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A grande vilã dos concurseiros

As redações, cada vez mais decisivas para aprovação em concursos públicos, costumam assustar os candidatos. Mas especialistas garantem: com treino e disciplina, qualquer pessoa pode chegar à nota 10

Larissa Domingues - Publicação:27/03/2013 16:56Atualização:27/03/2013 18:22

Para o professor Fernando Moura, a preparação para as provas objetivas são fundamentais nos concursos públicos: 'O candidato precisa evidenciar domínio de temas da atualidade e de temas técnicos que constam dos programas' (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
Para o professor Fernando Moura, a preparação para as provas objetivas são fundamentais nos concursos públicos: "O candidato precisa evidenciar domínio de temas da atualidade e de temas técnicos que constam dos programas"

Responder corretamente as questões objetivas de uma prova pode não ser uma tarefa fácil, mas possível para quem tem disciplina. Basta que o candidato siga à risca o conteúdo programático indicado no edital de abertura e dedique parte de seu tempo às leis, apostilas, livros e questões de provas anteriores. Mas, e na hora da redação? Esta fase avaliativa, que tem sido cada vez mais cobrada em seleções de todo o país, é encarada como um empecilho por grande parte dos concurseiros, seja por nervosismo seja por falta de intimidade com as palavras.


André de Albuquerque Feitosa já integrou o rol dos assombrados pela redação. No início da vida de concurseiro, o analista de sistemas costumava dar pouca importância para essa fase, priorizando as questões de múltipla escolha e de certo e errado. A grande lição veio depois: o estudante começou a ser aprovado nas avaliações objetivas e reprovado na parte discursiva. Resolveu então se matricular em um curso preparatório específico para quem deseja aprimorar textos. “Percebi o quão pobre e deficiente eu era na escrita e comecei a ver que um texto bem estruturado é muito mais pontuado e valioso do que um texto longo, cheio de palavras difíceis ou de jargões técnicos”, conta. “Tinha dificuldade em iniciar um texto. Muitas vezes ficava 10, 15, 20 minutos com a caneta no papel sem sair nada, nem uma palavra. Às vezes eu conseguia até escrever um parágrafo, mas me faltavam ideias para continuar.”

No início da vida de concurseiro, André de Albuquerque já foi assombrado pela redação, mas superou: 'Eu sou um exemplo de que com dedicação é possível fazer uma boa redação' (Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
No início da vida de concurseiro, André de Albuquerque já foi assombrado pela redação, mas superou: "Eu sou um exemplo de que com dedicação é possível fazer uma boa redação"

Depois de muito treino, o jovem tem orgulho de dizer que, por pouco, não foi aprovado no concurso da Polícia Federal, sua grande meta de vida. Inclusive, conseguiu ser classificado na fase discursiva e credita o êxito à sua força de vontade. “Existem pessoas que têm muita facilidade para escrever, mas não é o caso da grande maioria, da qual eu faço parte. Eu sou um exemplo de que com dedicação é possível fazer uma boa redação”, diz. André explica que a prática constante, aliada ao conhecimento do perfil das organizadoras, é de extrema importância para obter sucesso nessa etapa.


O mesmo aconteceu com o servidor público Wallison Carvalho. Ao perceber o nível de dificuldade exigido pelas bancas, resolveu procurar ajuda em um curso de texto. Resultado? Conseguiu tirar 9,8 em uma redação de concurso e ressalta que só não alcançou a nota máxima por conta de uma vírgula fora do lugar. Uma das coisas que ajudou Wallison a se tornar mais desenvolto foi o investimento na leitura. “Lendo, verificamos estilos diferentes de escrita. Isso ajuda a perceber quais deles são mais compreensíveis e, dessa forma, é possível elaborar textos de forma semelhante. Além disso, a leitura enriquece muito o vocabulário.”


O funcionário público não subestima a importância da redação e acredita que ela é responsável por selecionar candidatos mais preparados. “Sou concursado há seis anos e percebo a dificuldade que muitos servidores têm em redigir. E serviço público carece de pessoas que escrevam de forma mais objetiva e clara”, diz.

