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Território teimoso

Todas as faces de Brasília se encontram no Conic. O centro comercial sobrevive aos maus--tratos do tempo, ao descaso do governo e segue como um templo da diversidade que atrai um público eclético, de todas as classes sociais

Leilane Menezes - Colunista Publicação:15/04/2013 16:09Atualização:15/04/2013 17:06

A diversidade do Conic não cabe no papel: o skate e as lojas cheias de personalidade são pontos fortes do local (Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
A diversidade do Conic não cabe no papel: o skate e as lojas cheias de personalidade são pontos fortes do local
 

Seres inimagináveis habitam o Conic. Tente não se espantar ao ver um vampiro andar tranquilamente, à luz do dia, pelo local, com presas afiadas e roupas no melhor estilo Drácula de ser. Mais à frente, você pode esbarrar em algum escritor conhecido ou poeta famoso da cidade, enquanto o intelectual toma um café ao lado de bêbados – não importa a hora ou o dia da semana, é sempre momento de beber uma dose nos botecos do Conic. Alguns passos adiante, um show de hip-hop, campeonato de skate, idosos jogando cartas, cultos religiosos e encenações teatrais. Não é exagero dizer que tem de tudo ali.

Vocação para a singularidade: embaixadas e butiques da época da inauguração deram lugar a clubes noturnos, mesas de jogos e bares populares (Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
Vocação para a singularidade: embaixadas e butiques da época da inauguração deram lugar a clubes noturnos, mesas de jogos e bares populares

É preciso sentir o Conic. Explorá-lo com olhos convidativos, abertos ao desconhecido. Alguns ressaltam seus problemas: a sujeira nas paredes, a fama de inseguro e a presença de usuários de drogas. Outros recusam-se a deixá-lo. O Conic é feito de gente, portanto, é imperfeito e, ainda assim, desperta paixões. Há quem tenha uma íntima relação com esse espaço. Contar a história do Conic é contar a vida de muitos brasilienses.


São 2 mil lojas comerciais, quase todas ocupadas, de acordo com a prefeitura do Setor de Diversões Sul, nome mais formal do bom e velho Conic, apelidado com intimidade por quem o frequenta. A sigla era o nome da construtora que ergueu os 15 prédios que formam o complexo. Mais de 400 mil pessoas circulam ali, diariamente. É quase o equivalente à população de Ceilândia, a maior cidade do Distrito Federal.

Prefeita desde 2004, Flávia Portela quer renovar o espaço: 'Queremos transformar 
o Conic na maior galeria aberta do país' (Raimundo Sampaio/ Encontro/ DA Press)
Prefeita desde 2004, Flávia Portela quer renovar o espaço: "Queremos transformar o Conic na maior galeria aberta do país"

Trata-se de um oásis da boa convivência entre estilos de vida diferentes. Igrejas evangélicas ficam próximas à Federação Nacional de Umbanda. Uma livraria religiosa é vizinha do sex shop. Quando a noite chega e, com ela, as prostitutas, homens com Bíblias tentam convencer as garotas a trocar o ponto pelo culto. Também abordam os participantes das festas gays do Espaço Galleria, na saída da boate. Sem sucesso, em geral.


Ivan Presença vende livros no Conic há 40 anos e recebe visitantes ilustres (anônimos e famosos): dificuldades não o fazem desistir (Minervino Junior/ Encontro/ DA Press)
Ivan Presença vende livros no Conic
há 40 anos e recebe visitantes ilustres
(anônimos e famosos): dificuldades
não o fazem desistir
O setor é também onde ocorre a maior concentração nacional de sindicatos e de sedes de partidos políticos. O preço do aluguel da loja é um dos mais baratos do centro de Brasília, em média, R$ 600. Bem ao lado, no Conjunto Nacional, essa quantia não pagaria nenhuma sala. Há, ainda, estúdios de tatuagem, sauna, livrarias, restaurantes, salões de beleza, lojas de discos, de produtos para skate, de hip-hop, de artigos musicais e de roupas. A loja Da Bomb promove batalhas de MCs e duelos de b-boys, no segundo sábado de cada mês. Mais de 500 pessoas costumam prestigiar as apresentações gratuitas, ao ar livre.


Dos oito cinemas que ficavam ali em 1970, não restou nenhum. A maioria foi tomada por igrejas. O último a ser fechado, em 2009, foi o Cineritz, que se tornou cinema erótico e casa de prostituição.
A diversidade do Conic não cabe no papel. Tampouco pode ser captada em sua totalidade. Mas é possível degustá-la pouco a pouco. O Setor de Diversões Sul fazia parte do projeto de Lucio Costa. À época da inauguração, em 1967, Brasília tinha apenas 7 anos. O Conic era outro.


