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Já foi a uma garage sale?

Tradicional nos Estados Unidos, a prática de "abrir a casa" para vender os móveis tem conquistado cada vez mais adeptos - compradores e vendedores - em Brasília

Rodrigo Craveiro - Redação Publicação:19/03/2013 18:08Atualização:19/03/2013 18:23

As amigas Mona Lisa Barenbaum, Norma Monteiro e Mariela Silva são sócias na Garage BSM: especialistas na modalidade (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
As amigas Mona Lisa Barenbaum, Norma Monteiro e Mariela Silva são sócias na Garage BSM: especialistas na modalidade

A tapeçaria francesa Aubusson, avaliada em R$ 13 mil, foi comprada por R$ 1.200. O aparelho de louça brasonado Limoges, também da França, saiu por R$ 1.300 – nas lojas, esse valor é cobrado por uma única peça. O rack de jacarandá, cotado a R$ 3.500, acabou adquirido por R$ 350. O centro de mesa em prata WMF, de 900 euros (cerca de R$ 2.430), ficou 85% mais barato, a R$ 400. Em uma casa no Lago Sul, a maior parte dos produtos à venda foi primeiramente negociada em euros. Em um fim de semana comum de fevereiro, os clientes percorriam os cômodos e se entretinham ante taças de cristal e estatuetas chinesas de R$ 10, entre diversos outros utensílios das chamadas garage sales – um tipo de comércio que, cada vez mais, se consolida como febre de consumo em Brasília.


Os preços convidativos e objetos muitas vezes raros ou importados são os principais atrativos desses eventos, que não têm data nem local fixo para acontecer. Quase sempre, os vendedores, os garagistas e os clientes acabam desenvolvendo laços de amizade e se comunicam em grupos para avisar datas e locais em que acontecerão as próximas edições.


O público costuma ser bastante heterogêneo e inclui ministros, deputados, diplomatas, socialites, decoradores, colecionadores, além de empresários da Feira de Antiguidades do Gilberto Salomão e compradores comuns, interessados em redecorar a própria casa.

A professora Ana Schramm busca, nas garage sales, raridades 
e peças especiais: 'O preço também me atrai', diz  (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
A professora Ana Schramm busca, nas garage sales, raridades e peças especiais: "O preço também me atrai", diz

Três amigas deixaram de lado uma pacata rotina pós-aposentadoria e investiram na ocupação de garagistas. Tudo começou em 2010, quando Mona Lisa Barenbaum, então gerente de um banco, mudou-se de apartamento, decidiu remobiliar o novo lar e fazer uma garage sale dos produtos. Como o resultado foi abaixo do esperado, ela apelou para a ajuda das colegas Marinéia Silva e Norma Monteiro. “Vi que aqui em Brasília havia mercado e condição de fazer algo melhor, e foi o que propus”, conta Mona Lisa.


O trio, então, montou a Garage BSM – iniciais dos sobrenomes delas – e se especializou na modalidade. Hoje, mantém um mailing list com 4.500 nomes e uma clientela cativa. A alta rotatividade de funcionários públicos e do corpo diplomático, em Brasília, criou a necessidade de auxiliar as pessoas a se desfazerem de seus pertences.

“Normalmente, as peças são muito boas e de valor. Existe um mercado, tanto para comprar quanto para vender”, explica Mona Lisa.
E sempre há muita história envolvida: “A gente tem de ser um pouco psicóloga, pois a garage sale envolve três situações principais: divórcio, morte e mudança. A pessoa que deseja vender as coisas geralmente está traumatizada”, conta Marinéia.

Os irmãos Pedro e Guilherme Ribeiro aproveitam as oportunidades: uma cadeira assinada por Sérgio Rodrigues foi comprada em Brasília por R$ 300 e revendida por R$ 9 mil em leilão no Rio de Janeiro (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
Os irmãos Pedro e Guilherme Ribeiro aproveitam as oportunidades: uma cadeira assinada por Sérgio Rodrigues foi comprada em Brasília por R$ 300 e revendida por R$ 9 mil em leilão no Rio de Janeiro

Segundo Norma Monteiro, o primeiro passo antes de o comércio se tornar real inclui uma visita à casa do contratante para a catalogação dos produtos. “Nessa fase, verificamos se é possível fazer uma garage sale. Uma garage muito pequena é de 250 peças. Uma interessante envolve de 600 a mil peças. Já temos um público que busca a diversidade”, comenta ela.


Se a garage sale é viável, as garagistas e o proprietário dos produtos buscam um acordo sobre os preços. “A gente conversa com o cliente sobre a existência de um valor que é justo e de um valor que é vendável”, diz Norma. A ideia é manter os valores entre 40% e 60% do preço original.


A fase preparatória para a garage sale se estende por até sete dias e envolve a assinatura de um contrato, no qual se estabelecem os direitos e as obrigações dos garagistas – que ganham um percentual sobre as vendas – e dos clientes. O comércio das peças costuma durar, no máximo, quatro dias.

