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O mapa da mina

O que e como comprar nas principais feiras permanentes da capital. Especialistas na arte de garimpar, arquitetos, chefs e estilistas mostram o que é possível encontrar: temperos raros, peixes fresquinhos, objetos de decoração, roupas e acessórios a preços mais baixos

Matheus Teixeira - Redação Publicação:26/03/2013 14:31Atualização:26/03/2013 17:04

As folhas e flores secas, ícones do cerrado: espaço dividido com o artesanato e suvenires na Feira da Torre (Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
As folhas e flores secas, ícones do cerrado: espaço dividido com o artesanato e suvenires na Feira da Torre

Há preciosidades escondidas nas feiras permanentes do Distrito Federal. Seja pelo preço, normalmente bem mais barato; seja pela raridade, pois alguns produtos são difíceis de achar nos supermercados, nas lojas de quadras e de shoppings. Um olhar mais treinado e atento é o primeiro quesito para garimpar tesouros perdidos na grandiosidade dos centros populares, que chegam a atrair até 100 mil pessoas em um fim de semana próximo de datas importantes, como o Natal. Nelas, tem tudo o que se imagina. Mas o que há de bom e de diferente em cada uma delas?


O coordenador de gastronomia do Instituto de Ensino Superior de Brasília (IESB) é frequentador assíduo da Feira do Guará e conta que não há lugar melhor para um cozinheiro. “É incrível. Você encontra tudo: do raríssimo açafrão espanhol, passando pelos mais variados tipos de pimenta até o delicioso requeijão caipira, que só tem aqui. Tudo isso com preço acessível e negociável”, garante.


Os peixes fresquinhos e carangueijos vivos comercializados na Feira do Guará também surpreendem aqueles que imaginam o lugar apenas como polo de venda de roupas. Da mesma forma, estão enganados os que veem a Feira dos Importados somente como um reduto para comprar eletroeletrônicos e produtos de informática. Uma das surpresas encontradas é o espaço destinado aos adeptos de modelismo: a maior loja do Centro-Oeste, segundo o gerente Marcos Antônio Cortes.“Temos mais de 5 mil clientes registrados, e estamos crescendo”, comemora.


Ao mesmo tempo que inovam, as feiras não abandonam aquele clima peculiar. Pessoas passando, vendedores anunciando seus produtos para atrair clientes, figuras folclóricas que ali estão há anos e todo o calor humano que as diferenciam de qualquer outro ambiente. Que o diga o engraçadíssimo Francisco de Assis, proprietário, há 14 anos, de uma banca de roupas íntimas na Feira de Ceilândia. “Tenho uma coleção de calcinhas que é maior do que a que tinha o cantor Wando”, brinca.


Manter esse clima informal e a “cara” da feira para que ela não se desvirtue do conceito original é uma preocupação que existe na Feira de Artesanato da Torre. O administrador Jorge Braga tenta inibir a entrada de algumas grandes lojas de móveis planejados, que alugaram o espaço dos feirantes. “Estamos investigando quais são os boxes que fizeram isso e vamos retirá-los daqui o mais rápido possível. Na feira, só admitimos artesãos”, explica Jorge. Ele lembra que a mesma coisa aconteceu com alguns restaurantes. “Acabamos com os restaurantes self-service. Os estabelecimentos só podem vender comidas típicas das regiões do Brasil.”


Comidas típicas e artesanato são de fato os grandes atrativos da Feira da Torre. Quem deseja voltar às origens e sentir o sabor do Nordeste pode comer um acarajé. “Buchada de bode, mocotó, sarapatel, dobradinha, vaca atolada e tudo que vem da nossa terra nós temos aqui”, conta a maranhense Tatiana Torres, proprietária de um restaurante, que comercializa até 300 refeições em dias movimentados.


A arquiteta Flávia Lencastre acredita que a Feira da Torre é ótima para pinçar móveis acessórios, como criados-mudos e pufes de couro. Também recomenda alguns objetos decorativos, especialmente os que são produzidos com capim dourado.


