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DEZ PERGUNTAS PARA | GIULIANO MANFREDINI »

Em nome do pai

Filho de Renato Russo e tutor da marca Legião Urbana, Giuliano Manfredini assume a missão de projetar a história e preservar a memória do maior artista brasiliense. A capital só tem a ganhar

Dominique Lima - Redação Publicação:20/03/2013 18:33Atualização:20/03/2013 18:38

 (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
 

Administrador da marca Legião Urbana desde o início de 2013, Giuliano Manfredini pretende revolucionar a gestão do legado herdado do pai, Renato Russo. Com projetos encaminhados para este e os próximos anos, o produtor de shows de 23 anos quer garantir papel mais ativo da marca na difusão da obra de um dos maiores nomes da geração brasiliense dos anos 1980. Nessa empreitada, Giuliano promete dar ênfase ao trabalho voltado para a capital federal, em especial no aumento da projeção nacional e internacional da cidade.
Em um hotel com vista para o novo estádio de Brasília, ele apresentou detalhes do plano, que inclui show gratuito para 50 mil pessoas com holograma do músico falecido em 1996, exposição itinerante e multimídia do acervo pessoal do artista e três filmes relacionados à sua obra. Renato Russo faria 53 anos em 27 de março. Giuliano completará 24 dois dias depois.

1 | ENCONTRO – Em que consiste o trabalho com o legado do seu pai?


GIULIANO MANFREDINI – Eu sou produtor de shows. Comecei a trabalhar com 16 anos e a história de Renato Russo e da Legião Urbana cercou praticamente toda a minha vida. O trabalho começou naturalmente, mas agora eu estou assumindo a empresa chamada Legião Urbana Produções Artísticas. Quero trazer minha expertise de produção e começar a fazer eventos, shows e dar uma renovada no que é a Legião Urbana. Meu trabalho é não deixar que a obra e a imagem do meu pai sejam canibalizadas. A ideia é expandir o conceito da empresa para atender a demanda por Renato Russo no Brasil e fora do país.

2 | Como descreveria a figura de Renato Russo para as novas gerações?


Ele era uma pessoa extremamente iluminada, sensível, uma pessoa extremamente boa, mas defini-lo como uma pessoa boa é pouco. Ele era muito mais que isso. Não via só o bem e o mal, mas a situação muito mais profunda. Era excepcional, inteligentíssimo, um gênio. Mas, com a principal qualidade dele, que era humano.


3 | O que diz sobre as comparações entre pai e filho?


Existe uma diferença entre meu pai e eu, até porque nossos papéis aqui são diferentes. Ele criou. Eu administro. São funções diferentes. E requer diferença de personalidades. O que meu pai me passou é tudo para mim. É difícil sintetizar essa relação. Porque meu pai é, de certa forma, uma verdade para mim. Minha missão não é ser ele, mas cuidar do que ele deixou e expandir.

4 | Que projetos tem em vista?


Temos o Renato Russo sinfônico, que fará parte da inauguração do estádio Mané Garrincha em Brasília em 29 de junho. Esse é um projeto que tem mais de 20 anos. Ele começou com o meu pai e o maestro Sílvio Barbato, que faleceu na queda do avião da Air France em 2009. E o projeto voltou a ser tocado pelo meu avô e começou a ser executado em 2000, mas foi deixado de lado depois que ele também faleceu. Retomei o projeto, mas dando cara nova para o evento. Tive a ideia de fazer algo como o holograma do (rapper) Tupac usado no Festival Coachella (falecido em 1996, o cantor norte-americano apareceu em imagem 3D no show de Snoop Dog na Califórnia em 2012). Não queremos trazer meu pai de volta, mas, sim, sua presença de palco. O diretor artístico é o Mark H. Lucas, que ganhou o Emmy (um dos principais prêmios da TV estadunidense). Há também a V squared, uma empresa de efeitos visuais para shows, que vai criar as projeções em 3D. E vários artistas participarão. Uns confirmaram, outros ainda não. Já temos o Lobão, a Zélia Duncan, a Mart’nália, o Igor Cavalera. O show terá capacidade para 50 mil pessoas e será de graça.