O servidor público Wallison Carvalho tirou 9,8 em uma redação de concurso: tornou-se mais desenvolto ao investir em leitura (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
O servidor público Wallison Carvalho tirou 9,8 em uma redação de concurso: tornou-se mais desenvolto ao investir em leitura

Para a especialista em linguística Dad Squarisi, autora do livro A Arte de Escrever Bem, conseguir uma nota alta na redação não depende de dom para escrita. “Escrever é uma habilidade, e como toda habilidade, exige treino”. Ela diz que quem quer ficar craque no manuseio das palavras deve, assim como os atletas olímpicos, se dedicar o tempo todo. “Uma dica importante é escrever todos os dias, de preferência à mão, já que a prova é assim. Sobre qualquer assunto, não importa qual. E não importa também, no começo, a correção. O importante é desinibir a mente”, aconselha. Segundo a especialista, assunto é o que não falta – o que falta é organizar esse assunto –, então a dica é pedir a orientação de um professor e comprar livros de redação. “Existe uma série de coisas que ajudam o candidato a se aperfeiçoar”, acrescenta Dad Squarisi.


Durante muito tempo, Dad foi examinadora do Instituto Rio Branco (IRBr), que promove um dos concursos mais difíceis e desejados do país: o de diplomata. Também trabalhou junto a organizadoras renomadas, como a Escola de Administração Fazendária (Esaf). Para ela, o maior pecado cometido pelos candidatos na hora de colocar as ideias no papel é referente à estruturação do texto. “O candidato tem de planejar a introdução, o desenvolvimento e a conclusão, e deixar bem claras as três partes, saber transitar de uma para outra de tal forma que não existam rupturas – o que se chama coesão textual.” A parte mais importante do texto, segundo ela, são as três primeiras palavras. E a segunda parte mais importante do texto são as três últimas. “Isso é treino, tudo é treino. Não pode ter preguiça”.


O professor Fernando Moura sempre teve habilidade com as palavras. Aos 13 anos, ganhou um concurso nacional de redação. Hoje, tem um instituto que leva o próprio nome, no qual auxilia alunos nas disciplinas de interpretação de texto, redação, gramática aplicada e redação oficial, entre outras. O docente alerta para as modalidades de redação (prova discursiva) que exigem conhecimentos específicos dos candidatos. “Em concursos públicos, o candidato precisa não só evidenciar domínio de temas importantes da atualidade, como também domínio de temas técnicos que constam dos programas, relacionados aos cargos que assumirão. Por isso, os concorrentes precisam produzir dissertações argumentativas, expositivas, estudos de caso, peças técnicas, pareceres, textos legislativos”, explica. Ele conta ainda que há certames, como os para gestor governamental e auditor da Receita Federal, que exigem a produção de seis redações técnicas na segunda fase. E tudo deve ser produzido sem material para consulta. “Sem domínio de conteúdo, o candidato, é claro, nada produz”, conclui.


Quem pleiteia um cargo público também deve ficar atento aos critérios de avaliação utilizados pelas bancas e evitar trocar os pés pelas mãos. “Numa prova discursiva, a pontuação maior diz respeito ao domínio do conteúdo. Deve-se tomar cuidado com argumentações inexatas, superficiais, pois é reprovação certa. Há, também, aqueles que evidenciam bom ou regular domínio de conteúdo, mas agridem muito o padrão culto da linguagem”, diz Fernando Moura. Apresentar letra ilegível, desrespeitar as margens da folha e a paragrafação também podem eliminar os concurseiros mais desleixados, acrescenta.


O professor defende que as redações sejam obrigatórias em todas as seleções públicas do Brasil. “O texto, além de revelar traços psicológicos do candidato, evidencia seu poder de articulação, de domínio de conteúdo, de intimidade com a língua materna. É fundamental que o aspirante ao serviço público saiba redigir. Lamento, apenas, o fato de algumas instituições executoras de concursos não terem normas claras de avaliação da redação e anularem os sonhos de muitos estudantes”, conclui.