As feiras também têm um importante papel na vida econômica das regiões administrativas. Na Feira do Produtor de Vicente Pires, por exemplo, 70% dos produtos hortifrutigranjeiros comercializados vêm das chácaras da Colônia Agrícola Vicente Pires. “Todos ganham: o pequeno agricultor, que vive da plantação; o proprietário da barraca, que lucra na hora da venda, e o funcionário, que recebe o salário por meio do lucro da venda dos produtos”, explica a diretora administrativa da Associação dos Feirantes da Feira do Produtor de Vicente Pires, Cleusa Rosa.


O grande movimento faz com que o corpo a corpo com o cliente seja mais intenso do que em shopping e lojas comuns. E isso é uma vantagem na hora de vender, garante a vendedora Antônia Roselene Silva, que trabalhou sete anos em um shopping e está na Feira dos Goianos há um mês: “Vendi a mesma quantidade que no meu antigo emprego.”


A vendedora Patrícia Nobre concorda com Antônia e também elogia o clima da feira. “As pessoas são mais simpáticas, humildes, não têm frescura. Sem falar que podemos ver a luz do dia, não ficamos presos em um prédio”, compara.


As feiras não são famosas só para os brasilienses. Turistas, quando vêm à capital do país, também querem conhecê-las. Um exemplo são as chilenas Clara Silva e Javiera Lamas. “As feiras têm uma coisa boa por serem mais informais”, ressalta Clara. Javiera diz ter adorado os vestidos da Feira do Guará. “O povo brasileiro tem muito bom gosto.”


Já Milena Vaz conhece como ninguém a feira. Ela cresceu por lá. Sua mãe é dona de uma loja de roupa há 23 anos “Estou aqui desde os 5 anos. Acompanhei a evolução da feira. Atualmente, está bem mais organizada”, comenta, satisfeita.

 

Feira do Produtor de Vicente Pires

Na Feira do Produtor de Vicente Pires, 70% dos produtos hortifrutigranjeiros vêm diretamente de hortas, todos os dias (Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
Na Feira do Produtor de Vicente Pires, 70% dos produtos hortifrutigranjeiros vêm diretamente de hortas, todos os dias

História: em 1995, 12 feirantes aproveitaram um galpão abandonado para vender
os hortifrutigranjeiros produzidos na região.
Ao longo dos anos a feira cresceu, mas manteve as origens. O forte continua
a ser os hortifrutigranjeiros e 70% deles ainda são originários das chácaras da Colônia Agrícola Vicente Pires. Cleusa Rosa, diretora administrativa da Associação dos Feirantes
da Feira do Produtor de Vicente Pires, exalta a importância da feira para a região. “Ajudamos no desenvolvimento da cidade”, destaca.

O que tem: hortifrutigranjeiros, comidas em geral e açougue.

Diferencial: as frutas e as verduras vêm das chácaras da região.
Melhores dias: sábado e domingo, mas todos os dias chegam produtos frescos.

Média de público: até 5 mil pessoas
por fim de semana.

Tamanho:
143 boxes.

Dicas de especialista: “Além das frutas e verduras fresquinhas, outro ponto forte
da feira são algumas carnes de qualidade e difíceis de achar em outros locais, como galinha caipira, carne de carneiro e de porco. Todas boas e baratas”, diz Celeste Liporoni, dona de casa que frequenta a feira desde a inauguração.

 

Feira de Artesanato da Torre

A arquiteta Flávia Lencastre diz que a Feira da Torre é ótima para procurar móveis e acessórios, como alguns objetos decorativos de capim dourado (Fotos: Minervino Junior/Encontro/DA Press)
A arquiteta Flávia Lencastre diz que a Feira da Torre é ótima para procurar móveis e acessórios, como alguns objetos decorativos de capim dourado

História: no começo dos anos 1970, oito hippies resolveram vender seus artesanatos embaixo da Torre de TV, local bastante movimentado por ser um ponto turístico. No início, colocavam um pano no chão e expunham as artes. Mais tarde, improvisaram mesas com um guarda-sol em cima para se protegerem do sol e da chuva. Com o crescimento da feira, o governo decidiu regularizar o espaço e montou uma barraca para cada artesão. E assim ficou até 2011, quando foi inaugurada a nova Feira da Torre, maior e mais organizada. Os feirantes reclamam que as vendas caíram em até 50%. Porém, o presidente da associação dos feirantes, Jorge Braga, discorda: “O local é mais amplo. Agora, as pessoas ficam mais espalhadas. A sensação é de que está mais vazio, mas não é verdade”.