5 | Além do show, teremos mais lançamentos em 2013?


Há também os dois filmes. Um é Faroeste Caboclo, que vai ser lançado em maio e tem no elenco Isis Valverde, Fabrício Boliveira e Felipe Abib. Eu acompanhei de perto as filmagens. É um filme lindo, muito benfeito, que foi dirigido pelo René Sampaio, que é de Brasília. E tem também o Somos Tão Jovens, que sairá no segundo semestre. Quem interpreta o meu pai é o Tiago Mendonça, que está muito bem. Tem horas até que dá susto. A silhueta parece demais e o andar é idêntico. Também estou codirigindo um documentário com o cineasta Sérgio Roizenblit, mas esse deve demorar uns dois anos para ficar pronto. É a história sobre o lugar de onde ele veio, por onde ele passou, da sua infância e adolescência.

6 | A arte e a erudição tiveram muita importância e influência na vida do seu pai. Qual é a importância delas para você?


Eu diria que arte está em tudo. Está na política, na economia, nas relações humanas em geral. Então, consumir cultura e arte é natural. Você não vive sem música. Não consegue viver sem se expressar. Não se pode negar esse direito a ninguém. É o que move, é o estofo, é o que traduz os momentos que vivemos. Música, arte e cultura são a minha vida, não conheço nada além.


7 | Qual sua relação com Brasília? O que pensa da cidade hoje?


Sou do Rio de Janeiro, mas cresci aqui e fui educado aqui. Meus amigos são de Brasília. Eu amo esta cidade. Mudei-me para São Paulo por questões profissionais no fim do ano passado, mas meu coração continua aqui. Há uma energia diferente de outros lugares. E, como é tudo muito amplo, parece ser mais fácil respirar e organizar as ideias em Brasília. Aqui é extremamente agradável para se morar. Ainda há lado humano na cidade. E acho que Brasília está crescendo muito e muito rápido, muita coisa mudou nos últimos 10 anos.

8 | Os projetos do show e dos filmes devem ajudar nesse processo de transformação da cidade?


O que adorei é que o filme Faroeste Caboclo mostra uma Brasília que quem é daqui conhece, mas quem é de fora, não. Queremos explorar melhor, mostrar esse outro lado da cidade, que está longe da imagem de capital política. Com o Renato Sinfônico, a ideia é colocar Brasília no lugar que ela sempre mereceu dentro da indústria do show business. Um lugar de visibilidade internacional. A cidade ainda tem dificuldades de estrutura, como no atendimento às necessidades de mobilidade urbana, sua rede hoteleira. Mas nós queremos incentivar a melhora desses aspectos.

9 | Há também projetos envolvendo o acervo pessoal de Renato Russo?


Estamos nos associando com o Museu da Pessoa para cuidar desse acervo. Há pessoas especializadas que vão nos ajudar na preservação, porque há vários manuscritos e materiais ainda não conhecidos do grande público. E nós precisamos não só cuidar, mas também utilizá-los. A ideia é fazer uma exposição multimídia itinerante que deve ficar pronta em dois anos. O que é melhor para compreender Renato Russo do que as coisas que ele usava, lia, ouvia? Os fãs da Legião Urbana são órfãos. Dessa forma, eles serão confortados e vão poder entender quem ele era de verdade.

10 | Quem era Renato Russo de verdade?


(Pausa) Para mim essa é uma pergunta muito profunda. Não há como sintetizar, mas posso dizer quem era meu pai. Ele era um excelente pai (emociona-se). Até hoje ele é a pessoa mais presente na minha vida. Eu devo tudo a ele. Então, o que eu posso fazer é o que estou fazendo agora, administrar o que era dele. E foi desejo dele também. Ele quem me passou isso e me deu uma missão maravilhosa. Porque muita gente procura uma missão, um propósito, e eu já tenho esse propósito. Sou abençoado por ter como parte da minha vida uma pessoa por quem vale a pena lutar. Ele acrescentou tanto na vida de outras pessoas. Para mim, esse é o meu pai, esse conceito. Ele me ensinou a ajudar os outros. Tentar enxergar além do que vemos e chegar à razão, ao coração de tudo isso.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017