê, mas é verdade. Para isso, acho que tenho um certo talento. Quando você escolhe bem, o ator também se descobre. Coisas guardadas que ele ainda não sabia administrar vêm à tona.

10 | ENCONTRO - Se seu cinema fosse música seria o quê?
BELMONTE – Caramba [pensa muito]. Seria tipo um álbum do Bob Dylan.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017