O que tem: artesanatos dos mais variados: móveis, lembranças da cidade, calçados, bijuterias, roupas, decoração para casa e comidas típicas dos estados brasileiros.

Diferencial:
lembranças da cidade e móveis.

Melhor dia:
quinta-feira (dia em que chegam as mercadorias).

Média de público:
15 mil pessoas.

Tamanho:
613 boxes.

Dicas de especialista:
“A feira tem móveis lindos. Mas não recomendo montar um ambiente inteiro somente com o que tem lá. O que há de melhor são os complementos, como lindos criados- -mudos, pufes de couro e coisas do gênero”, recomenda a arquiteta Flávia Lencastre.

 

Feira do Guará

O professor de gastronomia Sebastian Parasole garimpa especiarias na Feira do Guará: 'Até o açafrão espanhol, eu encontro' (Fotos: Minervino Junior/Encontro/DA Press)
O professor de gastronomia Sebastian Parasole garimpa especiarias na Feira do Guará: "Até o açafrão espanhol, eu encontro"

História: no começo da década de 1980, ambulantes vendiam roupas e acessórios onde hoje fica a estação de metrô. O governo decidiu, então, montar uma estrutura e em 1986 os transferiu para onde estão até hoje. O presidente da Associação dos Feirantes da Feira do Guará, Cristiano Jales, destaca a ligação da feira com a cidade: “É impossível imaginar o Guará sem a feira, e vice-versa. Além da criação de emprego, tem todo um aspecto cultural”.

O que tem: roupas, acessórios, peixarias, queijos, temperos.

Diferencial:
os melhores pescados da cidade.

Melhor dia: quinta-feira
Média de público: 20 mil pessoas por semana.

Tamanho: 645 boxes.

Dicas de especialistas: “A feira tem roupas ótimas e com bom preço. Indico, principalmente, as infantis e as de academia. Há peças lindas para crianças. E as roupas de academia são de qualidade e muito mais baratas do que em lojas”, indica a estilista Fernanda Ferrugem. “O melhor dia para comprar pescados é a quinta-feira, quando os peixes chegam. Compro lá há 15 anos e nunca tive problema”, atesta o chef David Lechtig. O professor de gastronomia chef Sebastian Parasole diz que a Feira do Guará  o melhor lugar para comprar temperos, até mesmo os mais difíceis de encontrar em Brasília.

 

Feira dos goianos

A estilista e rapper Nine Ribeiro: na Feira dos Goianos, procure as calças jeans femininas; 
na de Ceilândia, camisas de musseline e mullets (Fotos: Minervino Junior/Encontro/DA Press)
A estilista e rapper Nine Ribeiro: na Feira dos Goianos, procure as calças jeans femininas; na de Ceilândia, camisas de musseline e mullets

História: em 1998, um grupo de cerca de 100 feirantes goianos decidiu tentar a vida na capital. Instalaram-se em frente ao Conic, mas não deu certo. Alugaram um galpão em Taguatinga, dividiram o espaço entre eles e de lá não saíram mais. A feira cresceu. Dimilson Mendes, vice-presidente da Associação dos Feirantes da Feira dos Goianos, conta que ainda há muitos goianos na feira, porém, os brasilienses já tomaram conta.
Segundo Dimilson, a feira gera, direta e indiretamente, mais ou menos 15 mil empregos. “Algumas empresas abriram para produzir exclusivamente produtos para a feira.”

O que tem: roupas e acessórios.

Diferencial:
o baixo preço das roupas femininas.
Melhores dias: terça e quarta-feira.

