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Cultura | Empreendedorismo »

Uma panela de expressão

Teatro no meio de um piquenique, empréstimo de livro em açougue, performances e exposições em loja de decoração e por aí vai. Quem são as pessoas por trás dos projetos culturais independentes que têm movimentado a cidade

Maria Júlia Lledó - Redação Publicação:01/04/2013 13:55Atualização:01/04/2013 15:15

Show do Milton Nascimento pelo projeto Noites Culturais T-Bone: evento, que começou despretensioso, já reuniu mais de 20 mil pessoas (Adauto Cruz/CB/DA Press
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Show do Milton Nascimento pelo projeto Noites Culturais T-Bone: evento, que começou despretensioso, já reuniu mais de 20 mil pessoas
 

A célebre geração coca-cola de Brasília cresceu e levantou voo pelo mundo deixando uma lacuna a ser preenchida. As bandas de rock ficaram em segundo plano e, por algum tempo, permaneceu no ar aquela sensação de vazio, de que havia pouca oferta de programação cultural de qualidade e, mais importante, com a identidade própria. Ultimamente, no entanto, a produção cultural de Brasília ganhou cara nova.

 

Desplugados do cenário rock’n’roll, há pessoas e grupos que, com iniciativas pra lá de criativas, dão nova dinâmica à cena artística da cidade. De forma isolada ou coletivamente, promovem shows, encontros, eventos, seminários, debates, exposições, movimentos e uma série de outros eventos, que podem ser reunidos sob a aba do mesmo chapéu: o empreendedorismo cultural.


Muitos movimentos começam de forma despretensiosa e, ao longo do tempo, ganham corpo. Que o diga o açougueiro e agitador cultural Luiz Amorim, de 47 anos. Em 2013, o Noites Culturais T-Bone vai comemorar 15 anos em grande estilo. Sem estragar a surpresa, ele adianta que haverá shows entre abril e setembro. Na abertura, a orquestra sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro, sob regência do maestro Cláudio Cohen, se apresentará com o cantor e músico Ed Motta. Enquanto no segundo semestre, uma atração internacional deve sair às ruas.


Reconhecida em 2003 como programação oficial no calendário cultural do DF, o projeto já levou mais de 20 mil pessoas às calçadas da 312 Norte só na última edição, em agosto de 2012. No palco, ao longo de mais de uma década, Lenine, Milton Nascimento, João Donato, Alceu Valença, Zé Ramalho e outros grandes nomes da música brasileira abraçaram o projeto, que começou despretensiosamente.


Pioneiro no empreendedorismo cultural  na capital, Luiz  Amorim começou com uma biblioteca no açougue: 'Qualquer lugar pode abrir as portas para a cultura' (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
Pioneiro no empreendedorismo cultural
na capital, Luiz Amorim começou com
uma biblioteca no açougue: "Qualquer
lugar pode abrir as portas para a cultura"
Alfabetizado aos 16 anos, o comerciante baiano sempre quis reger duas paixões: o açougue T-Bone e as atividades culturais. Amorim só foi concretizar esse sonho após muito esforço. No começo, em 1994, ele improvisou prateleiras e livros próprios disponíveis para a leitura dos clientes. Quando deu por si, vendia dois quilos de filé e emprestava um livro de José Saramago. A partir daí, não demorou para que ele promovesse vernissages no estabelecimento.


Apesar do estranhamento inicial do público, o comerciante investia todo o lucro em lançamentos de livros, exposições, bienais de poesia e shows. A arte “essencial à alma”, como diz Amorim, poderia, enfim, conversar com a carne, “alimento para o corpo”. A única pedra no sapato desse agitador cultural é a resistência de alguns moradores da superquadra, que já buscaram o poder público para alterar o palco da Noite Cultural T-Bone. Resistente, o açougueiro defende: as manifestações artísticas devem ocupar as ruas e não apenas os teatros e museus. Mas, para evitar confusão, Amorim faz campanhas que incentivam os frequentadores a vir a pé ou de ônibus para as noites de shows badalados.


Motivo de orgulho para a cidade, não só pela teimosia do idealizador ou pelo inusitado local, as noites culturais não devem parar nesse primeiro debut. Com patrocínio da Petrobrás desde 2002, o projeto é, segundo Amorim, um fomentador da cena artística brasiliense. Consciente de que inspira outros grupos e agitadores culturais da cidade, ele percebe que mais eventos espontâneos e igualmente despretensiosos pipocam pela capital. “Minha intenção nunca foi resolver a vida cultural da cidade, mas fazer uma provocação: qualquer lugar pode abrir as portas para a cultura”, aposta.