Ocupado, principalmente, por funcionários das embaixadas sem sede que se instalavam na nova capital, o centro de comércio já demonstrava vocação para a singularidade. A arquitetura característica, composta pelo complexo de 100 mil m², com áreas abertas, diferenciava-o dos shoppings comuns. Ali, era possível ver o céu. Havia lojas sofisticadas e pouca gente circulando. Anos depois, as embaixadas mudaram-se dali. As butiques também. Deram espaço a bares populares e clubes noturnos.


Faculdade Dulcina pede socorro: estudantes e professores unidos para ressuscitar a  escola de arte
 (Raimundo Sampaio / Encontro / DA Press)
Faculdade Dulcina pede socorro: estudantes
e professores unidos para ressuscitar a
escola de arte
Esquecido pelo governo, o Conic passou a abrigar usuários de drogas e tornou-se ponto de prostituição. Ganhou fama de violento e espantou a classe média. Em 2004, quando a atual prefeitura comunitária assumiu a responsabilidade, 40% das lojas estavam vazias. Hoje, de acordo com a prefeita e arquiteta Flávia Portela, praticamente não há vacância. “Alguns prédios, como o Eldorado, um dos principais, não tem sequer uma sala disponível este ano. O Conic se recuperou, porque é um território teimoso”, diz Flávia. Além de ações para aumentar a segurança, segundo a prefeita, os jovens voltaram a ser atraídos para o local. Apostas de negócios trouxeram a vida de volta para o incomum centro comercial.


No próximo mês, a prefeitura lançará uma agenda cultural para o Conic. Quer chamar a população (para que o setor cumpra mais a função impressa em seu nome) a se divertir. Haverá lançamento de livro e shows, além de exposições de arte todos os meses. “Queremos transformar o Conic na maior galeria aberta do país. Vamos começar com a inauguração de painéis de Paulino Aversa e Toninho de Souza, no aniversário de Brasília”, planeja Flávia, ambiciosa.

A equipe da loja Da Bomb organiza festivais gratuitos de hip-hop: muito além do comércio (Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
A equipe da loja Da Bomb organiza festivais gratuitos de hip-hop: muito além do comércio

O Conic tem seus heróis da resistência. Gente que não saiu de lá nos piores tempos e age como se mudar de endereço fosse como trocar de pele. Um dos pontos mais emblemáticos é o teatro e faculdade de artes Dulcina, que deve tornar-se faculdade distrital nos próximos meses. Há anos, a escola particular passa por dificuldades e, no mês passado, o governo prometeu assumi-la. Os próprios alunos fazem a limpeza do teatro, rateiam os custos dos espetáculos e convivem com a falta de professores. Vestibular não existe há dois anos. Professores e estudantes lançaram o movimento Ressuscita Dulcina, em memória da fundadora, uma das maiores damas do teatro, que veio para Brasília a convite de JK e escolheu o Conic para trabalhar, nos anos 1970.

Aposentado, Luiz Gonzaga vai ao Conic todos os dias, às 10h da manhã: 'Aqui todo mundo é bem-vindo' (Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
Aposentado, Luiz Gonzaga vai ao Conic todos os dias, às 10h da manhã: "Aqui todo mundo é bem-vindo"

Outro famoso personagem da história do setor é Ivan Presença. Aos 16 anos, começou a trabalhar no Hotel Nacional. Apaixonado por livros, nos anos 1980, realizou o sonho de abrir a livraria Presença e um charmoso café no Conic. O espaço ganhou fama e recebia convidados como Leonardo Boff, Rubem Braga, Marcelo Rubens Paiva, os irmãos Paulo e Chico Caruso, Zuenir Ventura, Frei Betto e Henfil para lançamentos de livros e noites de poesia. Qualquer anônimo era igualmente bem-vindo para mostrar sua arte. Anos depois, a livraria fechou as portas, com a crise que atingiu a economia nacional.
Ivan ocupou um quiosque improvisado no Conic, perto de onde ficava a livraria Presença. Desde então, vende livros usados. É um dos comerciantes mais antigos. Certo dia, o escritor Moacyr Scilar veio visitá-lo, já no Quiosque Cultural. Sentou-se no mesmo banquinho em que se sentam os moradores de rua em busca de conversa. “Batemos um papo e ele foi embora. O Hotel Nacional é aqui do lado. Sempre que tem artista e poeta de fora eles vêm. Os daqui também sempre passam para dar um oi”, conta.