 

Para a especialista em linguística Dad Squarisi, conseguir uma nota alta na redação não depende de dom para escrita: 'Escrever é uma habilidade e, como toda habilidade, exige treino' (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
Para a especialista em linguística Dad
Squarisi, conseguir uma nota alta na
redação não depende de dom para escrita:
"Escrever é uma habilidade e, como toda
habilidade, exige treino"
Confira as dicas de Dad Squarisi para uma redação nota 10

 

Leia o tema da redação.
Entenda-o. Faça as outras provas. Enquanto você resolve questões de português, física, história, a cabeça vai pensando. Vai se organizando. Quietinho. Na hora de redigir, as ideias fluem como num passe de mágica. É só pôr no papel.

Planeje o texto.

Delimite o tema, defina o objetivo, selecione as ideias capazes de sustentar sua tese. Depois, faça um plano como o proposto no esqueminha:

Tema: o assunto geral do texto.

 

Delimitação do tema: aspecto do tema que vai ser tratado.


Objetivo: aonde você quer chegar com seu texto?


Ideias do desenvolvimento: argumentos, exemplos, comparações, confrontos e tudo que ajudar na sustentação do ponto de vista que você quer defender.

Comece pelo começo.

Escolha uma frase bem atraente. Pode ser uma declaração, uma citação, uma pergunta, um verso, a letra de uma música. Depois desenvolva a sua tese. Cada ideia num parágrafo. Por fim, conclua. Com um fecho elegante.
   

Seja natural.

Imagine que o leitor esteja à sua frente ou ao telefone conversando com você. Fique
à vontade. Espaceje suas frases com pausas. Sempre que couber, introduza uma pergunta direta. Confira a seu texto um toque humano. Você está escrevendo para pessoas. Gente igual a você.

Use frases curtas.

Com elas, você tropeça menos nas vírgulas, nos pontos ou nas reticências. “Uma frase longa”, ensinou Vinicius de Moraes, “não é nada
mais que duas curtas.”

Ponha as sentenças na forma positiva.

Diga o que é, nunca o que não é. Em vez de escrever “ele não assiste regularmente às aulas”, escreva “ele falta com frequência às aulas”.

Prefira palavras curtas e simples.

Os vocábulos longos e pomposos criam uma barreira entre leitor e autor. Fuja deles.

 

Seja simples.

Entre duas palavras, prefira a mais curta. Entre duas curtas, a mais expressiva. Casa, residência ou domicílio? Casa.

Opte pela voz ativa.
Ela deixa o texto esperto, vigoroso e conciso. A passiva, ao contrário, deixa-o desmaiado, sem graça.  

Abuse de substantivos e verbos. Seja sovina com adjetivos e advérbios. Eles são os inimigos do estilo enxuto.

 

Seja conciso. Respeite a paciência do leitor. A frase não deve ter palavras desnecessárias.

Revise. Sua redação tem começo, meio e fim? Você defendeu seu ponto de vista? Escreveu parágrafos com tópico frasal e desenvolvimento? Respeitou a correção gramatical?

Avalie. As frases soam bem? Sem cacófatos (por cada, por tão, uma mão, boca dela)?
Sem rimas (rigor do calor)? Você começou bem? Terminou melhor?


Tenha a certeza: uma vaga é sua.

 

 

 (Minervino Júnior/ Encontro/ DA Press)
Por dentro da banca

 

Dos 10 últimos concursos lançados pelo Centro de Seleção e de Promoção de Eventos da Universidade de Brasília (Cespe/UnB), sete tiveram redações ou provas discursivas. E não são só os candidatos de nível superior têm sido obrigados a participar desse tipo de avaliação. É cada vez mais comum que os candidatos de nível médio também sejam analisados pelo conhecimento da língua portuguesa. “Não é a banca quem decide se haverá provas de redação ou discursivas. Geralmente, esta fase é solicitada pelo contratante ou prevista em normas relacionadas ao órgão”. De acordo com Marcus Vinícius Soares (foto), coordenador acadêmico do Cespe/UnB, as provas discursivas cobradas em seleções públicas são diferentes daquelas exigidas para ingresso em graduação nas universidades públicas. Por isso, os candidatos devem ficar atentos. “A redação do vestibular trata de um tema genérico e o indivíduo É avaliado quanto ao conteúdo e à língua portuguesa. Nos concursos, é comum que as questões discursivas abordem temas específicos e é provável que elas consigam captar os melhores talentos.”  

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017