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Comportamento | Diversão »

A hora delas

Mulheres ganham programação especial em happy hours de Brasília, com direito a drinks mais adocicados, promoções de doses duplas e TVs desligadas do futebol

Jéssica Germano - Redação Publicação:04/04/2013 16:15Atualização:04/04/2013 16:51

'A gente trabalha o dia inteiro e happy hour é para relaxar. É o fôlego para terminar a outra metade da semana', diz Kamylla Monteiro (de azul), que frequenta o Primeiro Cozinha de Bar com as amigas Jéssica, Barbara e Raíssa (Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
"A gente trabalha o dia inteiro e happy hour é para relaxar. É o fôlego para terminar a outra metade da semana", diz Kamylla Monteiro (de azul), que frequenta o Primeiro Cozinha de Bar com as amigas Jéssica, Barbara e Raíssa
 

O hábito não é novidade nem chega a soar como uma das grandes conquistas femininas do século, apesar de estar ligado diretamente à independência delas. Poder escolher a melhor mesa do bar, beber e petiscar enquanto se fala de assuntos aleatórios como amores, moda, dietas e trabalho bem no meio da semana – logo depois do expediente – é um tanto comum. A novidade toma lugar quando elas passam a dominar (seguindo a tendência mundial da maioria das áreas em que atuam) um habitat naturalmente conhecido pela presença de homens. Agora, pelo menos uma vez por semana, a brecha do horário de pós-expediente em alguns bares da capital do país é voltada para mulheres. Com bebidas, ambientação e música especialmente direcionadas para o público feminino.


“As mulheres vêm ganhando espaço e tabus vêm sendo quebrados”, comenta Carlos Reis, gerente de atendimento do Primeiro Cozinha de Bar, com a convicção de quem acompanha desde novembro o movimento específico delas na matriz, em Águas Claras (desde dezembro, o bar tem uma filial no Sudoeste). Já famoso por suas inovações nos drinks coloridos e nas combinações gastronômicas, o Primeiro criou, há quatro meses, o Quarta das Amigas, na unidade de Águas Claras. Nos dias de evento (toda quarta-feira), o happy hour das 18h às 20h é voltado para mulheres, com doses de cozumel (bebida feita com cerveja, suco de limão e sal) e vinho frisante (com aparência de espumante) pela metade do preço. Além disso, a atração musical da noite é uma aprovação feminina, feita por consulta de público, e as televisões espalhadas pelo ambiente podem até transmitir partidas de campeonatos futebolísticos, só que sem som. A grande área é livre para o papo delas.

Flávia Pereira (à dir.) e seu grupo de colegas de trabalho: a cada semana a reuniãozinha acontece em um lugar diferente para aproveitar o pós-expediente (Bruno Pimentel/Encontro/DA Press)
Flávia Pereira (à dir.) e seu grupo de colegas de trabalho: a cada semana a reuniãozinha acontece em um lugar diferente para aproveitar o pós-expediente

A programação especial reafirmou a constatação de Carlos Reis e dos proprietários da casa, que já enxergavam nas mulheres um notável público para bares. Com a iniciativa, o faturamento da noite triplicou, e passou a elencar a terceira noite mais movimentada do bar, perdendo apenas para a sexta e o sábado. Segundo o gerente, as mulheres já correspondem a quase 60% do público frequentador do Primeiro.


“Tem dias e dias: tem aqueles em que você sai para a balada, querendo conhecer gente, e tem aqueles em que você quer se divertir, só com as meninas”, pontua a estudante de odontologia Raíssa Rodrigues sobre a noite exclusiva para as amigas. Figurinha certa em happy hours, ela costuma sair com o mesmo grupo pelo menos uma vez por semana. Para uma das companheiras de mesa e papo, sair para um bar depois de um dia inteiro de trabalho, em plena quarta-feira, não é sacrifício algum. Pelo contrário: “A gente trabalha o dia inteiro e é o momento para relaxar. É o fôlego para terminar a outra metade da semana”, defende Kamylla Monteiro, assessora financeira, com uma animação contagiante.

As amigas Fernanda Carvalho e Marina Abramides tomam chope no Cadê Tereza: 'Pode até acontecer de você paquerar alguém em um happy hour, mas não é o objetivo da saída', diz Fernanda (à dir.) (Fotos: Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
As amigas Fernanda Carvalho e Marina Abramides tomam chope no Cadê Tereza: "Pode até acontecer de você paquerar alguém em um happy hour, mas não é o objetivo da saída", diz Fernanda (à dir.)

Pesquisadores interessados no assunto buscam entender o comportamento que envolve as risadas altas, a multiplicidade de assuntos e a facilidade na comunicação. O resultado de um estudo feito na Inglaterra, apesar de não vir acompanhado de grandes surpresas, elenca números que retratam bem uma das relações mais próximas que a mulher contemporânea mantém. De acordo com a pesquisa, realizada em 2011 e publicada recentemente, 75% das mulheres consultadas, entre 18 e 65 anos, relaxa mais com as amigas do que com o próprio namorado, marido ou companheiro. Quase metade delas, 44%, chegou a afirmar que as garotas são melhores ouvintes do que eles. Enquanto isso, uma em cada seis trocaria facilmente uma noite romântica por uma saída com amigas. Se você é mulher, deve conhecer bem essas sensações. Se homem, deve juntar-se ao movimento e entender o que ilustra as noites que têm um único padrão e regra para acontecerem: a diversão.


