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O museu do poder

Os palácios do Planalto e do Itamaraty são os dois principais abrigos da coleção de arte do governo federal. Há preciosidades expostas em locais acessíveis ao público

Eunice Pinheiro - Redação Publicação:19/03/2013 16:51Atualização:19/03/2013 18:08

Itamaraty abriga o maior acervo de arte contemporânea: treliça de Athos Bulcão e escultura de  Franz Weissmann decoram o Salão de Tratados (Jose Varella/CB/DA Press)
Itamaraty abriga o maior acervo de arte contemporânea: treliça de Athos Bulcão e escultura de Franz Weissmann decoram o Salão de Tratados
 

A Esplanada dos Ministérios é um verdadeiro museu de arte. Não só um museu dos símbolos nacionais, que costuma atrair milhares de pessoas para o turismo cívico na capital, mas um conjunto de museus – composto por Ministérios e Palácios – que guardam obras de artistas nacionais e internacionais. São telas, esculturas, vitrais e peças de mobiliário que, muitas vezes, passam despercebidos numa visita onde a arte não é o foco principal. E o melhor: a maior parte desse acervo está aberta à visitação pública, gratuitamente.


O Palácio do Planalto e o Palácio do Itamaraty são os dois locais que concentram as obras mais famosas de toda a Esplanada. Trabalhos que chegam a valer mais de R$ 4 milhões no mercado, como o painel As Mulatas, de Di Cavalcanti, e outros, que pelo valor histórico nem podem ser avaliados, como a tela gigante de Roberto Burle Marx (14 m x 4,8 m), de 1972, criada especialmente para ocupar o Salão Oeste do Palácio do Planalto.

Na sala de espera do Palácio: reina a tela Os Orixás, de Djanira da Motta e Silva (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Na sala de espera do Palácio: reina a tela Os Orixás, de Djanira da Motta e Silva

Ao todo, ainda não se sabe o número exato de obras de arte que povoam a Esplanada dos Ministérios e a Praça dos Três Poderes, já que o levantamento, que está sendo feito pelo governo federal, ainda não foi concluído. Mas são dezenas de trabalhos de artistas renomados, como Djanira da Motta e Silva, Joan Miró, Frans Krajcberg, Sérgio Rodrigues e Alberto Nicola. Até 2009, a maior parte dessas obras estava perdida nos subsolos dos Palácios.


A ideia de catalogar as obras de arte dos palácios surgiu em 2009, durante a reforma do Palácio do Planalto. O projeto foi apresentado à ex-primeira dama Marisa Letícia, que aceitou o desafio e mandou abrir as portas. A partir daí, palmo a palmo dos palácios do Planalto e da Alvorada passou a ser vasculhado. "Na verdade, havia uma ideia da existência de um bom acervo de arte nos Palácios. Mas não havia um catálogo dessas obras. Tampouco se sabia com exatidão onde elas se encontravam", conta Claudio Soares Rocha, secretário executivo da Comissão de Curadoria dos Palácios do Planalto e da Alvorada.

Galeria internacional do Planalto: exposição de obras de Joan Miró (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Galeria internacional do Planalto: exposição de obras de Joan Miró

A caça às obras revelou muitas surpresas. Uma delas foi um quadro do artista catalão Joan Miró, avaliado em R$ 1 milhão, pendurado na sala de suprimentos do Planalto. Durante anos, o quadro azul ficou ali, quietinho, sem ninguém imaginar a relíquia sustentada por um pequeno preguinho. Com a tapeçaria de Alberto Nicola não foi diferente. Depois de enfeitar a recepção do Palácio do Planalto, na década de 1990, foi parar no restaurante da guarda.


Mas o destino dado ao relógio Luiz XIV, confeccionado pelo relojoeiro do rei francês, Balthazar Martinot, foi demais. A peça foi parar no depósito de barcos do Palácio da Alvorada. Ninguém sabe dizer quanto tempo esse relógio ficou por lá, mas foi encontrado sob um monte de colchões velhos e precisando de recuperação. Meses depois de resgatado, ainda se buscava a cúpula dele – uma imagem do deus grego Netuno –, encontrada, posteriormente, numa caixa de ferramentas da oficina do palácio.

Easy chair, mobiliário de Oscar Niemeyer: móveis foram restaurados por meninos da periferia de Brasília (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Easy chair, mobiliário de Oscar Niemeyer: móveis foram restaurados por meninos da periferia de Brasília

Tirando esses casos mais escabrosos, a verdade é que, durante muito tempo, funcionários conviveram com obras importantes nacionais e internacionais em suas salinhas pensando que fossem obras vendidas em uma feirinha qualquer. Agora, que elas foram resgatadas, estão expostas ao grande público, devidamente recuperadas, identificadas e catalogadas. "Quando terminamos o levantamento das obras, chegamos à conclusão de que elas deveriam ser expostas ao público.

O que adianta ter boas obras se elas ficarem fechadas em salas?", questionava Claudio Rocha. Com isso, as obras dos artistas mais renomados foram expostas nos corredores dos Palácios, no gabinete da presidente Dilma Rousseff e nos salões de reuniões, com destaque maior para os artistas nacionais.


Assim, durante a visita guiada ao terceiro andar do Palácio do Planalto, por exemplo, podem ser vistas as obras de Di Cavalcanti, Geraldo de Barros, Frans Krajcberg, Frank Schaeffer, Alfredo Volpi, Antônio Maluf e a bela escultura de Bruno Giorgi, com o nome de O Flautista. Nos gabinetes fechados, ficaram apenas os trabalhos de artistas pouco conhecidos.

