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GASTRÔ | indicações »

Eleitos por diplomacia

A gastronomia internacional está em todos os cantos de Brasília. Saiba quais são, na opinião de estrangeiros, os melhores representantes da comida mundial em solo candango

Leilane Menezes - Colunista Publicação:18/03/2013 16:41Atualização:18/03/2013 18:17

Doce de feijão com kiwi, um dos pratos típicos oferecidos pelo restaurante japonês Yuzu-an (Raimundo Sampaio/ Encontro / DA Press)
Doce de feijão com kiwi, um dos pratos
típicos oferecidos pelo restaurante
japonês Yuzu-an
Pode-se viajar o mundo todo, adotar um novo país e descobrir culturas, mas a saudade de casa sempre bate. Um cheiro ou gosto pode despertar lembranças e diminuir a distância.

 

Na capital do Brasil, não faltam refúgios para quem está longe da terra natal. A convite da Encontro Brasília, estrangeiros de seis nacionalidades indicam seus lugares preferidos na cidade, onde comidas típicas das regiões onde nasceram são servidas como manda a tradição.

 

Eles oferecem dicas para brasilienses que querem saborear a autêntica gastronomia japonesa, italiana, alemã, argentina, árabe ou francesa, mesmo sem viajar.

 

 

 

Japonês

 

O ministro da embaixada do Japão em Brasília, Masahiro Takasugi, costuma ir ao Yuzu-na para matar a saudade da culinária nipônica: 'A almôndega japonesa é ótima' (Raimundo Sampaio/ Encontro / DA Press)
O ministro da embaixada do Japão em Brasília, Masahiro Takasugi, costuma ir ao Yuzu-na para matar a saudade da culinária nipônica: "A almôndega japonesa é ótima"
 

Sushi e sashimi não estão no cardápio do Yuzu-an, no Clube Nippo, na Avenida das Nações. Mas isso não é problema, a chef de cozinha Alice Yumi Shibata Yamanishi serve mais de 50 tipos de pratos principais. O ambiente é simples, sem luxo. A qualidade e o sabor da comida surpreendem. Membros da Embaixada do Japão em Brasília e clientes conquistados com propaganda boca a boca são os principais frequentadores.

 

A chef Alice Yumi Shibata Yamanishi: 'Somos fiéis à proposta de transportar o cliente às origens e apresentar uma  gastronomiamuito além do trivial' (Raimundo Sampaio/ Encontro / DA Press)
A chef Alice Yumi Shibata Yamanishi:
"Somos fiéis à proposta de transportar
o cliente às origens e apresentar uma
gastronomiamuito além do trivial"
O ministro dessa representação diplomática, Masahiro Takasugi, vive na cidade há pouco mais de dois anos. Quando sente falta da rotina no Japão, vai ao Yuzu-an. O yakissoba tradicional está entre os preferidos dele: “O molho é diferente e a massa também. A almôndega japonesa é ótima”, diz. A almôndega é um bolinho de carne empanado, com temperos genuínos do Japão.

Além do cardápio fixo, Yumi oferece o prato do dia. O wafu-steak, filé mignon no ponto perfeito, coberto por cogumelos japoneses, é uma das opções. É servido com quatro acompanhamentos, como arroz japonês, cozido sem gordura e sem sal, e o delicioso bolinho de batata e karê, como japoneses chamam o curry, com molho especial.

 

Todos os pratos levam um toque de yuzu, limão oriental de cheiro e gosto peculiares, que vem em raspas nos pratos e dá nome ao restaurante. “Yuzu-an quer dizer cheirinho da terra natal ou lembrança da infância. Somos fiéis a essa proposta de transportar de volta para as origens e de apresentar às pessoas uma gastronomia rica, muito além do trivial”, diz a respeitada chef Yumi.

 

Italiano

 'Quando tenho vontade de comer comida italiana, venho aqui. No meu país, a pizza é comida de fim de semana', diz Gianluigi Planezio, presidente da Associazione Dante Alighieri  (Raimundo Sampaio/ Encontro / DA Press)
"Quando tenho vontade de comer comida italiana, venho aqui. No meu país, a pizza é comida de fim de semana", diz Gianluigi Planezio, presidente da Associazione Dante Alighieri

Quando quer sentir o gosto que os italianos experimentam quando comem uma boa pizza, Gianluigi Planezio, presidente da Associazione Dante Alighieri – Cultura Italiana, vai à La Fornacella, na 312 Norte. Os preferidos do cardápio são a pizza boscaiola (cogumelos, linguiça, muçarela de búfala e parmesão) e o calzone de bacon.


Luigi Tavazza, também italiano, é quem faz a massa das pizzas servidas ali. São necessárias 48 horas para atingir o ponto desejado. “Nossa pizza é romana, de massa fina e crocante. O molho é importado da Itália. A receita é simples, mas precisa dos melhores ingredientes”, explica Luigi.