 

Um piquenique de atrações

 

Miguel Galvão, Júlia Hormann e Ricardo Pieri, três dos integrantes do grupo Pik Nik: a ideia é fazer os jovens valorizarem o que existe de bom na cidade (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press
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Miguel Galvão, Júlia Hormann e Ricardo
Pieri, três dos integrantes do grupo Pik Nik:
a ideia é fazer os jovens valorizarem
o que existe de bom na cidade
Quantas vezes você já ouviu essa frase: “Ah... Em Brasília não há nada de novo para fazer”. O economista e DJ Miguel Galvão The Miguelitos, de 27 anos, já ouviu tantas vezes essa reclamação que decidiu fazer algo a respeito. Para derrubar preconceitos, ele teve uma ideia há dois anos. Que tal um piquenique? Não necessariamente nos moldes tradicionais, mas um evento  que fosse um momento de encontro e de descontração ao ar livre.


Somente em 2012, Miguel viu a oportunidade de colocar a ideia em prática. Com a ajuda da amiga Juliana Neto, encontrou o espaço “em branco” onde poderia estender a toalha xadrez: o calçadão do fim da Asa Norte. Surgiu, então, o Pik Nik. “Um espaço onde pessoas de diferentes idades e estilos poderiam se encontrar, durante o dia, conferir um bazar com produtos de artistas locais e ainda ter a música como pano de fundo. Como se criássemos uma ‘esquina’ na cidade”, define.


A primeira edição, no aniversário de Brasília (21 de abril), atraiu mais de 2 mil pessoas. “Aos trancos e barrancos fechamos um orçamento enxuto. Tudo o que fizemos sai do nosso bolso porque apostamos em um programa cultural que pudesse encurtar essa distância que separa os moradores da cidade de novos e criativos artistas locais sem um canal de comunicação com o grande público”, explica Miguel.


Júlia Hormann, publicitária; Ricardo Pieri, comunicador; Carolina Monteiro, secretária executiva; Priscila Araújo, publicitária; Juliana Neto, administradora, e Miguel embarcaram na proposta que, neste ano, acontece em abril.  “Não vivemos em função do evento e sabemos que muitos projetos bons em Brasília acabam logo porque, mesmo que a estreia tenha sucesso, mantê-lo é difícil.  A princípio, topamos fazê-lo de dois em dois meses, até porque o Pik Nik é 100% independente”, conta Miguel.


“Pau pra toda obra” no Pik Nik, o paulista Ricardo Pieri valoriza as manifestações artísticas brasilienses e conta aos amigos de São Paulo o que vê por aqui. “Sempre tem coisa boa rolando aqui. O problema é que nem os próprios brasilienses sabem de festas, eventos, bazar, exposição, teatro... Tudo isso está rolando quase todos os dias e você pode escolher. Agora, o que é preciso haver é uma simbiose entre o artista e o público”, arremata.

 

Uma ideia em 10 minutos

Integrantes do Coletivo Ossobuco, cujo lema é 'mais tutano para a sua vida': Vinícius Santos, Aline Valek e Marcos Felipe Pereira (acima) e Thompson, Leandro Ferreira e Márcia Ferreira (Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
Integrantes do Coletivo Ossobuco, cujo lema é "mais tutano para a sua vida": Vinícius Santos, Aline Valek e Marcos Felipe Pereira (acima) e Thompson, Leandro Ferreira e Márcia Ferreira

O que esperar de um animado encontro de publicitários em uma mesa de bar? Em vez de conversa fiada, esse grupo de amigos criou um projeto pioneiro na cidade. Como a criação se deu entre garfadas do carro-chefe no bar do Amigão (506 Sul) – o tradicional ossobuco servido às quarta-feiras –, o coletivo foi batizado com o nome do prato do dia. A ideia seria compartilhar informação e conhecimento das mais diversas áreas.

Para isso, pensaram em realizar um evento com palestras curtas e interessantes. “O primeiro foi na minha casa. Daí, percebemos que era possível abrir a proposta para muita gente da cidade que tem ótimas ideias e nenhum espaço para disseminá-las”, conta Leandro Ferreira, criador do Ossobuco.