Gislene Sousa é sócia de uma loja de camisetas: lugar de gente bem-humorada (Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
Gislene Sousa é sócia de uma loja
de camisetas: lugar de gente
bem-humorada
Entre os ocupantes fiéis do banquinho em frente ao Quiosque Cultural, está o piauiense Luiz Gonzaga, de 69 anos. Aposentado, ele vai ao sebo diariamente. Chega às 10h, em busca de conversa, das velhas amizades e do amor. Dizem que Gonzaga é o mais galante da área. “Aqui é o meu expediente agora. Todo mundo é bem-vindo no Conic”, afirma Luiz. O aposentado ajuda o amigo Ivan a tomar conta do sebo e assim ameniza a tristeza que o afeta desde que o filho Armando Moraes morreu, aos 38 anos.


Bem próximo ao Quiosque Cultural, está a Negro Blue. A loja vende camisetas com estampas que valorizam a cultura negra. Faz parte da mesma sociedade que administra a Verdurão e a Sete Palmos, todas no Conic, com diferentes temáticas e o mesmo sucesso de vendas, desde 2003. Na Negro Blue, uma das mais procuradas é a camisa com a foto do ministro Joaquim Barbosa, o presidente do Supremo Tribunal Federal. “A parentada dele veio toda comprar. Deve ter bombado nas festas de fim do ano”, disse a empresária Gislene Sousa, que divide a sociedade com Luiz Henrique Soares, mais conhecido como Pio.


Renato Barcelos trabalha fantasiado de vampiro: peculiaridades do Conic (Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
Renato Barcelos trabalha fantasiado
de vampiro: peculiaridades do Conic
São de Pio as ideias das camisetas do Verdurão. “As queridinhas são as com estampas relacionadas a Brasília”, ele explica. Uma delas traz a gíria mais comum, a expressão “véi”, e uma caricatura de Oscar Niemeyer. O Conic é lugar de gente bem-humorada. “Existe uma reputação antiga, é quase uma lenda urbana brasiliense, que trata de prostituição, consumo de drogas e violência. Coisas de quem não o conhece de verdade. O Conic é uma incógnita para a maioria dos brasilienses. Mas eles não sabem o que estão perdendo”, avalia Pio.


Quem ignora o Conic deixa de conhecer a Berlim Discos, a resistente loja de CDs, DVDs e vinis. Criada por Reinaldo Freitas há 23 anos, ela nunca mudou de endereço, nem fechou as portas. Reinaldo deixou um emprego público para ser empresário. Começou negociando a própria coleção de discos, com mais de 6 mil exemplares. “Hoje, por incrível que pareça, o que mais vende é vinil. A garotada acha novidade, quer mostrar para os amigos”, diz. A Berlim Discos é mais que uma loja comum. Funciona como bar, onde a bebida é substituída pela música. “As pessoas amam conversar em loja de música. Elas fazem amigos aqui, passam horas trocando informação sobre as bandas de que gostam e criam relações muito próximas”, relata Reinaldo.

Paixão pela música: Reinaldo Freitas deixou o serviço público para cuidar da Berlim Discos, há 23 anos, no Conic (Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
Paixão pela música: Reinaldo Freitas deixou o serviço público para cuidar da Berlim Discos, há 23 anos, no Conic

O atendente da Berlim Discos é um vampiro. Renato Barcelos tem 46 anos e mora em Taguatinga. Vlad Thepes vive há mais de quatro séculos e mora nas sombras da noite. São, respectivamente, criador e criatura. Renato veio da cidade mineira de Uberaba, há seis anos. Em Brasília, conheceu o teatro do absurdo e a cultura gótica. Diz ser apaixonado pelo visual e pelos contos vampirescos. Foi longe na admiração: aumentou as pontas dos caninos com resina para que elas ficassem parecidas com as de um vampiro. Confecciona parte das próprias roupas: blusas com babados, uma cartola e sobretudos pretos de couro, além de coturnos, compõem o visual. Vlad vai de ônibus para o trabalho, sempre caracterizado. “No mundo de hoje, os seres da noite não são os que mais dão medo. A realidade já é assustadora o bastante”, reflete.

Salões afro valorizam os cachos da clientela: foi no Conic que Valentina, de 2 anos, cortou o cabelo pela primeira vez (Minervino Júnior / Encontro / DA Press)
Salões afro valorizam os cachos da clientela: foi no Conic que Valentina, de 2 anos, cortou o cabelo pela primeira vez

O Conic vai muito além da filosofia dos vampiros. Nos salões especializados em cabelos afro, mulheres descobrem como cuidar dos fios cacheados, sem necessidade de mudar a própria essência para se encaixar em padrões. A pequena Valentina Gonçalves, de 2 anos, teve seu primeiro corte de cabelo em um desses salões. “Ensino minha filha a amar o cabelo dela. Muitas meninas aprendem a se achar bonitas aqui”, disse a mãe da menina, Jéssica Gonçalves. No Conic, cada um pode ser o que é.

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EDIÇÃO 55 | Julho de 2017