Margherita é uma das pizzas típicas 
do restaurante italiano La Fornacella (Raimundo Sampaio/ Encontro / DA Press)
Margherita é uma das pizzas típicas
do restaurante italiano La Fornacella
Gianluigi aprendeu com a mãe e com a avó a fazer massas e risotos. Portanto, agradar seu paladar não é tarefa fácil. “Já visitei alguns restaurantes que se dizem italianos, mas não são genuínos. Misturam ingredientes e referências demais. Quando tenho vontade de comer comida italiana, venho aqui. Na Itália, a pizza é comida de fim de semana”, disse o cliente, que está em Brasília há 16 anos. Ele conheceu a mulher, brasiliense, na Itália, e mudou-se com ela para a capital do Brasil, onde dá aulas de italiano.

 

Luigi, o dono da pizzaria, foi aluno da Associazione Dante Alighieri, onde aprendeu a falar português. A La Fornacella tem no menu itens pouco conhecidos pela maioria, como o supplì, crocante bolinha de arroz alongada, frita e preparada com molho de carne, muçarela e parmesão.

 

Francês

O diretor da Aliança Francesa, Jean Bourdim, ao lado de Daniel Briand, dono do estabelecimento com seu nome: 'Além da comida, o lugar é muito semelhante aos cafés de Paris', diz o cliente (Raimundo Sampaio/ Encontro / DA Press)
O diretor da Aliança Francesa, Jean Bourdim, ao lado de Daniel Briand, dono do estabelecimento com seu nome: "Além da comida, o lugar é muito semelhante aos cafés de Paris", diz o cliente

Há três anos, quando se mudou para Brasília, o diretor da Aliança Francesa, Jean Bourdim, aprendeu a amar o Brasil e sua culinária. Ainda assim, não deixou de desejar os sabores da França, de onde veio. Ele comemora o fato de ter ao alcance do paladar, na cidade onde mora, um “excelente representante” do que se vê e se come em Paris. Não raramente Jean é visto em uma das charmosas mesas do Daniel Briand, na 104 Norte. “Além da comida, o lugar é muito semelhante aos cafés de Paris, a decoração é fiel. É o ideal para lembrar a minha casa”, afirmou Jean Bourdim.


O cardápio do Daniel Briand oferece, entre dezenas de outras opções, omeletes, croissants, brioches, cafés, chás, quiches, tortas e os famosos pain au chocolat, macarons e crème brulée. Os favoritos de Jean, entretanto, são os patês. “Nada mais francês que um bom patê”, diz.


O l'assiett aux trois terrines combina pães com campagne, foie de canard e de legumes e é o queridinho da casa (Raimundo Sampaio/ Encontro / DA Press)
O l'assiett aux trois terrines combina
pães com campagne, foie de canard
e de legumes e é o queridinho da casa
O l’assiett aux trois terrines – combinação de três sabores: campagne (com carne suína), foie de canard e de legumes, com pães – é o preferido do francês. As pastas, como tudo mais na casa, são produzidas artesanalmente por Daniel Briand, um francês que está em Brasília há 19 anos. Ele conheceu a mulher, Luiza Venturelli, na França, e mudou-se com ela para o Brasil. É ela a responsável pela concepção do café.

 

Entre os doces, Jean aconselha experimentar qualquer um que leve chocolate. A matéria-prima belga é usada em tortas e na bomba de chocolate, entre outros itens do menu.

 

Argentino

Em Brasília desde 1957, a corretora Mercedes Urquiza sugere pratos típicos no Corrientes 348: 'O grand finale é a panqueca de doce de leite, a mais tradicional sobremesa portenha' (Raimundo Sampaio/ Encontro / DA Press)
Em Brasília desde 1957, a corretora Mercedes Urquiza sugere pratos típicos no Corrientes 348: "O grand finale é a panqueca de doce de leite, a mais tradicional sobremesa portenha"

O restaurante Corrientes 348 faria sentido em qualquer bairro refinado de Buenos Aires. Para a sorte dos brasilienses, ele não está nas ruas de Puerto Madero ou na Recoleta, mas sim na 411 Sul. Estar no Corrientes é relembrar as raízes para a pioneira de Brasília Mercedes Urquiza, que é argentina. Perfeito exemplar da elegância portenha, ela frequentemente senta-se à mesa dessa casa especializada em carnes para degustar empanadas e cortes especiais, como o ojo del bife, alto e suculento, feito à moda argentina. Para acompanhar, ela escolhe um bom vinho malbec. À noite, o ambiente, escuro na medida certa, ganha a iluminação de velas e torna-se ainda mais charmoso.


Fiel à proposta: Tiago Boita, um dos responsáveis pelo Corrientes na capital, conheceu a ideia em São Paulo e decidiu trazê-la para Brasília (Raimundo Sampaio/ Encontro / DA Press)
Fiel à proposta: Tiago Boita, um dos
responsáveis pelo Corrientes na capital,
conheceu a ideia em São Paulo e decidiu
trazê-la para Brasília
Mercedes vive em Brasília desde 1957. Foi a corretora oficial da Novacap e revendia material para construção dos primeiros prédios do Distrito Federal. Fixou raízes em Brasília, mas sempre volta a Buenos Aires para visitar a família. “A salada de berro (agrião) e cebola e a batata frita ao murro também lembram muito a vida portenha”, conta Mercedes. Os que gostam de miúdos podem saborear a tradicional parrillada, servida na parrilla (chapa quente).

