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Sem precisar contar carneirinhos

Não é novidade pra ninguém que uma noite mal dormida faz mal à saúde. Mas pouca gente diz que regularmente dorme bem, de fato. Por que isso acontece e como evitar os chamados transtornos do sono?

Cecília Garcia - Redação Publicação:28/03/2013 17:07Atualização:28/03/2013 17:20

Barulho na casa do vizinho, preocupações com compromissos, dívidas, problemas pessoais ou profissionais... são muitos os acontecimentos do dia a dia que podem atrapalhar uma boa noite de sono. E não são poucos os estudos que mostram que dormir mal traz consequências negativas à saúde, entre elas, o aumento do risco de obesidade e de problemas cardiovasculares e mentais.


De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, 40% dos brasileiros sofrem algum distúrbio que atrapalha a hora de dormir e precisam – no imaginário popular – contar carneirinhos para ver se o sono chega. Para quem acha que uma noite mal dormida é algo desprezível, é bom tomar cuidado, pois especialistas são unânimes em alertar: dormir bem é fundamental para o bom funcionamento do nosso organismo.


Quando se fala dos pilares da saúde, o sono está entre os quatro mais importantes. De acordo com o neurologista Ricardo Afonso Teixeira, seu mérito equipara-se à respiração e à alimentação. O especialista diz, ainda, que o sono repõe as nossas energias deixando o cérebro pronto para funcionar no dia seguinte. “O órgão não para durante o sono. É nessa hora que as memórias entram no seu devido lugar”, explica.


No processo, o cérebro entra em outro ritmo de funcionamento, trabalhando em dois estágios: o REM (Rapid Eye Movement ou “movimento rápido dos olhos", em português) e o não-REM. O primeiro é a fase em que acontecem os sonhos, e o segundo divide-se em ciclos. Para detectar o que há de errado, em qualquer um desses estágios, é usada a polissonografia, um exame no qual os principais fatores monitorados são os movimentos das pernas, padrão respiratório, eletrocardiograma e oxigenação durante o sono. Nele são verificadas alterações em cada um desses aspectos.

'O órgão não para durante o sono. É nessa hora que as memórias entram no seu devido lugar', explica o neurologista Ricardo Afonso Teixeira (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
"O órgão não para durante o sono. É nessa hora que as memórias entram no seu devido lugar", explica o neurologista Ricardo Afonso Teixeira

Para Ricardo Afonso Teixeira, antes mesmo de se pensar sobre questões externas que influenciam na noite de sono, é preciso buscar ter uma rotina equilibrada – nunca é demais relembrar: fazer atividades físicas regularmente, ter uma alimentação saudável e evitar substâncias tóxicas. O especialista alerta ainda para um hábito prejudicial que tem se tornado comum, principalmente entre jovens: “Levar laptop para a cama não é recomendado, mesmo que seja para joguinhos. Porque é um momento de preparação para o que vem a seguir”, explica.


Contudo, existem alguns casos em que os distúrbios do sono afetam a qualidade de vida, mesmo que todos os cuidados corriqueiros tenham sido tomados. Foi o que aconteceu com Luciana Arantes. A servidora pública tem hipersonia (doença caracterizada por sonolência excessiva) desde criança e conta que cansaço e irritação faziam parte da sua rotina: “Onde eu ia, tinha sempre vontade de dormir. As pessoas me chamavam de preguiçosa”, relata.


Mãe de duas filhas, Luciana conta que a sonolência sempre atrapalhou seu lazer e trabalho. Com a chegada das crianças, a situação ficou ainda mais complicada. “Dormia mais mal e não sabia como lidar. Nem sabia que existia hipersonia”, conta. Foi aí que resolveu procurar um especialista. Passou por vários médicos até chegar a um neurologista. Por meio de uma polissonagrafia, ela descobriu que durante o período que dormia, acordava sem perceber. “Durante as 7h30 de exame, foram descontadas 3 horas em que eu acordei sem notar.”


Luciana começou então a tratar com remédios fitoterápicos e conta a ajuda de máscaras para os olhos para diminuir ainda mais a luminosidade na hora de dormir. O resultado foi percebido em pouco mais de uma semana. “Agora consigo dormir 5 horas por dia. Acordo com pique, descansada, pronta para as tarefas do dia.”


A pneumologista Eloísa Glass, chefe da unidade multidisciplinar do Hospital Regional da Asa Norte (Hran), explica que as principais doenças do sono são a insônia, a apneia e o ronco; e qualquer problema relacionado deve ter acompanhamento médico. “Insônia é o mais frequente dos distúrbios”, diz. E seus três estágios mais comuns são a de iniciação (dificuldade de começar a dormir), a de manutenção (em que a pessoa acorda várias vezes durante a noite) e o despertar precoce. “Se acontece uma vez, não é doença. Se tem frequência maior que duas vezes na semana, é patologia”, diz.

Com uma doença pouco conhecida, a hipersonia, Luciana Arantes demorou a encontrar tratamento: hoje dorme bem com a ajuda de máscaras para os olhos e remédios fitoterápicos  (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
Com uma doença pouco conhecida, a hipersonia, Luciana Arantes demorou a encontrar tratamento: hoje dorme bem com a ajuda de máscaras para os olhos e remédios fitoterápicos

Já a apneia, segundo problema mais comum, é a obstrução da passagem de ar pelo relaxamento da musculatura da garganta à noite. A idade do paciente (quanto mais velho, maior é a perda de elasticidade) e o peso (engorda a área do pescoço e barriga), influenciam na ocorrência da patologia. Quanto ao ronco, a reclamação é grande, mas ainda não é classificado como doença. Segundo a médica, não se sabe o que o provoca.

 

Guia da boa noite de sono

- O ambiente deve ter pouca luminosidade, ser silencioso e ter temperatura adequada

- Deve-se procurar criar um ritmo de vida: deitar e levantar sempre nos mesmos horários e tentar dormir pelo menos 7 horas por dia

- Prepare-se para o descanso, pratique atividades físicas no máximo até 3 horas antes de dormir

- Jamais ir para a cama de barriga cheia. Prefira refeições leves a noite. Cuidado: fome e sede também fazem mal, atrapalham o sono

- Bebidas alcoólicas ou estimulantes devem ser evitadas antes de dormir 

 

Todo cuidado é pouco

Efeitos imediatos da privação de sono: falta de atenção, redução da memória, do vocabulário e da capacidade de calcular.

Efeito no longo prazo: ganho de peso, pois durante a noite o cérebro secreta substâncias que reduzem a fome durante a noite. Quem não dorme bem, acaba sentindo necessidade de ingerir maiores quantidades de comida. Além disso, os sistemas endócrino e cardiovascular são afetados, problemas neurológicos e distúrbios metabólicos podem ocorrer.

 

 (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
3 perguntas para Carlos Viegas, fundador do Ambulatório do Sono do Hospital Universitário de Brasília (HuB)

Mitos e verdades sobre o sono

 - Cochilar à tarde prejudica o sono da noite?


Até 20 minutos, o cochilo faz bem para o organismo e promove aumento da sobrevida. Mais que isso e em maior frequência, aumenta o risco de mortalidade.

 - Há um padrão correto de colchão, travesseiro e coberta?


Não existe. Sendo de qualidade, só depende do bem estar de cada um.

 - Televisão no quarto atrapalha?


Sim. Ela leva luminosidade para o quarto e não deixa o ambiente silencioso. Além disso, a programação pode influenciar na falta de sono.


 

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017