Média de público: em dias normais, 30 mil pessoas. Em datas comemorativas, como o Dia das Mães, chega a 60 mil. Em época de Natal, atinge até 100 mil visitantes.

Tamanho: 3 mil boxes.

Dicas de especialista:
“É um excelente lugar para comprar calça jeans feminina. Há peças bonitas, de qualidade e com bons preços. Mas o diferencial são as bijuterias.
Há acessórios lindos e variados. Também  possível encontrar bonitas calças legging. Porém, fique atento. O acabamento de algumas não é bom e podem rasgar facilmente”, avalia a estilista Nine Ribeiro.

 

Feira dos Importados

 

Na Feira dos Importados há um espaço destinado ao modelismo: 'Temos mais de 5 mil clientes registrados', conta o gerente de loja, Marcos Antônio Cortes (Fotos: Minervino Junior/Encontro/DA Press)
Na Feira dos Importados há um espaço destinado ao modelismo: "Temos mais de 5 mil clientes registrados", conta o gerente de loja, Marcos Antônio Cortes

História: na década de 1990, ambulantes se aglomeravam nas imediações do Estádio Mané Garrincha. O local era chamado de Feira do Paraguai. Em 1997, o governo decidiu, então, levá-los, com os ambulantes que ficavam no Setor Comercial Sul, para o Setor de Indústria e Abastecimento (SIA), onde estão até hoje.

O que tem: eletroeletrônicos, móveis, tapetes, roupas, acessórios, artigos para casa,
som automotivo, informática, restaurantes, objetos para pescaria e esportes montanhosos.

Diferencial:
eletroeletrônicos, som automotivo, objetos para pescaria e roupas para esportes montanhosos e modelismo.

Melhores dias:
sábado e domingo.


Média de público:
até 80 mil no fim de semana.

Tamanho:
2.080 boxes.

Dicas de especialista:
“É um bom lugar para comprar produtos tecnológicos pequenos,
como teclado, mouse, HD externo. Para aparelhos maiores, recomendo cuidado. É fácil encontrar bons computadores e laptops com preços em conta. Porém, alguns não são originais. Sugiro que preste a atenção na garantia. Se ela for menor que um ano, não confie. Também pergunte se o suporte da garantia é feito por uma assistência autorizada. Se responderem que são eles mesmos que fazem, desconfie. Quem cobre a garantia é a empresa, não a loja que está vendendo”, aconselha o consultor
em informática Luiz Henrique Quemel.

 

Feira Central de Ceilândia

A fama já se espalhou: a feira da Ceilândia oferece o que você quiser comprar %u2013 roupas, sapatos, retratos e outros segredos que só quem for, verá (Fotos: Minervino Junior/Encontro/DA Press)
A fama já se espalhou: a feira da Ceilândia oferece o que você quiser comprar %u2013 roupas, sapatos, retratos e outros segredos que só quem for, verá

História: quando Ceilândia nasceu, em 1971, havia três feiras na cidade. Como nenhuma atraía um grande público, decidiram juntá-las no centro da cidade. Logo na entrada, uma placa grande estampa a frase: “Nasceu e cresceu junto com a cidade”. O presidente da Associação dos Feirantes da Feira Central de Ceilândia, Francisco Nogueira, o França, destaca a forte ligação que a cidade tem com o lugar. “Quem não sabe onde fica a Feira Central da Ceilândia? Ela é muito antiga, conhecida no DF inteiro”.

O que tem: roupas, acessórios, restaurantes e artigos para casa.

Diferencial: os famosos restaurantes de comidas típicas nordestinas.


Melhores dias: se preferir a tranquilidade, às quintas e sextas-feiras.

Média de público:
até 11 mil pessoas em dias movimentados.

Tamanho: 463 boxes.

Dicas de especialista:
“No verão, por exemplo, a feira tem muitos biquínis e maiôs bonitos e baratos. Também há boas opções de camisas musseline e mullet, que estão na moda, por um preço bacana, muito mais barato do que nas lojas e nos shoppings”, sugere a estilista Nine Ribeiro.

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017