 

O grand finale fica por conta da panqueca de doce de leite, a mais tradicional entre as sobremesas portenhas. Os produtos, como a massa da empanada, são importados de Buenos Aires. O restaurante abriu por aqui em maio de 2006. Tiago Boita, um dos responsáveis pela unidade, conheceu a ideia em São Paulo e decidiu trazê-la para Brasília.

 

 

 

Alemão

O alemão Volker Schellnock, professor da UnB, degusta cerveja de trigo e salsichão: costume europeu na Asa Norte (Raimundo Sampaio/ Encontro / DA Press)
O alemão Volker Schellnock, professor da UnB, degusta cerveja de trigo e salsichão: costume europeu na Asa Norte

Quem passar desatento pela 213 Norte corre o risco de perder uma das maiores atrações da quadra: o Pão do Alemão. A pequena padaria montada na esquina do Bloco D funciona há 16 anos. É um sucesso entre os moradores, que confirmam a boa fama dos pães, doces, salsichões e cervejas servidas por Reinhold Dern, o Alemão.
O professor da Universidade de Brasília (UnB) Volker Schellnock compartilha a nacionalidade do mestre padeiro. Mora em Brasília há 13 anos. Nas aulas de alemão, entre uma lição e outra, um de seus alunos falou a respeito do Pão do Alemão.


Reinhold Dern, dono do Pão do Alemão, produz em Pirenópolis: o pão alemão típico, de centeio e farinha de trigo, é um dos mais pedidos no balcão (Raimundo Sampaio/ Encontro / DA Press)
Reinhold Dern, dono do Pão do Alemão,
produz em Pirenópolis: o pão alemão típico,
de centeio e farinha de trigo,
é um dos mais pedidos no balcão
Para iniciar o ritual gastronômico, Volker escolhe o salsichão, grelhado em uma churrasqueira elétrica. Uma boa cerveja alemã, feita de trigo, acompanha o pedido. A bebida é servida como na Alemanha, em copo longo de vidro. “Não sinto muita falta da comida alemã, porque a brasileira é sensacional. Mas é sempre bom variar. E o melhor lugar é aqui”, aconselha Volker.


A padaria abre às 17h, às vezes às 18h. O expediente vai até as 23h, em média. Reinhold fabrica os pães em Pirenópolis. Vai à cidade distante 140 km de Brasília todos os dias buscar a produção. O apfelstrudel – massa folhada recheada de doce de maçã – é famoso em toda a Brasília. O pão alemão típico, uma mistura de centeio e farinha de trigo, é um dos mais pedidos no balcão. “No jantar, o alemão come pão fatiado, embutidos e manteiga. É bem diferente do visto no Brasil”, observa o professor.
 

 

 

Árabe

Jumana Salama é secretária consular na Embaixada do Catar e mata a saudade de casa no restaurante Manara: 'Aqui eu me lembro da comida da minha mãe' (Raimundo Sampaio/ Encontro / DA Press)
Jumana Salama é secretária consular na Embaixada do Catar e mata a saudade de casa no restaurante Manara: "Aqui eu me lembro da comida da minha mãe"

Há dois anos, Jumana Salama não consegue visitar a região onde nasceu, a Síria, por causa da guerra civil. Moradora de Brasília há 16 anos, ela costumava ver os pais todo ano antes do conflito. Visitar o restaurante Manara, na 706/707 Norte, traz algum conforto ao coração de Jumana. “Aqui, eu me lembro da minha casa, da comida da minha mãe”, diz. Ela mudou-se para Brasília depois de se casar com um brasileiro descendente de sírios. O casamento acabou, mas ela escolheu prosseguir na cidade.


Arroz com carneiro e amêndoas laminadas: 
um dos mais pedidos no Manara (Raimundo Sampaio/ Encontro / DA Press)
Arroz com carneiro e amêndoas laminadas:
um dos mais pedidos no Manara
Aos sábados, Jumana, que é secretária consular na Embaixada do Catar, é presença garantida no Manara. Ela indica a versão mais sofisticada do restaurante, com pratos à la carte. O formato self-service existe há 10 anos, no mesmo endereço. São mais de 500 clientes por dia. Há nove meses, a proprietária Marie Claude Yammine investiu em melhorias, para criar um novo ambiente, na porta ao lado, para 200 pessoas. Apostou na decoração caprichada, com jardim interno e serviço de bufê a R$ 40 (de segunda a sexta-feira) e R$ 50 (nos fins de semana) para comer à vontade todas as delícias árabes.


Os segredos dos sabores do Manara estão nas mãos de Marie. Receitas de família somam-se aos ingredientes importados do Líbano, como o tempero sete pimentas, trigo, grão-de-bico e a pasta de gergelim. “O pão sai do forno direto para a mesa do cliente. Nada fica guardado de um dia para outro. Servimos aos clientes, como servimos à nossa família”, disse Marie.

 

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017