As amigas Leila Santos, Lívia Vasco, Tatiane Couto e Janaína Neves curtem o início da noite no Villa Imperial: na programação de quarta, elas são recebidas com uma taça de espumante e as transmissões de futebol são proibidas  (Fotos: Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
As amigas Leila Santos, Lívia Vasco, Tatiane
Couto e Janaína Neves curtem o início da
noite no Villa Imperial: na programação
de quarta, elas são recebidas com uma taça
de espumante e as transmissões de futebol
são proibidas
“Às vezes a gente fala até de política”, conta a assistente social Lívia Vasco, ao mostrar até onde pode ir o extenso leque de assuntos em uma mesa só de mulheres. A movimentação de Brasília durante o carnaval, o posicionamento feminino diante das demandas modernas, a sunga branca do David Beckham em uma campanha publicitária... Os tópicos são os mais distintos e, quase que inacreditavelmente, se completam. “Mas os mais comuns mesmo são relacionamento e beleza”, destaca Janaína Neves, que completa a mesa formada por quatro mulheres. Mais tarde elas receberam outras colegas que participaram do encontro das “Divas”. A autointitulação refere-se ao nome de um grupo de quase 20 amigas em redes sociais. Por Facebook ou What’sApp, elas se comunicam para marcar os encontros. “O dia a dia já é tão corrido que a gente mal se fala. Esse é o momento de se encontrar para descontrair e colocar a conversa em dia”, explica a publicitária Leila Santos entre as amigas, que concordam em coro.


No Villa Imperial, que fica na 210 Sul, com decoração inspirada na época que dá nome ao bar, todas as quartas a mulherada é recebida com uma taça de espumante, e segue a noite com doses duplas de caipifruta. “Percebemos que as mulheres são um público que dá um retorno pra gente, que está frequentando mais os bares, e que nós queremos na nossa casa”, conta Raquel Souza, uma das proprietárias do lugar. “Mas o consumo das bebidas é diferente”, pondera, comparando ao público masculino. “Elas costumam preferir o gosto da bebida mais doce”, por isso a escolha dos drinks de destaque da noite. O Happy Hour das Garotas, nome que encabeça a programação especial das 17h30 à meia-noite, acontece há mais de seis meses, com acréscimo, inclusive, de opções doces de petiscos, tanto no serviço de rodízio, pelo qual o estabelecimento é conhecido, quanto no cardápio, a fim de agradar ao paladar feminino. Na programação da noite, as transmissões de futebol são proibidas e, nos televisores, apenas música ambiente.


'Percebemos que as mulheres são um público que dá um retorno para o negócio, elas estão frequentando mais os bares', conta Raquel Souza, uma das proprietárias do Villa Imperial, ao lado do sócio Robson Batt  (Fotos: Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
"Percebemos que as mulheres são um público
que dá um retorno para o negócio, elas
estão frequentando mais os bares", conta
Raquel Souza, uma das proprietárias do
Villa Imperial, ao lado do sócio Robson Batt
Segundo o gerente do bar Cadê Tereza, localizado na 201 Sul, o foco nas mulheres tem uma base muito simples: “Onde tem mulher, o homem está junto”, atesta Leonardo Queiroz. Nesse bar, apesar de não haver uma noite específica voltada para elas, nos dias de atrações musicais de maior porte, mulheres entram de graça, enquanto os homens pagam, em média, R$ 20. Entretanto, mesmo com a empolgação masculina, elas garantem que na noite de reunir as amigas o flerte fica em segundo plano. “Pode até acontecer de um dia você encontrar alguém e paquerar, mas não é o objetivo da saída”, afirma a arquiteta Fernanda Carvalho.


Após a experiência de um ano em Dubai, o empresário Rodrigo Cabral viu de perto o sucesso de noites voltadas exclusivamente para mulheres, comumente denominadas ladies night no exterior, e resolveu experimentá-la em Brasília. Com sete meses de funcionamento, o Ares do Brasil, no Lago Sul, inovou e investiu em um único dia de happy hour na casa: às terças-feiras, com as meninas como alvo. O resultado foi o VSA (sigla para Você e Suas Amigas), no qual das 19h às 21h, garotas são presenteadas com três tipos de espumante à vontade, além da sugestão de brigadeiro de creme brûlée como sobremesa da noite. A ideia, que começou em meados de fevereiro, segue até a última terça de março fixa no calendário do restaurante, mas seus três proprietários já se animam para implementá-la de vez. “É um projeto que deu certo e tem grande chance de voltar”, adianta Cabral.


Se a noite especial deve seguir como tendência pelos bares da cidade, não se sabe ao certo. O fato é que elas aprovam o destaque especial e estão fazendo bonito para que os atrativos continuem. “A gente já vem para um, pensando em onde será o próximo happy hour”, assume a arquiteta Flávia Pereira.

Fórmula de sucesso: no bar Ares do Brasil, as noites de terças-feiras são voltadas exclusivamente para mulheres, costume comum em outros países, onde os eventos são denominados ladies night  (Fotos: Bruno Pimentel / Encontro / DA Press)
Fórmula de sucesso: no bar Ares do Brasil, as noites de terças-feiras são voltadas exclusivamente para mulheres, costume comum em outros países, onde os eventos são denominados ladies night
 

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EDIÇÃO 58 | outubro de 2017