Mobiliário do Planalto é composto de obras de designers 
renomados: poltrona Vronka, de Sérgio Rodrigues (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Mobiliário do Planalto é composto de obras de designers renomados: poltrona Vronka, de Sérgio Rodrigues

No mezanino, podem ser vistos também conjuntos de mobiliários desenhados por talentos como Sérgio Rodrigues e Jorge Zalzuspin. Aliás, o mobiliário do Palácio do Planalto é um espetáculo à parte. Peças dos designers mais importantes das décadas de 1960 e 1970 estão presentes ali. Incluindo a mesa de trabalho do então presidente Juscelino Kubitschek, desenhada por Niemeyer.


"A restauração dos móveis e a indicação da existência de algumas obras de arte importantes seguiram os relatos de Anna Maria Niemeyer, arquiteta e filha de Oscar Niemeyer, que trabalhou na decoração dos Palácios durante a construção deles. Era ela quem, sob as ordens do presidente Juscelino Kubitschek, comprava obras de arte para decorar os palácios e, assim, começou a montar nosso acervo", explica Claudio Ramos.

No Salão Oeste do Palácio do Planalto: o painel é de autoria de Roberto Burle Marx (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
No Salão Oeste do Palácio do Planalto: o painel é de autoria de Roberto Burle Marx

Além dos trabalhos que chegavam pelas mãos da filha de Niemeyer, o acervo dos palácios foi formado por doações de obras, presentes presidenciais e espólios, como os três quadros de Djanira, que faziam parte da massa falida do antigo Lloyd Brasileiro.


Hoje, o governo não compra obras de arte. Por isso a carência de artistas contemporâneos nas paredes dos palácios. "Para renovarmos o acervo, precisamos que os artistas doem suas obras. Porém, isso raramente acontece", diz Ramos.

Galeria de arte do terceiro andar do Palácio do Planalto: pinturas do concretismo e eoconcretismo brasileiro (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Galeria de arte do terceiro andar do Palácio do Planalto: pinturas do concretismo e eoconcretismo brasileiro

No Palácio do Itamaraty, as obras contemporâneas já são vistas em abundância. Como cada órgão administra seu acervo artístico individualmente, o Ministério das Relações Exteriores é um dos poucos órgãos do governo que têm realizado concursos de arte contemporânea. Os trabalhos premiados são adquiridos pela instituição. Foram duas edições até o momento: em 2011 e 2012.

 

Com isso, qualquer visitante interessado em apreciar os trabalhos de artistas como Tomie Ohtake, Francisco Brennand, Athos Bulcão, Volpi e Emmanuel Araújo tem a chance de ver também os trabalhos de novos artistas. Aliás, um acervo impressionante, de tão bonito.

Na sala de espera do mezanino do Planalto, um presente: a tela As Mulatas, de Di Cavalcanti (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Na sala de espera do mezanino do Planalto, um presente: a tela As Mulatas, de Di Cavalcanti

Por exemplo, logo na entrada do Palácio do Itamaraty, uma exposição apresenta as últimas 20 aquisições do ministério, fruto do concurso de 2012. São óleos sobre tela, fotografias e esculturas, como a escultura Iceberg, de Flávio dos Santos Cerqueira, que transporta o expectador para o olhar infinito de um menino.

Escultura Galhos e Sombras, de Frans Krajcberg: parte do acervo do Palácio do Planalto (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Escultura Galhos e Sombras, de Frans
Krajcberg: parte do acervo do Palácio
do Planalto
Relógio Luiz XIV, confeccionado pelo relojoeiro do rei francês, Balthazar Martinot: encontrado no depósito de barcos do Alvorada (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Relógio Luiz XIV, confeccionado pelo
relojoeiro do rei francês, Balthazar
Martinot: encontrado no depósito de
barcos do Alvorada
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mais museus para Brasília

 

José do Nascimento, presidente do Instituto Brasileiro de Museus: ele quer criar em Brasília um complexo de museus (Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
José do Nascimento, presidente do
Instituto Brasileiro de Museus: ele quer
criar em Brasília um complexo de museus
O Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) quer criar, em Brasília, um complexo de museus de arte. De acordo com o presidente do Ibram, o objetivo do órgão é ampliar o perfil dos museus da cidade, hoje muito voltado para as instituições do governo. "Queremos museus na capital que falem do Brasil como um todo. O presidente Juscelino trouxe o projeto político para cá, mas ficou faltando o projeto cultural ", explicou José do Nascimento Júnior.


O pensamento de José do Nascimento é amparado pelo perfil turístico da cidade, hoje focado em dois pontos: a arquitetura e os símbolos nacionais, o chamado turismo cívico. Com a criação do complexo de museus, a cidade passaria a oferecer também o turismo cultural.


No projeto original, já entregue ao governador Agnelo Queiroz, o complexo será composto por cinco prédios. Cada um com um tema diferente: biodiversidade, democracia, esportes, diversidade cultural e arte das Américas. No mesmo espaço, está prevista a instalação de salas de teatro, cinema, espaços para concertos e gastronomia, livrarias, lojas, etc. O Ibram sugeriu cinco áreas consideradas ideais e aguarda, há dois anos, o GDF destinar o local.

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017