Com o lema “Mais tutano para sua vida”, o evento estreou em 2011 e atraiu, primeiramente, os amigos dos publicitários. As palestras também eram elaboradas pelo próprio grupo. Até que o evento começou a ganhar um número maior de “curtidas” na rede social Facebook e atrair um público diverso. Pessoas que não se intimidaram com o horário – segunda-feira à noite – para ouvir palestrantes falarem sobre filosofia, comunicação, arte contemporânea, fotografia, saúde, empreendedorismo e outros assuntos.


Dessa forma, esse sarau de ideias trouxe para a plateia “os amigos dos amigos dos amigos”, brinca a analista de sistemas Márcia Carmo, de 29 anos, co-organizadora do Ossobuco. Neste ano, com apoio institucional da livraria Cultura do Shopping Iguatemi, o grupo constatou que a ideia tinha, de fato, potencial. “Queremos inspirar outras pessoas a se expressar. Da mesma forma que nos inspiramos com palestras disponíveis em vídeos na internet e que alcançam internautas de todo o mundo”, aposta o diretor de arte Marcos Felipe Pereira, 25, também integrante do grupo.


Para ser palestrante, não precisa ser o bambambam da área. O grupo avisa: basta enviar o currículo e o material que se quer compartilhar. Os palestrantes ainda ganham assistência para montar a palestra, reduzi-la para 10 minutos e usar recursos visuais. Ao final, o evento também é registrado por câmeras e disponibilizado na rede. “Antes, era a gente que procurava essas pessoas. Hoje já tem muita gente que nos busca para, então, selecionarmos”, comemora Leandro.


Enquanto não define a programação de 2013, o Ossobuco publica novidades no site e nas redes sociais. Realizado sempre na última segunda-feira do mês, o Ossobuco promete longa vida. “Quem sabe assim mais pessoas passem a valorizar seus próprios projetos e ideias e descubram que passar o conhecimento para frente, em vez de arquivá-lo a sete chaves, é o melhor caminho”, passa o recado Leandro.

 

Moda e arte para matar a sede

 

A empresária Gracilene de Bessa Paulino criou o Limonada Project: uma espécie de feira para reunir os produtos de artistas da cidade (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press)
A empresária Gracilene de Bessa Paulino
criou o Limonada Project: uma espécie de
feira para reunir os produtos de artistas
da cidade
Inquieta é o adjetivo que melhor traduz a empresária Gracilene de Bessa Paulino. Dona de uma loja de roupas e de artigos de decoração no Sudoeste, Grace, como é conhecida pelos clientes e por amigos, não se contentou com a loja. Queria mais. Em contato com o mundo da moda, sentia falta de eventos relacionados ao segmento, além de ter dificuldades em encontrar peças de jovens artistas da cidade. Decidida a espantar o “marasmo”, ela criou em 2012 o Limonada Project.


Com ajuda do marido e empresário, Diogo Matheus Gomes, o evento remeteria à ideia criativa e “refrescante” da jovem empreendedora de mostrar o trabalho de jovens estilistas e artistas locais. Tudo para matar a sede de novidade de quem mora na cidade. A cada mês, ela reservaria um sábado para promover palestras, cursos ou workshops, além do carro-chefe do Limonada: a venda de artigos de arte, design, decoração e, claro, de moda. “Promovemos um espaço onde empresários e artistas podem trocar ideias para comercializar bens culturais”, explica Grace.


Para explicar o projeto, a jovem comerciante não se intimida ao usar o termo economia criativa. O que ela e o marido buscam com esse projeto é ampliar o espaço para a exposição de trabalhos e de intervenções artísticas. “O que falta agora é martelar na cabeça desses jovens criadores que é importante compreender melhor o meio em que se dá o negócio. Somente assim, haverá o fomento da cena local”, defende a empresária.


Para as edições do Limonada Project, a empresária faz uma curadoria refinada. Na última edição, em dezembro passado, muitos artistas e designers ficaram de fora, mas esperam uma próxima oportunidade. “Tem muita gente que chega para mim e quer vender o produto sem conceito ou sem cuidados. Não é assim. Tanto que batemos muita perna para escolher os designers que participam”, conta. Por enquanto, o evento é pago com o aluguel de cada “estande” da feira em formato, claro, de barraquinha de venda de limonada. O próximo está marcado para 6 de abril, em frente à loja VerdeManga, na quadra 302, do Sudoeste.