O comerciante Hélio Angotti é um entusiasta das garage sales: 
'De uma xícara sem pires a um carro, tudo é vendido', garante (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
O comerciante Hélio Angotti é um entusiasta das garage sales: "De uma xícara sem pires a um carro, tudo é vendido", garante

Nesse período, objetos valiosos e antigos podem ser vendidos a preços quase simbólicos. O trio da Garage BSM negociou a R$ 1.500 um espelho do século XVIII, comprado por R$ 8 mil. O também garagista Guilherme Ribeiro encontrou uma cadeira assinada por Sérgio Rodrigues, designer do arquiteto Oscar Niemeyer, em uma garage sale, em Brasília. “Paguei R$ 300 e a revendi por R$ 9 mil em um leilão no Rio de Janeiro”, lembra o comerciante. Há pouco mais de um mês, ele e o irmão, Pedro Ribeiro, realizaram uma garage na casa de um diplomata europeu (os preços dos produtos foram citados no início do texto). “Antes de efetuar a compra, o cliente testa e analisa as peças”, explica Pedro. Como os objetos são usados, não é possível oferecer ao comprador um atestado de garantia. O valor é sempre negociado à vista e apenas são aceitos cheques de clientes conhecidos e cadastrados.


Hélio Angotti é o expositor mais antigo da Feira de Antiguidades do Gilberto Salomão e um entusiasta das garage sales. “De uma xícara sem pires a um carro, tudo é vendido”, garante. Em uma de suas garage, ele expôs uma antiga cadeira de dentista de mala e se surpreendeu com o fato de a peça ter sido adquirida por R$ 250 por um maquiador de noivas. Há também histórias tristes. Angotti afirma que teve um cliente que precisou vender o que tinha para viajar ao Rio de Janeiro, a fim de tratar de um câncer de mandíbula. “Eu abri mão da minha comissão, para reduzir o preço, vender rapidamente e resolver o problema dele.”

A publicitária Tatiana Moysés é frequentadora das garage sales: 'A gente acha de tudo, são produtos de muita qualidade a um preço acessível, que não são encontrados nas lojas', diz (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
A publicitária Tatiana Moysés é frequentadora das garage sales: "A gente acha de tudo, são produtos de muita qualidade a um preço acessível, que não são encontrados nas lojas", diz

Segundo Pedro Ribeiro, as garage sales surgiram em Brasília há cerca de 20 anos, mas só se tornaram conhecidas por volta de 2009. “O preço e a qualidade são os principais atrativos”, diz. Lago Sul, Asa Norte, Asa Sul, Sudoeste e Park Way são os principais pontos de concentração desses eventos.


Os passeios em feiras, bazares e brechós de usados motivaram a secretária executiva Danuse Pires a se tornar garagista. “Fui dona de brechó, durante cinco anos, na Asa Sul e na Asa Norte, e 90% da mercadoria eu comprava em garage sales”, conta ela, que atua no ramo há 11 anos. Atualmente, ao receber o e-mail ou o telefonema do cliente, ela vai ao local e analisa a viabilidade do negócio. Uma de suas exigências é a de que a garage sale tenha o mínimo de R$ 15 mil em peças. “Temos despesas com faixas, Correios, mala direta, funcionários e alimentação. Cobramos um percentual de 20% sobre o valor total da venda. A frequência é de duas garage sales por mês, mas há épocas em que dá para fazer o mês inteiro.”


Danuse Pires é garagista e uma de suas exigências é a de que, para fazer um evento, haja o mínimo de R$ 15 mil em peças: 'Há épocas em que dá para fazer garage sales todo fim de semana' (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
Danuse Pires é garagista e uma de suas
exigências é a de que, para fazer um evento,
haja o mínimo de R$ 15 mil em peças: "Há
épocas em que dá para fazer garage sales todo
fim de semana"
A professora Ana Schramm sempre busca, nas garage sales, raridades e peças especiais, impossíveis de serem encontradas em qualquer lugar. “Eu sempre dou uma olhada no jornal e na internet, à procura de garage sales. O preço também me atrai”, diz. As taças de cristal sobre um aparador chamavam a atenção da publicitária Tatiana Moysés, que se tornou frequentadora assídua desde o ano passado. “Eu nunca tinha ouvido falar em garage sale. Meu marido foi quem quis conhecer. Comecei a ir por causa dele e adorei. A gente acha produtos de muita qualidade a um preço acessível, que não são encontrados nas lojas”, diz. Ela conta ter comprado “de tudo”, de computador até móveis e bugigangas, como brincos e anéis.

 

Dos EUA para o mundo

 

As garage sales surgiram nos EUA e se tornaram mania nacional. Os norte-americanos costumam expor produtos que não mais desejam nos jardins de suas casas, especialmente às vésperas de mudanças. Para anunciar a oportunidade de negócios, utilizam a propaganda boca a boca, além de placas artesanais, cartazes e flyers. A Highway 127 é considerada a maior garage sale do mundo e envolve os estados de Mississippi, Alabama, Kentucky e Tennessee, perfazendo um total de 1,1 mil km.

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017