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Nas Telas »

Lições para a Academia

José João Ribeiro - Colunistas Publicação:25/03/2013 16:45Atualização:25/03/2013 16:49

 Oscar Diggs (James Franco) é um mágico pouco ético e dono de um circo em Oz: Mágico e Poderoso (Divulgação)
Oscar Diggs (James Franco) é um mágico pouco ético e dono de um circo em Oz: Mágico e Poderoso
 

Entra ano, sai ano e a gente não aprende. O Oscar é, antes de tudo, um show para a televisão. A fórmula pode variar, mas é batata: quase sempre decepciona. Toda a corrida de 2013 ficará marcada pela antecipação da coleta dos votos e do anúncio dos indicados. Seguramente, está aí a explicação para a avalanche de saias justas. O saldo da cerimônia em si foi positivo, com um aumento expressivo na audiência. Se a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas tiver juízo, saberá desviar das armadilhas em 2014, pois as deste ano foram muito previsíveis.


O programa (de novo) pareceu longo, quase interminável. Mas, desde a entrada do novo cicerone Seth MacFarlane, pairava no ar um indisfarçável constrangimento. Argo vai levar a categoria principal, sem uma indicação para o seu diretor Ben Affleck? Quer dizer que o filme se dirigiu sozinho? Na história do prêmio, esse fato aconteceu somente quatro vezes, sendo a última em 1990, quando venceu Conduzindo Miss Daisy. A Academia tem pavor desse tipo de mal-entendido. Podemos rejeitar a hipótese de pouco caso proposital, de Ben ter sido esnobado. O que ocorreu foi uma infeliz falha de percurso, justificada pelo novo processo de eleição. Argo tinha as credenciais, mesmo não sendo o melhor. E praticamente todos os sindicatos passaram esse recado, com a massiva consagração da aposta da Warner.


Se Argo disparou, Lincoln padeceu, por causa do tropeço com Ben Affleck. O favoritíssimo da largada garantiu apenas a barbada do terceiro Oscar para Daniel Day-Lewis e mais um em categoria técnica (direção de arte). O enfraquecimento do recordista de indicações rendeu na grata e única surpresa da noite: duas importantes estatuetas para a ovelha negra Django Livre. Quentin Tarantino não faz a cabeça dos senhores conservadores, maiores representantes da indústria cinematográfica norte-americana. Um Oscar para o roteiro e o segundo para Christoph Waltz, de melhor ator coadjuvante, vencendo o favorito Tommy Lee Jones (Lincoln), demonstram que a estética agressiva do diretor poderá surpreender nas futuras edições.


Nem sempre ganha o melhor. Que o diga a francesa Emmanuelle Riva, preterida pela muito, muito jovem Jennifer Lawrence. O mesmo embaraço de 14 anos atrás, quando a nossa diva Fernanda Montenegro somente assistiu à vitória de uma insegura Gwyneth Paltrow. Essas decepções são a cara do Oscar. Porém, outras arestas, mais protocolares, podem (e devem) ser aparadas. Se a “estrada” para o Oscar realmente crescer, da coleta dos votos, para o anúncio dos indicados, até chegarmos ao dia da cerimônia, o processo inteiro merecerá um novo e dedicado estudo. Sob pena de as manchetes do tipo “Deu a louca na Academia”, se repetirem no ano que vem.


Agora, a Disney injeta cinismo em Oz. Com a estreia de Oz: Mágico e Poderoso, sua primeira grande produção para 2013, a Disney joga pesado. Tudo para não repetir o monumental fracasso John Carter, lançado no mesmo período do ano passado. Pelas mãos do mestre do cinema fantástico Sam Raimi, remontamos o universo de Oz, seguindo ao pé da letra o mesmo traçado do musical da MGM (1939). Para tentar equilibrar a ausência da Dorothy de Judy Garland, aposta-se na figura cínica e fanfarrona do mágico, fugido do Kansas em um balão, interpretado pelo talentoso James Franco. O respeito pelo original, com valores novos, pode ser determinante para o justo, mas tardio resgate de um clássico.

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017