 

Sob nova direção

 

Os irmãos Bebel e Lucas Hamu abrem a loja Objeto Encontrado para exposições e performances: 'Essas atividades levam a arte para um público maior', justifica Bebel (Raimundo Sampaio/Encontro/DA Press
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Os irmãos Bebel e Lucas Hamu abrem a loja
Objeto Encontrado para exposições e
performances: "Essas atividades levam a
arte para um público maior", justifica Bebel
Antes de os irmãos Bebel, de 26 anos, e Lucas Hamu, de 24, comprarem a loja e galeria Objeto Encontrado na 102 Norte, o espaço já era palco de escritores e de artistas plásticos da cidade. Talentos sem galerias onde pudessem mostrar desenhos, fotografias e pinturas ao grande público. Ao assumir a direção em julho do ano passado, a dupla de empreendedores resolveu não mexer nesse time vitorioso.

 

Fizeram apenas alguns ajustes. Até mesmo porque ela, barista, e ele, filósofo, vieram de Goiânia com novas referências da arte contemporânea e viram em Brasília um cenário cultural efervescente. “Percebemos que aqui a arte acontece. As pessoas se organizam e fazem, sem grandes pretensões, muitas atividades culturais que dão certo”, constata Bebel.


O primeiro evento que os sócios emplacaram foi em outubro do ano passado. Projeto do artista goiano Oscar Fortunato, convidado para a estreia, a performance Pessoa Solta provocou a imaginação dos visitantes da Objeto Encontrado. O número de pessoas que foram conferir a exposição justificou o investimento de Bebel e de Lucas.

 Parte desse crédito, eles dão ao boca a boca dos clientes. Outra parte, à força expressiva das redes sociais, principalmente ao Instagram, na divulgação.


A rede social de fotos mais popular do mundo trouxe curiosos para conhecer o trabalho de Fortunato. Particularmente, os participantes do Igersbsb que, orientados pela publicitária Heloisa Rocha, de 46 anos, idealizadora do grupo, instigou os instagramers a registrar o Pessoa Solta e a interpretá-lo com o suporte da fotografia. “É muito bom ver esse contato do público com a arte e com o artista. Não tem como alguém, espontaneamente, bater à porta de ateliês. Então, essas atividades culturais e gratuitas levam arte e inspiração para um público maior”, reflete Bebel.

 

Outras iniciativas pela cidade

 

Aparelhinho


O bloco Aparelhinho – espécie de carro alegórico de som em miniatura – estreou nas ruas de Brasília no carnaval de 2012, quando reuniu centenas de curiosos no Setor Bancário Sul para uma folia em versão eletrônica. O grupo, liderado pelos produtores e DJs Barata, Pezão, Ops e convidados, repetiu a fórmula em novembro passado no Setor Bancário Norte, levantando a bandeira "Ocupe o centro". No carnaval, o Aparelhinho foi às ruas e já planeja novas aparições.
(www.facebook.com/criolinabrasilia)

Pé de Passagem


Ocupar os espaços ociosos da cidade foi a intenção do violeiro e pesquisador musical Cacai Nunes. Impulsionado por esse desejo, elelevou vitrola e caixa de som para a passagem subterrânea da 111/ 211 Norte, transformando-a em um autêntico arrasta-pé. Chamadode Forró de vitrola, o evento comemorou a 30ª edição em um local público depois que o músico contou com autorização do GDF.
(www.facebook.com/cacainunes)

Arte embaixo do bloco


Para incorporar a arte ao cotidiano das pessoas, a jovem marchand Flavia Gimenes teve a ideia de expor obras de artistas da cidade no pilotis do bloco I da 307 Norte. Batizado de Brasília Contemporânea, o projeto sem portas ou ingressos abre passagem para essa jovem geração da arte contemporânea na cidade, "sem que dependam do mainstream", explica, no site criado para a proposta. O projeto pode ser financiado pelo público e por empresas privadas por meio da aquisição de obras e/ou a partir de contribuições que a marchand explica ser "um mecenato coletivo".
(brasiliacontemporanea.com)

Teatro na Sacola


Em dezembro de 2012, o grupo Teatro na Sacola levou ao Jardim Botânico o evento Cena Ambiental, com a intenção de refletir, experimentar e trocar expressões em um espaço fora do roteiro cultural convencional da cidade. Durante quatro dias, o público conferiu peças de teatro, palestras, shows, filmes e manifestações circenses. O objetivo do projeto é permitir que ambientes, como o Jardim Botânico, possam ser ocupados com arte. O grupo também pretende solidificar o diálogo entre os artistas da capital e convidá-los para expor ao público os seus trabalhos e suas questões a fim de contribuir para uma cena cultural coletiva fortalecida. (sacolacenaambiental.blogspot.com.br)

 

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017